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dossier apito avermelhado

nartanga

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#2
:-lmao:-lmao:-lmao:-lmao:-lmao:-lmao:-lmao
Luisbatista said:
4ª parte:-rofl2

:-lmao:-lmao:-lmao:-lmao:-lmao:-lmao:-lmao:-lmao:-lmao:-lmao:-lmao
Quanto é que os gajos receberam para forjar estes documentos?????
:-rofl2:-rofl2:-rofl2:-rofl2:-rofl2:-rofl2:-rofl2:-rofl2:-rofl2:-rofl2:-rofl2
Isto lembra aquele indivíduo que apareceu, a dizer que era gigolo da exmª sra Carolina Salgado e que depois como não teve crédito, desapareceu como apareceu.....rapidamente e sem deixar rastoHumpingHumpingHumpingHumpingHumpingHumpingHumping
O que gajos fazem fazem por amor ao clube/dinheiro....
 

benfica1969

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#3
Luisbatista said:
4ª parte:-rofl2
aqui fica a obra completa o polvo e sua mafia de 1 a 13 como resposta a esses documentos forjados este homem que escreveu vai ter direito a uma estatua em frente ao batatal do dragao.....
sei que e grande mas sao 30 anos de mafia e crropcao por parte do bimbo da bosta por isso tudo que esta aqui e pouco...
 

benfica1969

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#4

O POLVO


I


“ (...) Galo da Costa assumiu a derrota, mas não a digeriu. Parecia perdido para o futebol. A sua atitude revolucionária tinha deixado marcas bastante profundas. O seu futuro como dirigente estava severamente comprometido, mas Galo da Costa sempre acreditou que no futebol é o golo que comanda as atitudes e as situações e que provoca a queda dos dirigentes e treinadores. Por isso, GC não se deixava abater com tanta facilidade. A sua resistência não tinha limites e afinal só tinha perdido uma batalha. O importante, agora, era fazer com que o seu clube tivesse alguns desaires. Tinha, por isso, de montar a sua estratégia, mesmo sem os seus anteriores aliados. Os seus companheiros, os da tentativa de revolução, colocaram-se à margem para se aliarem a quem ficou com o poder, e os profissionais seguiriam o seu rumo, a sua vida era aquela; e, mais tarde ou mais cedo, acabariam por surgir novos empregos. Eram artistas do futebol, tinham mérito e qualidade. O seu caso era mais difícil. Era um dirigente com algum carisma ganho à custa do prestígio de Pidroto. A sua personalidade e capacidade ainda não tinham sido verdadeiramente testadas. Faltava-lhe prestígio para fazer frente a Américas de Sá. E não podia continuar a vender fogões toda a vida... Sem abandonar os bastidores do futebol, foi minando a gerência de Américas de Sá. Não era homem para ser derrotado com tanta facilidade, mas em alguns momentos chegou mesmo a sentir o desespero de uma causa que parecia perdida. Mestre a colocar o boato a circular, fez constar que um clube da capital lhe tinha dirigido o convite para assumir o comando do departamento de futebol. O objectivo era deixar passar a mensagem de que o inimigo tinha visto nele superiores qualidades e, perante tal facto, esperar que algumas vozes se levantassem, reconhecendo o erro que tinham cometido. Mas acabou por acontecer o contrário. A credibilidade de Galo da Costa em relação às posições que tomou em defesa do Norte foi afectada. Apercebendo-se de que a sua estratégia não resultara, logo se apressou a desmentir o boato posto por ele a circular. As eleições estavam próximas e era necessário estabelecer um plano mais sólido para derrotar Américas de Sá. Não era homem para viver sob o domínio da derrota ou mudar de atitude procurando novamente as boas graças do presidente. Na sua personalidade e forma de estar não encaixava a imagem de um falhado. Galo da Costa passou a sua idade escolar num colégio onde imperava uma grande influência da religião católica e quando atingiu o liceu foi internado num colégio de padres. Dos mais prestigiados do Norte do País. Ali fabricavam-se verdadeiros homens. Eram testados como cobaias para poderem enfrentar no futuro as mais adversas contrariedades da vida. Uma das disciplinas era constituída pela defesa individual de cada aluno perante toda a turma e, já nessa altura Galo da Costa era tido como o mais desenvolto no uso do discurso, na sua capacidade de raciocínio rápido e retenção na memória de dados essenciais. Inteligente e astuto como um verdadeiro jesuíta, bem cedo começou a demonstrar um grande sentido de chefia. Sabia como dividir para reinar, utilizando um ar cândido e descomprometido quando algumas atitudes de má-fé lhe eram dirigidas. Atirava a pedra e sabia como esconder a mão. Mas a sua verdadeira arma era a grande capacidade de trabalho e a completa dedicação a tudo o que fazia. Chegou a pensar ordenar-se padre, e o director do colégio apostava que, se ele seguisse essa carreira, iríamos ter o segundo papa português. A sua postura, a sua forma de falar e de estar deram-lhe sempre um toque clerical. A mesma mão que abençoava os amigos, empunhava a cruz onde ele havia de crucificá-los. Cativava, fazia amizades com facilidade e sabia como as utilizar e destruir como se nunca tivesse culpa de nada. Nunca foi grande atleta, mas a sua paixão pelo desporto atirou-o para o dirigismo. Começou por baixo, mas não foi necessário muito tempo para chegar ao topo da pirâmide. Destronar Américas de Sá era agora o seu maior desafio. Começou então a rodear-se de amigos com algum prestígio no clube, procurando apoios para se candidatar. Tarefa que não era fácil. Na altura, para se ser presidente de um clube de futebol era necessário ser-se um empresário de sucesso e ter dinheiro disponível para enfrentar algumas situações, e esse não era o caso de Galo da Costa. Ele sabia-o como ninguém e procurou então apoiar-se em pessoas abastadas economicamente, não dispensando o seu grande amigo, Ilídio Pintas. Havia, no entanto, uma situação que era necessário ultrapassar. O Ilídio tinha-se encostado ao Américas de Sá, mas GC sabia que ele estaria sempre do lado de quem tivesse o poder e, com alguma facilidade, jogava sempre com um pau de dois bicos. O certo é que Ilídio tinha o dinheiro, e GC iria necessitar desse apoio. Tinha também na mão outra gente que vivia desafogadamente em termos financeiros e que por terem sido preteridos por Américas de Sá se colocaram do seu lado, mas esses eram mais inteligentes e não seria fácil arrancar-lhes o dinheiro sem lhes dar nada em troca. Não podia também colocar em risco uma nova derrota. Tinha de ir à luta pela certa, e o momento era propício porque se começava a notar um certa instabilidade no seio do clube. Tudo servia para se atacar a gerência de Américas de Sá. Faziam-se assembleias gerais agitadíssimas, com Galo da Costa a colocar algumas pessoas estrategicamente no meio dos sócios a criar a confusão. Américas de Sá passou momentos de grande desespero, porque lhe era impossível controlar a situação. Foi então que tomou consciência da existência de um jovem com alguma história no clube. Reginaldo Teles, campeão nacional de boxe e na altura treinador, foi a solução encontrada para controlar as agitadas assembleias gerais. Ex-pugilista, brigão, chulo e nutrindo uma certa paixão por negócios ilícitos, ofereceu-se para arrumar a casa e impor a ordem nas confusões programadas por Galo da Costa. Era treinador de boxe do clube e reuniu os seus rapazes para patrulharem a sala, e o certo é que com alguns murros e cabeçadas acabou por conquistar o lugar de chefe da segurança de Américas de Sá. Galo da Costa temia-o, porque não era um brigão vulgar e muito menos um marginal estúpido e incompetente. Reginaldo Teles tinha um espírito e uma personalidade muito idênticos aos de GC. Dava as ordens para descascar à fartazana e depois surgia como o apaziguador, o bom rapaz que nada tinha a ver com aquela violência. GC detestava-o, mas viu nele a solução para o futuro (...)”.



II

”(...) Reginaldo Teles era um ás a esgrimir os punhos, sabia avaliar com grande exactidão a capacidade dos seus adversários, e quando não os podia vencer trazia-os para junto de si. Um anjo, este rapaz que veio bastante jovem de uma aldeia transmontana para servir numa tasca de um tio. O estabelecimento estava aberto toda a noite, numa altura em que ainda existiam poucas discotecas. E as que funcionavam em pleno estavam viradas para o alterno e a prostituição. Mas Reginaldo Teles sabia que «putas e vinho verde» só combinam nas horas e nos locais certos. Havia que tratar da vidinha. Ajudava o seu tio pela madrugada dentro e vivia com entusiasmo as cenas de pancadaria entre azeiteiros, putas e marginais. O seu sonho era um dia vir a ser como eles. Homens valentes, com charme, e mulheres tratadas a pontapé a levarem-lhes o apuro da noite e o que até tinham roubado ao prazer. Sobre as delícias do amor, Reginaldo propagandeava dotes extraordinários, como fruto da leitura de um livrinho que comprara na Feira de Vandoma, uma obra cujo título tinha algo a ver com cama(obviamente) e que ensinava a combinar o beijo inclinado com o beijo pressionado. Essa era a matéria que Reginaldo dominava perfeitamente, como já se disse, com destaque para a arte de beijar.
Mas ainda estava longe de ser o rei na noite, sendo por norma acordado por mais um pedido da Bety ou da Lady, pois as putas por aqueles lados tinham todas nomes ingleses...- Ó miúdo, serve-me aí uma sande de fígado com molho e cebola e um copo desse verde rasca que o teu tio tem aí! Reginaldo Teles não se deixava comover. Afinal, eram putas. Tinham de ser tratadas assim. Enrugando a face, com os cantos da boca a quebrarem para baixo, fazia inchar o peito, punha-se em bicos de pés na tentativa de imitar os chulos e atirava com o prato da sande e o copo para a frente da mulher enquanto pensava: «Ainda vais trabalhar para mim». Foi então que um indivíduo com cara de rato, esquelético e de cabelo oleoso, se foi encostando à prostituta que Reginaldo servia e, com uma habilidade nata, meteu os garfos na carteira e roubou-lhe o porta-moedas. Reginaldo, que estava por detrás do balcão a retirar da montra de vidro um naco de polvo envolto em cebola, viu a cena e não perdeu a sua oportunidade de brilhar. Saiu do balcão e, com determinação, agarrou o carteirista e evitou que a Aljazira, mais conhecida por Lady, ficasse sem os poucos tostões que o seu chulo lhe deixou. Apercebendo-se de toda a cena, a Aljazira levantou a mão e deu um soco no carteirista enquanto lhe dizia: -Ah, meu filho da **** de choringa! Sem tempo para pensar, Reginaldo Teles nem sequer hesitou quando se apercebeu que o carteirista ia responder à agressão. Formando um salto, deu uma cabeçada seguida de uma esquerda no choringa e este esparramou-se no chão sem vontade de se levantar. Quando o pôde fazer, nem sequer olhou para trás, deitando a fugir pela rua abaixo. Os presentes fartaram-se de gabar Reginaldo, não só pela sua coragem como também por aquela esquerda indomável. A Aljazira esqueceu-se de que tinha sido vítima de roubo e começou a medir o miúdo de alto a baixo com um sorriso comprometedor e, olhando por cima do ombro, disse-lhe quase num sussurro: -Hoje tens direito a uma de graça! -Com direito a beijo pressionado?- quis logo saber Reginaldo. Que sim, disse ela. Reginaldo Teles não cabia em si. Puxou do pente que trazia no bolso de trás das calças, passou-o pelos cabelos e não deixou ninguém perceber que ainda era virgem. Pegou no resto do vinho que sobrou no copo da Aljazira e emborcou-o de uma golada enquanto lhe dizia: -Estou-te com uma sede! Quando fechou a tasca, lá estava a Lady à sua espera para uma madrugada de amor. Mas estava, ainda, Reginaldo com a chave metida na porta, e já o chulo da Aljazira lhe tocava no ombro. -Onde pensas que vais meu filho. O estabelecimento já fechou. Se queres desenferrujar o prego, espera para amanhã e não te esqueças de trazer trocado. Reginaldo Teles ficou fora de si. Já estava a pensar com os tomates, e aquele gajo não lhe podia vir estragar a festa. Olhou de alto a baixo o chulo. Fixou-o bem nos olhos e achou que lhe podia dar uma tareia. A sua célebre esquerda saltou como um gancho e abateu-se nos queixos do chulo. Ainda este não se tinha recomposto e já levava um meia dúzia de socos, caindo KO no passeio. Numa só noite, Reginaldo tinha abatido dois adversários. Aljazira não hesitou. Estava cheia daquele chulo, e Reginaldo seria o seu novo amante. Meteu-lhe o braço e, com firmeza, levou-o até ao seu quarto alugado, por trás da Igreja da Trindade. Por coincidência ou não, os sinos tocaram a assinalar as cinco da matina e uma gata berrou de cio. Reginaldo estava eufórico e, depois de ter descascado em dois duros da noite, não podia de forma alguma deixar perceber que aquela era a sua primeira noite de amor. As suas calças de bombazina preta começaram a ser afagadas por Aljazira enquanto ela se despia. Ao ver o seu par de mamas, Reginaldo não se aguentou mais e teve uma ejaculação. Lady sentiu as calças humedecidas. -Já te vieste? Reginaldo, sem mostrar atrapalhação por aquele percalço, ensaiou uma vez mais a pose de durão.
-Isto é só uma amostra. Vê se te preparas depressa. E em que pressinha se foi a virgindade de Reginaldo Teles. Aljazira ficou encantada com toda aquela fogosidade e, mostrando-se submissa, pediu com um certo carinho: -A partir de hoje vais ser o meu chulo? Reginaldo sorriu, enquanto puxava as calças para a cintura e apertava o cinto. -Depois da sova que dei ao teu chulo, achas que ele teria coragem de aparecer? O teu homem a partir de hoje, claro que sou eu. Mas para que essa conquista ganhasse forma, havia muitas lutas para vencer. Os pretendentes faziam fila porque o negócio estava mau e havia de aparecer um valentão a conquistar os seus direitos da mesma forma que o fez Reginaldo. Aljazira gostava do miúdo, era forte e atrevido, mas para ficar com ele tinha de pensar numa forma de o proteger. Reginaldo tinha punhos, mas faltava-lhe a experiência. De súbito, veio a solução. Ela tinha um cliente que era treinador de boxe do maior clube da cidade (do Porto) e ia-lhe apresentar Reginaldo Teles para o rapaz poder ir lá fazer uns treinos. Uma semana depois, o tal treinador de boxe disse a Aljazira que Reginaldo tinha futuro. A partir daí, quando as coisas aqueciam no «Ginginha», a tasca do seu tio, Reginaldo Teles fazia uns treinos extra, passando a ser conhecido e respeitado. Depois de fechar a tasca, aproveitava a boleia de um amigo e ia ter com a Aljazira, que atacava em Santos Pousada. Trazia o apuro e a rapariga. Os dois estavam apaixonados. O beijo pressionado passava à história. Reginaldo começou a somar êxitos no boxe e acabou por deixar o emprego na tasca do seu tio para se colocar como segurança e porteiro numa casa de alternos. Foi aí que conheceu a Lisa. Mas um dia, Aljazira descobriu tudo, entrou pela boite dentro, localizou a Lisa, que bebia uma garrafa de champanhe com um cliente enquanto este a beijava no pescoço, pegou-lhe pelos cabelos, atirou-a por cima da mesa e armou por ali uma algazarra tremenda. Reginaldo Teles tentou acalmar as coisas. Não podia perder o emprego e lá convenceu Aljazira a ir-se embora, não sem antes esta prometer que matava a Lisa se ela continuasse atrás do homem dela. Reginaldo Teles tinha-se tornado num dos chulos mais importantes da cidade e, com a ajuda da Lisa, acabou por comprar o seu próprio estabelecimento. O rapaz tinha jeito para o negócio, e a Lisa tinha uma perspicácia tremenda para escolher as melhores putas. Ambicioso, inteligente, hipócrita e já com algum poder económico, Reginaldo Teles tinha apenas mais um sonho: ser campeão nacional de boxe. Ele era bom de punhos, mas havia outros melhores. Com algum sacrifício e habilidade, conseguiu chegar à fase que lhe permitiu disputar o título. O seu adversário era poderoso e Reginaldo Teles não se podia arriscar a deixar fugir o seu sonho. Sempre inclinado para negócios marginais, colocou logo em prática um plano diabólico. Ele sabia que no boxe profissional a corrupção por parte de grupos marginais era uma prática constante e quase normalizada, e num ápice resolveu o seu problema. Contactou o seu adversário, negociou a vitória no terceiro "round" e um KO mal disfarçado deu-lhe a oportunidade de saltar no ringue elevando as luvas em sinal de vitória. Era importante para o seu negócio que os jornais noticiassem no dia seguinte que ele era o novo campeão nacional de boxe. Aquele título significava respeito e medo. Os factores mais importantes para quem quer gerir com tranquilidade uma casa de alternos e de prostituição. Este fora o seu primeiro acto no mundo da corrupção, e Reginaldo Teles ficou fascinado com o poder do dinheiro. Afinal, ele tinha feito um investimento altamente rentável. Pagou para conquistar o título, realizou o seu sonho e duplicou a facturação no seu estabelecimento. Ninguém se arriscava a criar conflitos na sua área de alternos e muito menos a deixar contas penduradas. Os punhos de um campeão eram sempre temidos.
Aproximavam-se novas eleições e Galo da Costa ia ganhando terreno. O treinador Austríaco (Hermann Stessl) que fora convidado para tomar conta do seu clube sob a gerência de Américas de Sá não estava a dar conta do recado. Os sócios habituaram-se aos títulos e queriam mais, mas a bola teimava em não entrar na baliza. Enquanto isso, GC esfregava as mãos e preparava a sua candidatura. Os apoios eram cada vez mais fortes, e uma nova estratégia foi colocada em movimento. Ele tinha de apostar forte na vitória eleitoral e, aproveitando os maus resultados da equipa, organizou por todas as freguesias da cidade sessões de esclarecimento com uma programação meticulosa. Iniciava-se, assim, a «Operação Ácido Sulfúrico», cuja alternativa, em caso de falhanço, tinha o nome de código de «Operação Cicuta». Na organização dos seus comícios, GC deu sempre preferência aos bairros pobres e à parte velha da cidade. Era aí que estava o povo e a força do clube. GC organizou o seu staff comandando um grupo de associados aos quais impôs serem eles a obrigarem-no a partir para uma candidatura. Desenvolveu-se então o célebre grupo dos 500, do qual saíram elementos devidamente comandados que se distribuíam pelos cantos das salas onde eram organizadas as tais sessões de esclarecimento. A missão deles era empolgar as sessões e fazer perguntas previamente combinadas com Galo da Costa. Numa dessas noites, na Associação Recreativa de Miragaia, foi assim: -Presidente, qual é o principal inimigo do clube? -Antes de mais, repito, ainda não presidente...Gargalhada geral, e GC tomou as rédeas à sala, não evitando porém a queda de estuque sobre o novo casaco, -O principal inimigo está dentro do clube, o servilismo a Lisboa. Estamos fartos de ser espoliados. Chegou a hora de dizer «basta». Com uma cajadada, GC matava dois coelhos. Para além do mais, o discurso saía-lhe cada vez mais com mais facilidade e tudo era acompanhado, comentado e analisado pela imprensa desportiva e jornais diários. A cidade e Américas de Sá viviam sob o fogo cerrado de Galo da Costa. O presidente já não podia sair à rua sozinho, e as assembleias gerais eram cada vez mais escaldantes, levando mesmo o doutor Américas de Sá ao desespero e a chorar em público. Foi nessa altura que Reginaldo Teles teve o seu papel mais importante. Organizou um grupo de guarda-costas recrutados nos quadros da secção deboxe do clube que, com alguns rufias nocturnos à mistura, organizou alguns ataques a jornalistas que de uma forma ou outra denunciavam a protecção a Galo da Costa. Evidenciando alguma inteligência e revelando o seu carácter de hipócrita, Reginaldo Teles verificou que a derrota de Américas de Sá era mais que evidente, e assim se foi distanciando da protecção que prometera ao seu presidente. Algumas figuras notáveis da cidade aliaram-se a Galo da Costa e, no momento das eleições, a derrota foi fatal para Américas de Sá (...)”.
Continua...



III

”(...) Galo da Costa tinha conseguido realizar o seu sonho, levando como trunfo o seu grande amigo e companheiro de luta Pidroto, o técnico que tinha conseguido o título para o seu clube. Firmando Gomes, o ponta de lança mais cobiçado, tinha sido emprestado a um clube espanhol e serviu de bandeira para ajudar à vitória. Também ele regressou. Mas Antónimo Oliveira, o ex-capitão que nunca se deixou dominar pelos desígnios de Américas de Sá, recusando-se terminantemente a regressar ao clube, passou por momentos bem difíceis.
Não de ordem económica, mas psicológica. Tinham-lhe sido vedadas todas as entradas numa equipa que estivesse ao seu nível. Foi marginalizado e refugiou-se num grupo de amigos, não recebendo a ajuda de ninguém, mesmo de Galo da Costa, pelo qual deu a cara. Antónimo Oliveira era uma vedeta do nosso futebol, uma estrela, um génio, e não podia ser esquecido. Foram meses de desespero. Foi sair da ribalta para o anonimato, mas nada vergou a personalidade deste jogador. Ficou sozinho, mas manteve a classe que sempre foi a sua imagem de marca. Sem clube e sem a mínima vontade de treinar, refugiou-se no ambiente nocturno tão ao seu gosto. Copos e mulheres eram a alma que mantinha de pé a forte estrutura psíquica do «Caddilaque» - apelido que carinhosamente lhe fora colocado pelos amigos mais chegados. Eram bacanais atrás de bacanais devidamente organizados no seu apartamento. Por aquele espaço passaram os melhores ballets de inglesas que actuavam nos casinos nortenhos, as melhores «strip-teasers», as habituais frequentadoras das discotecas e também «travestis» que satisfaziam as delícias de algumas convidadas lésbicas e bissexuais. Sexo em grupo era o prato forte. Após alguns meses de paragem, Antónimo Oliveira resolveu voltar à actividade, mas antes, na companhia de alguns amigos foi passar uns dias a Bordéus, onde esteve a ajudar na vindima. E só no seu regresso, com um visual totalmente novo, de cabelo encaracolado e sem bigode, aceitou um convite do clube da sua terra natal (Penafiel). Tinha uma equipa modesta, mas como era treinador-jogador, abria uma actividade totalmente nova no nosso futebol, revolucionando o sistema e isso teria sempre um enorme impacto mediático. Era a demonstração cabal de que Antónimo era, de facto um homem inteligente, que sabia estar e conhecia o terreno que pisava. A sua estrela voltava a brilhar e de tal forma que logo foi cobiçado por um grande clube da capital. Antónimo não sabia viver sem a companhia do seu irmão, o Joaquinas Oliveira. Foram sempre muito chegados. O Joaquinas Oliveira tinha uma discoteca de alternos e rivalizava com Reginaldo Teles. O seu mundo eram as putas, tal como Reginaldo, de quem diferia muito em termos de personalidade e carácter. Reignaldo era um valentão. Joaquinas Oliveira era pacífico e não era chulo, muito pelo contrário: chamavam-lhe«andor» porque gostava de se rodear de putas e pagar tudo. Todas as noites promovia ceias com dançarinas e também com algumas miúdas ligadas aos alternos. Levava sempre consigo amigos para se querer impor e provar que também era alguém. O negócio não dava para tudo, e vieram as dificuldades. As dívidas aumentaram e, com a ida do seu irmão para um clube da capital (Sporting) tudo piorava. Vieram as penhoras. E logo que Antónimo Oliveira se impôs no seu novo clube, tratou de arranjarum negócio para o seu irmão, uma queijaria nas imediações do estádio, onde era normal alguns jornalistas abastecerem-se sem pagar ou apenas por um preço simbólico (mantinha-se assim a tradição de «pato»). O irmão, pelo seu lado tinha-se assumido novamente como jogador-treinador e, com a ajuda do seu novo presidente, resolveu abrir uma agência de contratações de jogadores. A sua missão era contratar jogadores não só para o clube do seu primo, mas também para os outros. Foi criada a Olivedesportivos. Mas Joaquinas Oliveira não estava talhado para esta missão cuja actividade em Portugal ainda era muito pouco reconhecida. A fuga acabou por surgir através de um sistema de publicidade montado nos estádios, explorando os painéis. Antónimo e o seu irmão Joaquinas continuavam de boas relações com Galo da Costa, mas este, quando foi eleito presidente, resolveu encetar uma pequena guerra com Jonas Rocha, ex-emigrante nos Estados Unidos e presidente do clube onde Antónimo estava a jogar e a treinar (Sporting). As relações entre ambos esfriaram até à altura em que Galo da Costa resolveu tentar trazer novamente o Antónimo para o seu clube, mas o jogador manteve sempre um comportamento de grande responsabilidade. Para além de alguns defeitos, tinha uma grande virtude: nunca esquecia os seus amigos. Jonas Rocha fora o homem que lhe dera uma nova oportunidade para voltar ao top do futebol português, que o ajudou a montar a agência de publicidade para o seu irmão num momento difícil para ambos, e Antónimo não podia de forma alguma esquecer tudo isso. Recusou o convite, mas Galo da Costa não perdoou.
A guerra estabeleceu-se entre ambos até ao ódio e continuou até muito depois de Antónimo ter abandonado o clube da capital e optado pela actividade de treinador. Antónimo e o seu irmão nem queriam ouvir falar em Galo da Costa. «Dá comichão só de pensar nele», dizia um deles, o mais novo, mas claramente o mais esperto. A guerra entre os dois clubes e os respectivos presidentes foi aumentando. Galo da Costa tinha feito com que o seu clube voltasse às vitórias e aos títulos e, como sempre foi amante de uma guerrinha, mantinha a sua bem acesa com Jonas Rocha. A estratégia era de Pidroto: -No Norte só há um clube com força e na capital há dois, por isso só há uma forma de os poder dividir e lutarmos contra eles. Temos de estar sempre bem com um e abrir guerra ao outro. Galo da Costa absorveu a filosofia do «mestre» e acrescentou: - Tens toda a razão e até podemos alternar essa guerra, abrindo fogo sempre sobre o clube que estiver em melhores condições para poder lutar pelo título. Frustrada a tentativa de levar para o seu clube o Antónimo e em resposta a Jonas Rocha por este ter ripostado com a contratação de dois jogadores da sua equipa, Galo da Costa numa acção relâmpago contratou um miúdo que na altura estava a dar nas vistas no clube do seu inimigo Jonas Rocha. Nessa altura, estava longe de imaginar que seria aquele jogador que iria dar início ao seu grande golpe de estádio. O miúdo morava no Montijo e era anunciado como um craque de eleição. Mas o clube de Jonas Rocha abriu a guarda e, numa noite de lua cheia, um funcionário do clube rival do Norte acelerou no seu Renault até ao Montijo, não se esqueceu de comprar no caminho um pão-de-ló em Rio Maior para oferecer à família do rapaz e trouxe-o para a «Invicta», onde o craque se manteve como que sequestrado durante alguns dias. «É o Eusébio branco», dizia-se, se calhar com alguma legitimidade. O craque era conhecido pelo nome de guerra de Frutras. Entretanto, Reginaldo Teles, depois de ter abandonado Américas de Sá, mesmo antes de este ter perdido as eleições, insinuou-se perante GC e, como este ainda não se tinha esquecido da dimensão das dificuldades que lhe foram criadas pelo rapazinho que era treinador de boxe do seu clube, achou por bem abrir-lhe a porta e oferecer-lhe o lugar de chefe da segurança. Reginaldo Teles, consta, mandou abrir duas garrafas de champanhe «Moelas & Cabron», marca que o Fucinha, um dos seus empregados, não conseguiu encontrar no mercado, mas no fim ninguém reparava que era apenas «Raposeira» o néctar que estrondeava. Pidroto nunca esteve muito de acordo com essa acção. Era um indivíduo seguro, competente e com grande personalidade e não gostava muito, nem sequer apoiava, acções de violência ou de alguma forma marginais. Lutava por aquilo em que acreditava e tecia estratégias para a sua luta, contestando, vociferando e acusando de uma forma directa. Tornou-se polémico, irreverente e estabeleceu uma acção de combate virada essencialmente para a arbitragem, cujo controlo partia da capital. Por isso, contratou para a sua equipa um ex-jornalista (Luís Cessar) com a mania das estatísticas, e a sua primeira missão foi a de elaborar um ficheiro de todos os árbitros da 1ª categoria, contendo o maior número de informações. Nome, morada, actividade extra, número de filhos e datas de nascimento de toda a gente do agregado familiar. Como era contra a violência, e Galo da Costa não se cansava de gabar os dotes de Reginaldo Teles, Pidroto pediu ao presidente para lhe entregar a missão de ir a casa dos árbitros no dia do aniversário destes ou de um dos seus familiares para entregar uma pequena lembrança, independentemente do facto de esse árbitro ter ou não ter apitado qualquer jogo do clube. Era o início de uma operação de charme que resultaria em pleno (...)”.





IV



“(...) - «Reginaldo, hoje tens de ir a Setúbal entregar uma prenda para o filho do árbitro Carlos Fordes, que faz anos» - pediu, certo dia, GC.
Reginaldo Teles, sempre pronto para estas acções, lá rumou até Setúbal com um fio deouro e uma medalha gravada com o nome do filho do árbitro. Mas, quando lá chegou, não encontrou ninguém em casa. Uma vizinha, que estava na varanda a estender roupa, disse-lhe que tinham ido todos a casa da sogra festejar os anos do miúdo. Reginaldo não perdeu tempo: -Sabe dizer-me onde mora a sogra? -Mora em Lisboa – respondeu a vizinha, dando de imediato a respectiva morada. Reginaldo atravessou a Ponte e uma hora depois lá estava na casa da sogra de Carlos Fordes para entregar a respectiva prenda ao filho do árbitro. Cenas como esta sucederam-se, e todos aceitavam com agrado tamanha amabilidade. Era um gesto bonito e que ninguém podia condenar. Não estava em causa qualquer jogo ou favor, mas uma amabilidade que não era muito normal no futebol. Galo da Costa e Pidroto tinham escolhido a pessoa ideal para executar tal missão. Reginaldo Teles era bem sucedido quando espelhava a face da inocência, do desinteresse, do bom amigo. Foram dezenas e dezenas de missões como esta que deram entrada a Reginaldo Teles na intimidade dos árbitros. Depois de um gesto daqueles, era normal que convidassem Reginaldo para um brinde ou mesmo para ficar um pouco na festa familiar. Nasceram amizades e compadrios. Convites para encontros mais para o Norte e de preferência no seu bar de alternos, com mulheres e copos disponíveis. Lisa tinha tomado conta do negócio, e a sua experiência de mulher da vida muito batida ajudava a controlar e a organizar umas cenas de sexo com as miúdas escolhidas pelos árbitros que visitavam Reginaldo no seu estabelecimento. Pidroto desconfiava da situação e andava assustado com o negócio, mas a doença tomou conta dele e perdeu força, muito embora comandasse todas as operações e estabelecesse estratégias a partir do seu leito, com a cumplicidade do seu fiel adjunto Antónimo Morais. Galo da Costa não gostava da política que estava a ser adoptada e, picado por Reginaldo Teles, com quem tinha relações já muito estreitas, começou a trair o seu grande amigo Pidroto. Reginaldo sabia que o técnico não gostava muito do seu estilo nem apoiava algumas das suas acções. Queria dar dignidade ao clube, e um chulo não seria a personagem ideal para representar em diversas acções a grandiosidade do projecto que ele queria atingir. Reginaldo Teles sabia insinuar-se perante as pessoas. Começou a convidar o presidente para uns copos no seu território. GC nunca se tinha visto rodeado de tantas mulheres. Tinha uma educação de seminarista e nunca lhe passara pela cabeça trair a sua mulher, mas um dia não resistiu às investidas de uma das funcionárias do seu grande amigo Reginaldo Teles. A mulher tinha sido bem escolhida por Lisa e educada por Reginaldo. GC sentiu-se no céu, quando desceu ao leito do amor. Nunca tinha vivido experiência como aquela. Deu consigo a pensar: -Como é que foi possível andar 40 anos sem conhecer uma experiência como esta? Reginaldo tinha ganho a sua primeira batalha. O presidente ficou agarrado a ele através do amor de terceiras (e de quartas, quintas, sextas... não sendo também incomum aos sábados...). Vieram outras experiências, outras mulheres e Galo da Costa andava eufórico. Depois de Pidroto ter morrido, Reginaldo Teles passou a ser o expoente máximo de Galo da Costa, e os outros vice-presidentes do clube não andavam nada contentes com a situação. Um dos grandes amigos de GC chegou mesmo a comentar: -O GC tem uma cabeça extraordinária. O seu mal foi ter começado a ir ao pito aos 40 anos. Isto dito assim nem parece nada, mas a verdade é que a vida nocturna transformou por completo Galo da Costa, que pensou, por momentos, ter alcançado o paraíso na Terra. Reginaldo Teles tinha uma influência extraordinária sobre GC, levando-o mesmo a dizer que só confiava em Reginaldo e no seu gato. Lisa geria o «Play-Girl», o novo bar de Reginaldo, com uma eficiência extraordinária, mas não passava de uma ex-****, ou mais propriamente de uma **** reformada, mas ainda com boa pinta. A amizade entre ela e GC tinha aumentado graças aos excelentes encontros que ela lhe ia conseguindo com as suas melhores raparigas.
A ligação de Reginaldo Teles ao futebol proporcionava-lhe bons negócios e passos gigantescos na sua ascensão na direcção do clube. A acção de charme com os árbitros evoluía cada vez mais. Os dirigentes que não aceitavam Reginaldo iam sendo afastados. Mesmo aqueles que já tinham uma amizade de longos anos com Galo da Costa. O sexo tinha tomado conta da mente do homem e não havia nada nem ninguém capaz de o fazer parar e encarar a situação de uma forma mais digna. A assiduidade de Galo da Costa era quase diária e não havia forma de alterar os hábitos adquiridos. As mulheres desfilavam pela sua mesa e ele só tinha de escolher qual queria comer e a forma como o queria fazer. Era norma ser o patrão o primeiro a experimentar as novas empregadas, mas essa função no «Play-Girl» passou a pertencer a GC. Era a porta aberta para o êxito e a ascensão de Reginaldo Teles.

O clube de Galo da Costa tinha atingido o auge tanto em termos nacionais como europeus. Era o apogeu, o delírio e o júbilo de um povo que nunca se tinha visto em tamanha aventura. GC fez esquecer o seu velho e grande amigo Pidroto, evitando qualquer comentário que pudesse recordar o velho mestre. A glória tinha de ser só sua e de mais ninguém. A cidade caiu-lhe aos pés, e foi a partir dessa altura que GC tomou consciência do poder que tinha e que Reginaldo Teles começou a alimentar a sua grande esperança de um dia vir a ser alguém no seu clube. Reginaldo tinha Galo da Costa quase na mão, através dos assíduos encontros deste último com as suas miúdas. As amantes sucediam-se e até entravam em lista de espera. GC sentia-se um Don Juan e conhecia uma vida totalmente diferente daquela a que sempre estivera habituado. O poder alimentou ainda mais a sua ambição e começaram aí as traições aos seus melhores amigos. Umas como pura defesa pessoal, outras para abrir caminho para os que iam chegando e prometiam uma maior subserviência, o que lhe dava a garantia de poder governar sozinho e principalmente sem ter de dar muitas explicações. Os títulos traziam muito dinheiro para os cofres do clube e Galo da Costa já tinha esquecido os momentos em que era apenas um vendedor de fogões, muito embora continuasse ligado à mesma firma, onde mantinha uma posição superior. Os milhares com que tinha de lidar começaram a toldar-lhe a mente e a aumentar a sua ambição. O seu clube era um grande chamariz para os grandes negócios e não faltaram oportunistas para tirar partido disso. Foi nessa altura que surgiu um empresário italiano muito ligado à venda de jogadores, mas com negócios ilícitos à mistura. Luigiano D´Onofrio já tinha jogado futebol em Portugal, e acabou por criar raízes no nosso país, mais propriamente a sul, aproveitando uma grande parte do seu tempo para entrar nas redes ligadas ao tráfico de droga... e era mesmo vital aquele ponto geográfico para o negócio!

Luigiano D´Onofrio, um indivíduo baixo, magro e com cara de rato, de nariz afilado mais parecendo um bico, apareceu pela mão de Reginaldo Teles e recebeu a bênção de GC. Luigiano D´Onofrio era um empresário sem escrúpulos e com alguns mandatos de captura em diversos países europeus, precisamente por tráfico de droga, mas foi acolhido como uma pessoa de grande interesse para o clube. Galo da Costa foi quem mais lucrou com a sua vinda. Os jogadores do seu clube inflacionaram-se no mercado europeu, e Luigiano D´Onofrio viu ali um grande negócio para si e para GC. Em todos os jogadores que fossem negociados para o clube ou que saíssem dele, o presidente teria sempre a sua percentagem, desde que mais ninguém interferisse no negócio. Após o recebimento das primeiras comissões Galo da Costa via-se rodeado por dois elementos ligados ao mundo do crime. Não era segredo para ninguém que Luigiano D´Onofrio tinha ligações com a Mafia italiana e que Reginaldo mais alguns familiares viveram sempre de habilidades e negócios marginais, negócios centralizados na prostituição e na receptação de objectos roubados. «Pena é que estes ramos não estejam inscritos nos fundos comunitários», costumava dizer Reginaldo, que um dia ficou deliciado quando em Amesterdão viu umas garinas expostas em montras. Por um só momento, Reginaldo viu a rua de Santa Catarina transformada um gigantesco bordel, imaginando situações do tipo «leve três e pague duas» ou «pague o seu bacanal em dez suaves prestações». Mas era sonhar muito alto.
Foi este tipo de gente que fez engolir em seco muitas pessoas honestas e com dignidade que estavam ligadas ao clube. Alguns protestaram, defenderam a ideia de que o clube tinha de ser gerido com mais transparência e acabaram por ser afastados. Como aconteceu com Adalberto Magalhães, reputadíssimo empresário. GC, cada vez mais lá no alto, qual Deus do Olimpo, qual César à frente das legiões, não dava tréguas: -Aqui quem manda sou eu, e quem não estiver bem que se afaste! O clube vivia momentos conturbados em termos directivos, mas os resultados desportivos eram óptimos. Consequentemente, Reginaldo Teles ia subindo na hierarquia do clube. Já tinha subido de chefe de segurança a chefe de departamento de futebol, uma ascensão que deixou muita gente de boca aberta, mas que foi aceite sem grande contestação, pois nessa altura já Reginaldo tinha todo o seu staff de segurança organizado. Reuniu alguns dos maiores rufias da cidade, alguns dos seus conhecidos dos negócios marginais e de prostituição, e impôs um cordão de silêncio tanto a jornalistas como a dirigentes. Quem contestasse ou denunciasse algo que não convinha, recebia a visita de um desses marginais e ficava sem vontade de dizer mais nada, subordinando-se ao silêncio e à aceitação dos factos. Nem os sócios conseguiam fugir a esta perseguição (...)".
Continua...



V



”(...) Mas quando as derrotas surgem ou os resultados demoram a aparecer e as exibições não são as melhores, há sempre associados que contestam. No final de um jogo em que o clube tinha perdido, um associado, passando ao lado dos balneários, não se coibiu de lançar alguns insultos ao presidente e seus pares. -Filhos da ****, chulos, vão trabalhar! Galo da Costa, que estava de sobretudo e mãos nos bolsos, tendo a seu lado Reginaldo Teles e mais dois dirigentes de menor importância, todos rodeados por quatro capangas, deu de imediato uma ordem em surdina: -Fodam-me esse gajo! Os quatro capangas deram meia volta, seguiram o indivíduo até às imediações do estádio e deram-lhe uma sova, perante o olhar incrédulo das outras pessoas que não sabiam muito bem o que se estava a passar. Era a lei da força e do silêncio. O esquema estava montado, e dirigente que ousasse abandonar o clube e falar do que ouviu ou viu, sabia bem o que lhe poderia acontecer. O grupo de seguranças foi-se refinando alicerçado pela parcialidade e impunidade com que os próprios jagunços era tratados e alongou-se até alguns agentes de autoridade que não se importavam de ostentar as suas armas como forma de intimidação. Foi sobre esta onda de poder e segurança que Galo da Costa construiu o seu império e imperializou a sua própria imagem. Ele sentia-se um Al Capone à portuguesa, com a vantagem de não poder ser apanhado pelo fisco, pois não tinha rendimentos legais que justificassem qualquer tributação. Tinha, isso sim, o poder nas mãos e ficou ainda mais seguro disso a partir do dia em que se aliou a um bruxo muito conceituado em terras brasileiras que dava pelo nome de Pai Jójó (Delainei Vieira), um bruxo que não se limitava aos orixás, fornecendo também a equipa de futebol com frasquinhos de vidro que continham um guaraná em pó muito especial, esmagado por uma tribo de índios do interior do Brasil. O «speed», normalmente recomendado para os gulosos do sexo, ajudava os craques e, aliado à normal injecção de «vitaminas», tornava-os super-homens dentro do campo. E era certo que a aparelhagem do anti-doping estava completamente desajustada para detectar o que quer que fosse. Mas até este sector, a seu tempo, foi devidamente controlado. Entretanto, Reginaldo Teles não cessava a sua actividade, continuando a arranjar as melhores amantes para Galo da Costa e a dar-lhe toda a protecção. Rodeado de poder, mas ainda sem dinheiro, o presidente, como lhe chamava Reginaldo, tinha algumas limitações, mas nunca esqueceu o velho amigo Ilídio Pintas, a quem continuava a extorquir o dinheiro que queria para efectuar alguns negócios, sempre com a promessa de que um dia este viria a ser vice do futebol profissional. -É uma questão de tempo. Você tem de ter paciência. Necessito de si em lugares mais importantes para a vida do clube. Um dia o futebol será seu. Com estas palavras de Galo da Costa, o Ilídio Pintas lá ia passando uns cheques e cobrindo algumas despesas, porque fortuna pessoal foi coisa que nunca se conheceu ao presidente. O grande negócio acabaria por surgir. Um clube espanhol (Atlético de Madrid) interessou-se pela aquisição de Frutas, e o seu presidente resolveu vir a Portugal contactar o jogador, sem antes consultar o clube de Galo da Costa. Mas a organização, constituída por mais de uma dezena de guarda-costas, estava sempre bem informada de tudo quanto se passava na cidade e essencialmente dos assuntos que diziam respeito ao clube. Por isso, quando chegou a boa nova de que o presidente do clube espanhol estava em Portugal para falar com Frutas, foi de imediato colocado um plano de ataque em marcha, cujo nome de código era «Caça à Peseta». Apesar de Gilas y Gilas estar, no seu país, bem à altura de Galo da Costa, quando veio a Portugal estava muito longe de saber o que lhe ia acontecer. Chegou ao Porto e combinou encontro com um empresário, para avaliar a possibilidade de levar Frutas para Espanha. O bar era pequeno e decorado de uma forma simples. No fundo da sala, um pouco na penumbra, estava sentado Gilas y Gilas à espera do tal empresário quando irromperam pela sala dentro quatro indivíduos que, sem darem cavaco a ninguém, o rodearam e apertaram contra a parede, lançando o aviso: -Se voltas aqui sem primeiro falares com o presidente do nosso clube, podes ter a certeza que não sais daqui vivo. Na próxima, não há aviso! - rugiu Reginaldo, decalcando o final da sua declaração de um filme que tinha visto em Pinheiro da Cruz. Estas palavras foram ditas com tanta certeza e segurança que Gilas y Gilas quase se mijou pelas pernas abaixo. Fora a sua primeira lição como futuro presidente de um dos maiores clubes espanhóis. «Coño, em Portugal não se brinca», suspirou, ainda com as pernas a tremer como varinhas verdes. Gilas y Gilas não disse palavra, limitando-se a sair do bar e a enfiar-se na sua viatura, acelerando, sem olhar para trás, até Espanha. Gilas até se esqueceu de comprar um queijo da serra em Vilar Formoso, como prometera a Carmena, a sua amante de Madrid/Sul. Já no seu território, contactou directamente com Galo da Costa, e este, sem muitas palavras, indicou-lhe um interlocutor: Luigiano D´Onofrio. -O seu braço direito? - quis saber Gilas. -Mais ou menos, pois será ele a conduzir o assunto – informou GC. Gilas y Gilas ficou tão impressionado com a acção de Galo da Costa que resolveu oferecer um extra ao seu congénere português: uma vivenda em Madrid. -Sim senhor, mas numa zona fina, se faz favor – aceitou GC de pronto. Luigiano D´Onofrio entretanto colocou outro jogador (Rui Barrote) de GC num clube italiano (Juventus) e a soma da venda de Frutas e desse jogador vendido para Itália foi de 1 milhão e 200 mil contos, uma verba que GC nunca teria imaginado poder passar pelas suas mãos. De imediato, GC juntou todo aquele dinheiro e abriu uma conta particular, prometendo aos seus parceiros de direcção que aquela verba iria servir exclusivamente para a compra de jogadores para o clube. Todos acreditaram, mas esse dinheiro desapareceu como o fumo. Para amostra não ficou nem sequer um mísero escudo. As ligações de Galo da Costa com situações marginais começaram a ser comentadas, e isso criou um certo descontentamento entre alguns directores, nomeadamente no patrão da sua empresa, Alfresco Costa, e presidente do Conselho Fiscal do clube. Ninguém como Alfresco Costa conhecia a vida de Galo da Costa e, por isso, sabia muito bem que este andava a viver além das suas reais possibilidades, entrando em outros negócios e noutras sociedades, sem se lhe conhecer a proveniência do dinheiro. Desconfiado desta situação, como presidente do Conselho Fiscal do Clube, Alfresco Costa um dia interpelou Galo da Costa sobre o milhão e duzentos mil contos da venda dos dois jogadores, mas como resposta obteve apenas: -Não tenho de dar contas a ninguém. Alfresco Costa estava de pé frente à secretária de Galo da Costa e quase não acreditou no que estava a ouvir. Aquela era a confirmação de que o dinheiro tinha mesmo desaparecido e não pactuou mais com a situação, demitindo-se do seu lugar de presidente do Conselho Fiscal do clube, ao mesmo tempo que intimava Galo da Costa a abandonar a sua empresa. Alfresco Costa não teve contemplações: -Recuso-me a trabalhar com gente desonesta. Na minha empresa não posso ter indivíduos do seu quilate. Galo da Costa estava na mó de cima e não ficou muito preocupado com a situação. Uma grande parte daquele milhão tinha sido investida em várias empresas com ligações a familiares seus, mas sem o mínimo de capacidade de gestão, e todas acabaram por falir. O dinheiro fácil nunca é bem gerido, e o clube já estava a pagar as aventuras do seu presidente. Mas os fiéis associados pouco se importavam com essas contas. Eles não queriam saber de gestão, mas de golos, e esses não faltavam. Galo da Costa e Reginaldo Teles também sabiam disso e tinham de se organizar no sentido de garantir que esses golos e essas vitórias nunca haveriam de faltar. Para deixar a empresa onde trabalhava, Galo da Costa ainda teve que pagar sete mil contos e ficou sem carro por uns tempos. O milhão e tal de contos tinha desaparecido sem deixar rasto e tinha deixado de rastos GC, a contas com a justiça, por cheques sem cobertura e penhoras a bens pessoais. Foi um momento difícil, mas que não abateu o presidente, levando-o antes a pensar que o seu negócio era o futebol. Era nessa área que se movia como peixe na água, e a modalidade não estava a ser devidamente explorada. Todos os movimentos foram reprogramados, de forma a que o clube tivesse uma gestão capaz de alimentar o seu presidente. Reginaldo Teles acabou por subir na escala do poder no clube. O vice para o futebol foi afastado, e Reginaldo chegou-se mais ao presidente, ocupando o lugar deixado vago. A vaidade pessoal de Reginaldo levou-o a abrir mais uma casa de alternos, desta vez mais chique e refinada. As putas eram de melhor qualidade e o champanhe também. Galo da Costa não perdia um strip-tease, e quando lhe agradava, saboreava ao vivo a estrela do espectáculo. GC sentia-se cada vez mais um Al Capone à portuguesa. Sempre rodeado de guarda-costas, assumia a pose do gangster e já tratava as raparigas da forma que um dia vira num filme americano, nos seus tempos de liceu. Tinham surgido alguns escândalos e alimentava-se a desconfiança em relação à forma como os dinheiros estavam a ser geridos e distribuídos, mas aos poucos a organização refinou-se, de forma a não deixar rastos. Luigiano D´Onofrio era um gangsterzinho e foi-se apercebendo da forma pouco cuidada e pouco profissional como os assuntos eram tratados e em alguns negócios governou-se com mais dinheiro do que aquele que ficara combinado, e para anular essas fugas, Galo da Costa resolveu montar uma sociedade secreta na Suíça para que existisse um maior secretismo. Luigiano D´Onofrio era uma figura envolta em algum mistério. Tanto aparecia como, quase por artes mágicas, desaparecia, o que acontecia normalmente quando se adivinhavam maus momentos. Estas artes de prestidigitador livraram-no de muitos sarilhos, embora alguns anos mais tarde Luigiano não tivesse conseguido evitar alguns dias de detenção num calabouço suíço, por suposta ligação a um caso futebolístico que abalou o futebol francês (Olympique Marselha). GC confiava cegamente no seu amigo Luigiano. -Luigiano, vamos legalizar a nossa situação montando uma empresa de compra e venda de jogadores. No meu clube só você vende e compra todos os atletas, mas podemos estender o nosso negócio até outros clubes desde que se mantenha segredo absoluto. -Está bem , presidente, você é que manda. Um dia ainda há-se ser como o Berlusconicz. Galo da Costa não perdeu tempo. -Vamos já formar essa sociedade, porque tenho um negócio para ser feito já. Na semana seguinte já estavam os dois na Suíça para legalizarem a empresa de compra e venda de jogadores (...)”.
Continua...



VI

”(...) O seu primeiro negócio foi com um clube francês (Matra Racing de Paris) cujo Treinador (Artosco Jorge) já tinha passado pelo clube de GC. -Temos de realizar dinheiro, porque as coisas não estão muito boas. As empresas que tenho montado têm dado uma grande barraca e levam-me o dinheiro todo. Temos o Jorge Palácido para vender a um clube francês. Luigiano D´Onofrio arregalou os olhos e disse com espanto: -Mas, presidente, esse jogador não tem cotação europeia. -Não se preocupe com isso, porque quem lá está vai querê-lo. D´Onofrio, ainda sem acreditar no que ouvia, apesar de toda a sua experiência no mundo das vigarices, perguntou: -Como vai ser feito o negócio? -O nosso clube vende o Palácido à nossa empresa por 60 mil contos e nós vendemo-lo ao clube francês por 160 mil contos. -Desses negócios é que eu gosto. Ganhamos mais que o clube. -Tenho que dar uma volta à minha vida e começar a ganhar dinheiro, porque o que já perdi não foi pouco. No futebol é que está o nosso grande negócio. Luigiano D´Onofrio arregalou os olhos e pensou de imediato em ir um pouco mais adiante, mas resolveu não falar disso com o presidente. Preferia colocar o problema a Reginaldo Teles, que era um elemento mais acessível para as situações de ilegalidade.Logo que pôde, encontrou-se com Reginaldo Teles e convenceu-o a falar com o presidente. -Reginaldo, temos um negócio que dá dinheiro que se farta, mas tens de ser tu a falar disso ao presidente. Reginaldo olhou-o pensativo, mas lá acabou por se decidir. -Não venhas com tangas p´ra mim. Diz lá que o que queres que proponha ao presidente. -Tenho feito aí uns negócios com cocaína e nem imaginas o lucro que isso dá. -Estás maluco. Pensas que o presidente vai numa coisa dessas? -As coisas estão más e é necessário realizar dinheiro. Com a protecção que o futebol dá, podemos trabalhar à vontade. Reginaldo Teles convenceu-se de que, de facto, havia alguma razão nas palavras de Luigiano D´Onofrio e comprometeu-se a falar com o presidente sobre o assunto. Galo da Costa ouviu atentamente Reginaldo e mandou-o avançar com a ideia, mas ele queria ficar de fora. -Resolvam lá isso vocês os dois, mas deixem-me de fora para poder controlar melhora situação. Reginaldo Teles não era burro e ficou desconfiado. Naquele momento não disse nada mas, passados dias, voltou a falar do assunto. -O melhor é ficarmos os dois de fora, e eu arranjo alguém para tratar do assunto directamente com o Luigiano D´Onofrio. De início, o negócio correu bastante bem, mas passados alguns meses, a polícia começou a ameaçar com algumas buscas, tendo inclusive ido esperar o autocarro do clube à portagem dos Carvalhos para o revistar de alto a baixo. Mas nunca encontrou nada, porque a rede estava bem montada e não faltavam informadores. No entanto, Galo da Costa sentiu o perigo que essa situação podia estar a criar e, como tinha consciência de que inimigos era coisa que não lhe faltava, depois das primeiras prisões de pessoas ligadas ao grupo que actuava em paralelo com D´Onofrio, deu ordem para se terminar com o negócio da cocaína que começava a ser vendida um pouco descaradamente aos próprios jogadores de futebol do FC Porto. Galo da Costa não perdia tempo. Não dormia só para pensar. A «coca» garantia muitas horas de espertina, no fim de contas.

Na Ribeira do Porto, dois homens estão frente a frente, tendo como intermediário um copo quase a transbordar de vodka. Um deles foi o craque do clube da cidade (Firmando Gomes). O outro é um jornalista desportivo. Ambos recordam os bons velhos tempos, quando Galo da Costa era apenas um elemento de uma equipa que então ganhava sem precisar de recorrer a meios ilícitos e sem possibilitar o ganho de milhares de contos a marginais e arrivistas. O jogador começou a conversa: -Este mundo é mesmo ingrato. -A quem o dizes - suspirou o jornalista. - Parece que estão todos contra mim. Até o teu colega Travares Telles me vigarizou em mil contos. Disse que ia escrever o livro da minha vida, pediu o adiantamento e o livro foi um ar que se lhe deu... -Que é que se há-de fazer? Este mundo do futebol é mesmo assim. Também não te despediram do clube sob o argumento de que tinhas faltado ao jantar? -Essa é que foi... Deus do céu, só de pensar o quanto eu gosto daquele clube! Mas esse moço de recados, o Octrácio, vai ter um bonito funeral. -Não acredites nisso - retorquiu o jornalista, baixando o tom, pois acabara de entrar no bar um elemento que não conseguiu identificar - o tipo sabe enganá-los com falinhas mansas. Sabes que com todo o dinheiro que tem ainda está a dever mil paus ao director do meu jornal, uma coisa dos tempos de Coimbra? -Vou sair do futebol - anunciou o craque, após uma longa pausa - Este mundo não vale a pena: só os vigaristas, os bruxos e os indigentes é que têm futuro. E não vale a pena metê-los todos num convento, um a um, pois rapidamente iriam acabar por convencer os próprios santos. Bah!, que se lixem esses gajos... -Tem fé, amigo, pois vão acabar por cair de podres. Mas Firmando Gomes, o craque, não estava num dia positivo. Fechou os olhos e pormomentos recordou os golos que marcou, viu-se de braços no ar, os cabelos molhados,correndo para os adeptos, subindo a rede, abraçando o presidente e pensando que o mundo se resumia ao estádio. -Lembras-te quando disseste que a sensação de marcar um golo era superior à de um orgasmo? - perguntou o jornalista, quebrando um silêncio apenas embalado por uma música do Rui Piolhoso que se ouvia em fundo. Firmando Gomes desfiou as suas mágoas, num lamento-monólogo que foi subindo de tom: -Já sei que não sou um génio; nem acabei o curso dos liceus, mas não sou como aquela besta do «capitão» (João Pintas), que ia para os estágios sempre com o mesmo livro, continuando a ler no local que nós íamos marcando, ora mais adiante ora mais para trás. Mas corri um pouco o mundo, leio os jornais e não me dou com a ralé. Até dizem que tenho voz radiofónica e quem sabe se não poderei ser um dia um grande comentador desportivo. Ah, mas o meu sonho, o meu grande sonho, é ser presidente do clube, isso sim, isso iria encher-me as medidas! Eu sei, eu sei, não digas nada, já sei que só depois de o homem morrer é que terei algumas hipóteses. Mas ele não vai morrer tão cedo. Não sei como, mas conseguiu a protecção da Nossa Senhora de Fátima. Sim, da Nossa Senhora de Fátima. O cabrão! Só a mim é que ela não aparece... Firmando estava inconsolável: -Não lhe vou perdoar nunca o facto de me ter obrigado a acabar a carreira noutro clube, logo eu, o símbolo daquele emblema, a sua imagem de marca, o primeiro a dar-lhe algum dinheirinho para o bolso e o favorito do Pidroto. Aqui Firmando teve uma ideia: -Ouve lá, e se eu lançasse uma campanha para dar o nome de Pidroto ao nosso estádio? A ideia nasceu ali, naquele momento, mas no mesmo dia, GC teve dela conhecimento. Vão ter que esperar sentados! - rugiu, sem conseguir esconder que lhe estavam a tentar cravar um espinho na pata. A ideia nasceu, foi regada e germinou. Numa noite de Inverno, foi mesmo debatida e aplaudida num colóquio que se realizou nos arredores da cidade do Porto. Os jornais fizeram eco do acontecimento, mas nenhum jornalista ousou perguntar a GC o que pensava da ideia. GC evitou sempre a pergunta, na certeza de que o assunto acabaria por ficar esquecido. -O Pidroto já lá tem uma lápide, não precisa de mais homenagens e, c´um raio, se ele merece o nome no estádio, o que é que eu não mereço? - interrogou GC os botões do seu novo fato príncipe-de-Gales.
Continua...
Nota:
Nota 2: Para não cansar os nossos leitores e visto que se aproxima um weekend de calor, a publicação de O POLVO só voltará a ser postada na próxima segunda-feira. Até lá, convido todos os que leram desde a 1ª à 6ª parte a postarem um comentário sobre o que acham desta mirabolante história.



VII

“(...) Joaquinas Teixeira foi um jogador muito discreto. O melhor que conseguia era de quando em quando, partir a perna ao melhor jogador da equipa contrária. Para compensar a falta de talento, tomava mais duas pastilhas que as aconselháveis e injectava-se por conta própria, ao ponto de um dia, o médico do clube o ter aconselhado a parar com aquilo, pelo menos, durante 24 horas, sob o risco de bater a bota. Joaquinas Teixeira era tão ambicioso como tosco. É certo que acabou a carreira aos 30 anos e com a calvície a pronunciar-se, mas terminou-a em beleza: com uma boa conta bancária e um chorudo cheque por ter derrubado um adversário na área de rigor, proporcionando uma grande penalidade que salvou a equipa contrária da descida de divisão. O lance não causou qualquer tipo de suspeitas, pois o Teixeira era mesma assim - às vezes acertava, outras não. Mas a história de Teixeira pouca relevância teria na história da vida de Galo da Costa, se o primeiro não acabasse por se tornar um grande amigo do segundo, depois de ser apresentado por Antónimo Oliveira. Rapidamente se gerou ali alguma cumplicidade, não faltando a adorná-la o habitual naipe de mulheres da vida, desde a classe de iniciadas até às seniores em fim de carreira. Para ajudar, o País vivia uma ascensão económica que tinha os dias mais ou menos contados, mas que iria ser boa enquanto durasse. Com o Teixeira a controlar as miúdas e o Antónimo Oliveira a dar a táctica, GC tinha a vida nocturna que queria, mas, ao contrário de Reginaldo, continuava muito agarrado ao dinheiro, não o arriscando na roleta. Esta última acabou por se revelar a desgraça de Reginaldo, que aí foi deixando largas centenas de contos, proporcionando também a um conhecido jornalista algumas jogadas de risco, em especial quando a equipa se deslocava à Madeira. Sempre adiantados dois passos em relação aos restantes, Antónimo Oliveira foi-se afastando do grupo, mas nunca se desligou. Joaquinas Teixeira, entretanto, leu dois livros policiais e começou a falar como um doutor, deixando de ser adjunto do Antónimo - então um treinador de mediano sucesso - para se tornar técnico principal. O conhecimento que tinha da arte das pastilhas acabou por se aliar a um feeling muito especial e, rapidamente, enquanto ia esvaziando o stock de uma farmácia próxima de Paredes, conheceu o sucesso. -O futebol é um espanto. Ainda ontem estava a queimar o couro nos pelados e hoje eis-me a fumar um charuto e a dar bitaites para os jornais! - dizia Teixeira para a mulher, enquanto apreciava as miúdas que se passeavam no areal de Cancún, onde uma conhecida apresentadora de televisão fazia discretamente amor com dois jovens craques que nesse ano tinham surgido na ribalta. -Chegou a hora de começar a apanhar peixe graúdo, pois estou farto de andar aos figos! - desabafou, longe de saber que nesse momento, GC tinha engendrado mais um plano diabólico.
O plano era simples e partia do seguinte pressuposto: no futebol, nem só os jogadores são a mercadoria: há que contar também com o treinador. -E os treinadores, Reginaldo, é que marcam golos ou os permitem! - referiu GC, merecendo o assentimento de Reginaldo. -Vai ser canja - continuou o presidente. Fulano precisa de clube, e nós arranjamos esse clube, a quem damos a garantia de que, com aquele treinador, é que a equipa não desce; não sendo preciso dizer mais nada, eles ficam logo a saber que nós seremos os anjos-da-guarda. -E o que é que nós vamos ganhar com isso, presidente? -Tudo. Começamos por ganhar nos treinadores, que nos vendem a alma para o quef or preciso. Depois, ganhamos com os clubes que os contratam, que também nos ficam a dever favores. Mas não é tudo. Para além de eventuais comissões que virão directamente para os nossos bolsos, os bons jogadores que aparecerem nesses clubes ficam garantidos para o nosso lado e aqueles que forem excedentários do nosso plantel podem ir asilar para esses clubes, o que nos desobriga logo de lhes pagar os ordenados. Isto é o ovo de Colombo. -De quem? -De Colombo, do tipo que descobriu a América. Não julgues que também ele não enganou os Espanhóis. No fundo, era de Génova. O Cristovão... -Quem? O da televisão? -Não, burro, o Cristovão Colombo, e repara que até ele se enganou, pois pensava que estava a descobrir o caminho para Índia quando descobriu a América. Foi o que medisse a Nancy, a nova, aquela que trabalhava num videoclube... -E que tal? -Para o Colombo não correu mal... -Não presidente, que tal a Nancy? -Ah, a Nancy!...boa, sabe aquelas coisas dos filmes... -...o beijo pressionado?! -Qual beijo pressionado, qual quê! Aquelas coisas mais complicadas. Mas não desconversemos. Quero que fique assente que a partir de hoje temos de formar um lobby... -Ó chefe, mas isso compra-se com dólares ou com pesetas?!... -Calado - prosseguiu, já algo irritado, Galo da Costa. Vai ser assim: andam por aí uns rapazes com talento, alguns até foram nossos jogadores, mas os clubes são mais que muitos e as melhores oportunidades normalmente são dadas aos treinadores estrangeiros. Vamos acabar com isso. A nossa garantia vai abrir os olhos aos clubes, que passarão a perguntar-nos que treinador é que podem contratar. Nós é que o escolhemos, percebes? Mas o rapaz que for escolhido já sabe que nos deve não um, mas muitos favores, entendes? Para além de passarmos a controlar o que já sabes, ficamos também com a certeza de que eles farão tudo para derrotar os nossos adversários directos, enquanto que nos jogos com a nossa equipa!... percebeste agora? -Mas, ó presidente, isso é genial! -Claro... O plano foi posto em marcha logo nessa temporada, tendo como cabeça de fila o Joaquinas Teixeira, também conhecido por «Fixe». Os clubes da região caíram nas palminhas de GC, só um deles desceu por manifesto azar, e os adversários directos, por norma, tramaram-se nas deslocações aos terrenos das equipas controladas. Como se tal não bastasse, GC foi pedindo alguns adiantamentos ao longo da época aos presidentes mais abonados, que ficavam satisfeitos só pelo facto de surgirem ao lado de GC ante as câmaras dos repórteres-fotográficos. Um deles, o Manuel Clopes Rodriguez, até se deu ao luxo de reunir na sua quinta os mais ricos empresários da região, com estes, a troco de um galhardete autografado, a entregarem nas mãos de GC uma generosa quantia «para ajudar o clube mais representativo da região».
Na altura, alguns jornalistas ainda tentaram investigar uma história que podia ser o fio da meada ou o fim da picada. Era a história de um jogador belga (Cadorinas) que, nos minutos finais de um jogo no estádio do clube grande, entrou em campo, ao que se supõe, apenas para, na sua área, provocar uma grande penalidade, jogando a bola com a mão e dando assim a possibilidade à equipa da casa de vencer o jogo e não se atrapalhar na corrida para o título. O jogador desapareceu de circulação, e a última vez que foi visto foi a fazer compras em Roterdão, supondo-se que hoje vive desafogadamente numa quinta dos arredores de Liège, onde todos os anos, pelo Natal, recebe um perú com uma mensagem de GC. E o Teixeira? De subida em subida, foi até onde pôde. Depois, claro, já não podia subir mais. GC tinha encontrado um livro num caixote cujo autor era um tal doutor Peter, defensor dos princípios de competência. -Reginaldo, isto é assim: tu só és competente até determinado nível; se o ultrapassares, passas a ser um incompetente, percebes? Reginaldo mais uma vez não percebeu bem, pois, como ele mesmo dizia, tinha uma cabeça que trabalhava a «carvão». -O Teixeira é bom nestas coisas. Quanto muito, posso arranjar maneira de o pôr a treinar a selecção de sub-12, se é que isso o realiza. Mais é que não. Fica onde está e caladinho, e isto é se quer continuar a passar férias a Cancún. O Teixeira concordou, apenas com um pedido. No final da próxima época, preferia ir de férias para as Seychelles!
O bar de Reginaldo começou a ser ponto de encontro para aqueles que queriam usufruir dos favores da arbitragem. Dirigentes e árbitros encontravam-se assiduamente no local, mas nunca tinham um contacto directo, uma situação que foi sempre muito bem controlada, para que não houvesse fugas de informação, tanto em relação a favores como aos preços estipulados. Lentamente, foi criada uma bem organizada rede de corrupção na arbitragem gerida, por cima, por Reginaldo Teles, contando este com um assistente directo: George Gomes. Os árbitros das mais variadas regiões, logo que pisavam o chão da cidade, iam de imediato ao encontro de Reginaldo. Não pediam nada, e muito menos ofereciam qualquer tipo de favor; aguardavam antes, pacientemente, por uma abordagem. No início, estabeleceu-se uma certa confusão promíscua no negócio, e esta situação não era a mais aconselhável. As pessoas começavam a falar de mais, pois já nada passava despercebido, e Reginaldo Teles teve de reorganizar o negócio, colocando as cartas na mesa de Galo da Costa. -Eles parecem moscas a cair no meu bar. A coisa já está a dar muita bronca. -Que coisa? -Aquele negócio dos árbitros. Começou a insinuar-se que eu era capaz de resolver tudo, e os gajos não me largam. São os dirigentes de um lado e os árbitros do outro. Nunca pensei que esta situação pudesse atingir este nível. Uns só querem vitórias; e osoutros, dinheiro... -Deixa lá. Ao menos, fica toda a gente satisfeita. Esse negócio tem de começar a ser gerido de uma forma mais segura. Isso vai dar muito dinheiro, mas é necessário saber fazer as coisas. Roma e Pavia não se fizeram num dia. Estava dado o mote para o arranque de uma organização mais capaz e eficiente, e o plano foi colocado em marcha. Havia receptividade de parte a parte e isso já era um bom avanço. O tempo em que o clube gastava dinheiro para controlar algumas arbitragens já tinha passado. Os árbitros sabiam exactamente onde estava o poder e como se chegar a ele, e se em paralelo se podia ganhar dinheiro, muito melhor. Galo da Costa estava consciente de que todos o temiam. Não tinha o mínimo de pruridos quando queria esmagar um inimigo. Não fazia ameaças, mas os que se mostrassem contra o seu poder podiam ter a certeza de que obteriam uma resposta de acordo com a situação e sem qualquer tipo de contemplações. Perante tal quadro, era muito mais proveitoso estar ligado a Reginaldo Teles. Para além do dinheiro que podiam ganhar, tinham toda a cobertura possível dentro do Conselho de Arbitragem, área onde Galo da Costa e os seus pares se moviam com bastante à-vontade, contando com a colaboração de um presidente da sua inteira confiança. Galo da Costa gostava de evidenciar de uma forma discreta esse poder. Era uma forma de fazer saber que quem mandava era ele. Quem estivesse sob a sua protecção tinha as melhores nomeações e as melhores classificações. E protegia quem se aliasse a ele, incentivando a aproximação dos mais indecisos.
GC queria uma organização perfeita e o controlo absoluto sobre todas as situações. Mas os jornalistas eram indiscretos e perigosos para o negócio. Não era muito saudável que se levantassem muitas suspeitas, e esse sector tinha também de começar a ser muito bem controlado. Galo da Costa sabia insinuar-se e cativar. Quando lhe convinha, promovia encontros com directores de jornais e, de uma forma desinteressada, começava a gabar-lhes os feitos e o trabalho. Incentivados pela guerra estabelecida pela concorrência e sabendo que quem obtivesse maior número de informações junto dos grandes clubes era quem mais vendia, ninguém se negava a esses encontros. Era impossível, porém, controlar toda a gente e, através de algumas acções de intimidação, estabeleceu-se um clima de medo para os que teimavam em mostrar-se independentes. Normalmente às quartas-feiras, o presidente reunia-se com os jagunços e indicava-lhes qual o jornalista que tinha de ser encostado e insultado. Nos dias dos jogos, os capangas passeavam livremente pelo camarote da Imprensa e, através de insultos e ameaças, exerciam uma tremenda pressão sobre alguns jornalistas. A intenção era clara: promover o medo e o consequente silêncio. Durante a semana, quem tivesse o atrevimento de não analisar uma situação conforme lhes convinha podia ter a certeza que tinha à sua espera na primeira oportunidade alguém com o seu jornal na mão a ameaçar que o fazia engolir aquele pedaço de papel. Galo da Costa era mestre na política da divisão, e ao longo dos tempos foi criando divisões entre os jornalistas, porque tinha consciência do perigo que representavam quando todos se resolvessem unir e impor os seus direitos. A organização era-lhe favorável, e ele sabia como jogar todos os seus trunfos. Um negócios implantado no seio da arbitragem era exactamente aquilo que lhe faltava. A Olivedesportivos e a agência de viagens Cósmicas estavam a facturar como nunca. Tinha conseguido vários exclusivos que lhe permitiam efectuar o mais variado tipo de operações, sobrefacturando sem medo de poder ser contestado. Tinha o presidente federativo na mão, e até nem foi muito difícil conseguir isso. Dava-lhe gozo colocar os da capital a trabalhar para a sua organização. Um cartão de crédito sem limite e umas viagens oferecidas ao casal que comandava as operações federativas bastaram para que pudesse facturar alguns milhões. Galo da Costa estava adiantado em relação a todos os outros. Já há muito que tinha entendido que o futebol era a indústria que mais rendia em 90minutos. Mas GC não era infalível. Também cometia os seus erros. Quando, através do agora grande amigo e sócio camuflado, Joaquinas Oliveira, ofereceu um cartão de crédito sem limite ao federativo e à sua mulher, nunca lhe passou pela cabeça que a mulher deste, numa das viagens da nossa Selecção, se lembrasse de utilizar o respectivo cartão em compras pessoais, gastando quase dois mil contos. O cartão foi de imediato cancelado. Numa viagem ao Luxemburgo, onde o clube de GC foi disputar um jogo particular, um emigrante português, que se dedicava à pintura de automóveis e também fazia uma perninha como empresário de jogadores de futebol, conseguiu criar uma grande amizade com GC e Reginaldo. O indivíduo tinha boa pinta e falava várias línguas. Era inteligente e mostrou-se conhecedor do ramo. E como era necessário preencher a vaga de Luigiano D´Onofrio, a solução estava mesmo ali à mão. Josef Veiga tinha todos os predicados para entrar na organização e, num ápice, apareceu em Portugal como sócio de Joaquinas Oliveira. Grandes jogadores começaram a passar pela sua mão. Ganhou prestígio, mas a sua ligação aos Oliveirais limitava a sua acção (...)”.



VIII


”(...) GC estabeleceu então uma nova estratégia: -O Josef Veiga tem-se mostrado competente e capaz. Tem-nos dado muito dinheiro a ganhar, mas está na hora de se desfazer a sociedade. Joaquinas Oliveira não entendeu onde o presidente queria chegar e não hesitou em perguntar: -Mas não estou a entender. Se ele nos está a dar bom dinheiro, porque é que vamos desfazer a sociedade? Então explicou o seu plano: -Se desligarmos o Josef Veiga da nossa organização, simulando um desentendimento, ele fica mais livre para poder trabalhar com outros clubes, nomeadamente com os nossos maiores adversários. Com esta acção, para além dos lucros que daí podemos retirar, ficamos com a possibilidade de minar os nossos adversários por dentro. Ficamos com o campo livre para lhes vendermos jogadores com rótulo dourado, mas fora de prazo, e também podemos vender os seus melhores jogadores para clubes estrangeiros, criando, assim, focos de instabilidade ao mesmo tempo que se lhes diminui a força. Joaquinas Oliveira nem queria acreditar no que ouvia. Aquele homem era de facto um manancial de inteligência. Dois dias depois, estava desfeita a sociedade e, tal como fora previsto, Josef Veiga tornou-se num dos empresários mais conceituados da nossa praça.
Mas a completa organização do sector da arbitragem era o negócio que agora fazia perder mais tempo a GC. Reginaldo Teles tinha descoberto o ovo de Colombo e revelado jeito para controlar a situação. Com um tiro podia matar com facilidade dois coelhos. O seu clube não tinha dinheiro para andar a gastar em arbitragens, e a sua política nunca foi a de gastar, mas sim a de cobrar. Toda a gente sabia que ele não era homem endinheirado, e alguns dos que, nos primeiros anos, ainda ajudaram o clube quando se tornou necessário, agora fugiam a essa situação, porque se sentiam traídos com os negócios efectuados por GC. Era a velha filosofia de que era possível enganar toda a gente durante muito tempo, mas não sempre. Como gostava de dizer, «não corre mais o que caminha, mas sim o que mais imagina». Por isso, tornava-se necessário pensar sempre em novas estratégias. Quem emprestava dinheiro queria garantias, e o clube ia ficando hipotecado a essas situações, perdendo algum património sem que ninguém levantasse a voz para travar esse tipo de situações. Galo da Costa sentia-se inatingível. Estava acima do poder e até o desafiava, sem ser punido por isso. Tinha a força do seu clube por trás. As vitórias, os golos e as alegrias. Tudo era feito em nome do futebol. Galo da Costa sabia que tinha muitos inimigos, e não podia falhar dentro do relvado. O controlo sobre árbitros era a solução que mais garantias dava para que se continuasse a somar títulos, e Reginaldo Teles tinha a solução na mão, sem gastar dinheiro com isso, muito pelo contrário, ganhando milhares. Reginaldo limitou-se a deixar germinar o negócio. Não era necessário movimentar-se. As pessoas vinham ter com ele para estabelecer o primeiro contacto. Já não se negociava com prendas, mas com dinheiro vivo. Foi mesmo estabelecida uma tabela, mas George Gomes não estava muito de acordo. -Isso das tabelas não tem jeito nenhum. Os jogos têm de valer pela importância que têm. -És capaz de ter razão, mas aqui no bar está a dar muita barraca. Temos de falar com o presidente. Galo da Costa já se tinha apercebido da situação e também não andava muito satisfeito com a exposição pública. Havia que evitar uma devassa que, de dia para dia, se tornava mais fácil de empreender, principalmente da parte dos inimigos do costume. Ele mesmo era cliente assíduo do bar e não queria ser visto no local na companhia de árbitros e muito menos envolver-se directamente no negócio. -Vamos «lavar» a imagem que está a passar lá fora. Esta situação tem que ser alterada. Muito embora utilizes o teu bar para o primeiro contacto, combinas depois os encontros para o restaurante do teu primo. O local é mais decente, menos visto, e não é tão frequentado por gente do futebol. E sempre tem ao lado um bom jardim que dará sempre para meditar um bocadito... -Também acho que essa é a posição mais acertada. Vamos mudar isto, e já - concordou Reginaldo. Com uma organização mais eficiente, Reginaldo Teles elaborou uma carteira de árbitros seleccionados por preços, acessibilidade, categoria e forma de actuar. O prémio de cada favor era estabelecido conforme a importância do jogo, e de início, Reginaldo cobrava apenas um terço do estabelecido, mas, mais tarde, quando verificou que os seus favores eram cada vez mais requisitados, passou a cobrar 50 por cento. Ninguém discutia preços nem duvidava do empenhamento de Reginaldo Teles, que sempre que lhe era possível marcava a presença no jogo onde estabelecera o seu melhor negócio.
Mas o volume de pedidos cresceu tanto, que George Gomes começou a ser mais requisitado, entrando no negócio a todo o vapor. Enquanto Reginaldo assumia os seus compromissos e as suas responsabilidades no negócio, George Gomes estava mais virado para o lucro fácil. Fazia-se intermediário, cobrava a respectiva verba e nem sempre os árbitros viam a fracção combinada, o que dava origem a alguns protestos rapidamente silenciados com as ameaças do costume. George Gomes foi mais longe. Com a ambição de ganhar tudo, a maior parte das vezes nem sequer falava com os árbitros e esperava simplesmente que os resultados fossem favoráveis para ficar com a respectiva verba. O negócio até era muito mais rentável na 2ª Divisão. Os jogos eram menos vistos, os árbitros estavam menos expostos e toda agente queria subir. Foi num negócio entre duas equipas da 2ª Divisão que George Gomes foi pela primeira vez desmascarado nas suas vigarices. O árbitro era alentejano, mas tinha um compadre no Porto, proprietário de um restaurante. O lugar era típico e até se cantava lá o fado. Um representante de um dos clubes foi falar com o dono desse restaurante, levando uma proposta em carteira. -Sabemos que és compadre do Jonas Cravo, e ele vem apitar, no domingo. Não podemos perder. Tens de nos ajudar. -Está bem, eu falo com o homem. -Quanto é que achas que lhe podemos dar? -Mil contitos, mas 200 são para mim. -Tudo combinado. Trata do negócio. Passados poucos dias, o mesmo elemento desse clube surgiu no restaurante do compadre de Jonas Cravo para lhe dizer: - Não trates de nada, porque o meu vice e o meu presidente foram falar com o Reginaldo Teles, e ele garantiu que tratava do assunto todo. Para tratar disso, já ficou lá com dois mil contos. - Mas eu resolvia isso com mil. -Oh, pá, nem me quero meter nessa *****! Mandaram-me falar contigo e foram ao bar do gajo e ele sacou-lhes dois mil contos. Fiquei bera com isso e obriguei-os a prometerem-me que os teus 200 contos estão garantidos. -Tudo bem, não há problema. O Reginaldo que me telefone que eu trato do encontro. O homem vem de véspera e janta no meu restaurante. Na véspera do tal jantar, George Gomes telefonou ao dono do restaurante e combinou o encontro com o árbitro. Quando este chegou, foi logo posto ao corrente do que se estava a passar e esperou até quase de madrugada por George Gomes. Como este não aparecia, acabaram por desistir, embora mantendo a esperança de que ele telefonasse. Mas até à hora do jogo... nem um telefonema nem uma palavra. O clube que entregou os dois mil contos a Reginaldo ganhou, mas sem qualquer interferência do árbitro. No final, de regresso ao restaurante do seu compadre, o árbitro voltou a falar no assunto. -O George Gomes não me ligou nem disse nada. -São uns filhos da ****. Ficaram com os dois mil contos e nem sequer se dignaram a falar comigo. Esses gajos são burros como portas. Andam a dar dinheiro a esses chulos. De facto, os dois mil contos ficaram na posse da organização de Reginaldo, sem que este tivesse o mínimo trabalho ou interferência no desenrolar do jogo. E o dono do restaurante nunca mais viu os tais 200 contos. George Gomes sabia jogar com a situação e tinha consciência de que, como não se podia falar abertamente destes negócios, dificilmente se descobriria este tipo de vigarice.
Uma outra vez, no final de um jogo em que o árbitro foi um internacional nortenho, o presidente do clube que venceu acompanhou, no final da partida, esse árbitro ao seu automóvel e pelo caminho disse-lhe abertamente: -O George Gomes já falou consigo? -Comigo? Não. Porquê? -Eu dei-lhes três mil contos para si e ele garantiu-me que já lhos tinha dado. De súbito, começou a chover e, no momento em que o presidente desse clube saltava um charco de água e abria o guarda-chuva para abrigar o árbitro, ambos verificaram que George Gomes, embrulhado numa gabardina, se dirigia a eles. O árbitro não hesitou, e mesmo ali agarrou-o pelos colarinhos, enquanto lhe dizia: -Ó meu filho da ****, andas a governar-te à minha custa! -Tem calma, eu vinha agora trazer-te o dinheiro. O presidente resolveu então intervir, para evitar que aquilo se transformasse num escândalo. -Tenham calma. Vamos resolver isso civilizadamente. Você ainda me disse ontem que já tinha dado os três mil contos a este homem. -É que ainda não tive oportunidade de o encontrar. -Tem aí o dinheiro? - perguntou o presidente. -Não. -Então avise o Reginaldo Teles que amanhã vou ao bar dele e se não me devolverem os três mil contos, armo um escândalo que nem vos passa pela cabeça. Foram muitos os casos como este. George Gomes estava a comprometer o negócio com as suas vigarices, mas o certo é que Reginaldo lhe aparava todos os golpes, e GC começou a desconfiar que eles estavam feitos, muito embora não revelasse o facto para não perder a confiança de Reginaldo, muito menos agora, que ele lhe tinha apresentado a Mariana. Uma rapariga por quem se estava a apaixonar e para a qual até arranjou um emprego no clube. Semanalmente, eram muitos os milhares de contos que se movimentavam em negócios com os árbitros. Reginaldo Teles e George Gomes já evidenciavam sinais exteriores de riqueza. Os negócios eram realizados em dinheiro vivo, mas, quando isso não acontecia, também não havia problema para controlar a situação e não deixar vestígios. Reginaldo recebia os cheques, trocava-os no casino, levantava dinheiro na troca de fichas e entregava em dinheiro aos árbitros. Não deixava qualquer tipo de vestígio. No entanto, esta situação levou-o a viciar-se no jogo. Com alguns montes de fichas na mão, começou a não resistir à tentação de arriscar algum na roleta e perdeu muitas centenas de contos. George Gomes não gostou da situação e por diversas vezes tentou fazer com que o seu amigo deixasse o jogo. -Não gastes dinheiro nessa *****. Não vês que ninguém ganha, e quando ganha, no dia seguinte deixa-se o dobro. -Deixa lá. Isto dá-me gozo, e o dinheiro é dos camelos. Eu controlo a situação. Posto isto, apostou tudo o que tinha no preto. E ganhou. -O que é que eu te dizia, George?...
Galo da Costa e Reginaldo Teles tinham encontrado nos escalões inferiores as suas melhores fontes de receita nas negociatas directamente relacionadas com processos de corrupção na arbitragem. O nível dos dirigentes era mais baixo, e a vaidade dos endinheirados empresários que procuravam o futebol para evidenciarem a sua posição social estava a ser soberbamente explorada. Galo da Costa esfregava as mãos. -Como é fácil ganhar dinheiro no futebol. Quando assumi a presidência do clube, nunca imaginei poder chegar a esta situação e ganhar tanto dinheiro. -Mas, desta vez, veja lá se tem mais cuidado com os investimentos que faz. Siga o meu exemplo; gasto algum no jogo, mas estou sempre bem de vida - juntava Reginaldo Teles, sempre prudente. -Isso não é de admirar. O teu negócio dá sempre. Agora estás a ver-me a gerir uma casa de putas? Toda a gente me caía em cima. -Não é bem assim. Vejam o meu exemplo. Não é segredo para ninguém que sempre vivi à custa da prostituição. Sim, porque não tenho as gajas para andarem a fazer cócegas aos clientes e eu não ganhar nenhum. Ninguém vai ao meu bar beber um copo porque o whisky de lá é muito bom ou a música óptima. -Nisso tens razão. A maior parte do whisky que lá vendes até está marado! Só mesmo as gajas é que são boas. Por falar nisso, já há muito tempo que não me apresentas uma novidade. -E a Mariana? -Adoro aquela gaja. Pelo menos agora tenho-a junto a mim mais tempo e sem ninguém desconfiar de nada. Mas isso não quer dizer que não vá provando uma daquelas novidades que vão aparecendo. -Estou à espera aí de umas gajas novas que vêm da Rússia e hei-de arranjar-lhe alguma coisa. Mas, voltando à conversa anterior, não concordo muito consigo quando me diz que ter um bar de alternos é mau e que não dá prestígio. Você é testemunha de que esses gajos todos não me largam e estão fartos de dizer que sou um tipo porreiro. Até me querem fazer uma festa de homenagem. Não vê, nas viagens ao estrangeiro que fazemos com o clube, as mulheres deles a juntarem-se à minha sem qualquer tipo de preconceito?! Toda a gente sabe que é a minha mulher que gere as putas, que lida com elas todos os dias e, sabe uma coisa: mulheres dos nossos vices e de alguns dos acompanhantes que habitualmente nos seguem, fizeram-se grandes amigas dela e algumas até puxam conversa para saberem como é o ambiente no bar. Isto é um mundo de hipocrisia, e o que é necessário é saber viver nele. -Então eu não sei disso!? Eu levo muitas vezes a tua mulher aos jantares que os clubes estrangeiros nos oferecem, enquanto tu ficas com os jogadores. -Bem, mas aí eles não conhecem a Lisa. E ela até tem boa pinta.
Galo da Costa ouviu o telefone tocar, levantou-se do maple onde estava sentado e foi atendê-lo na sua secretária. -Tudo bem, obrigado. Após uma curta pausa para ouvir o seu interlocutor, GC puxou uma folha de papel e escreveu um nome. -Já sabia que ele nos ia nomear esse árbitro. Fui eu que lho pedi pessoalmente. Sabe, o jogo é importante e não podemos arriscar... OK! Até logo e obrigado. Era o Ariano Pinto - disse GC. -Ele está a ajudar-nos bastante. -Que remédio ele tem. Se não fosse assim, tirava-lhe o tapete. -Mas ele ajudou-nos bastante no início e pode ajudar-nos ainda mais. -Sei perfeitamente que tenho aprendido muito com ele. No início, foi o Ariano que me abriu os olhos e me ensinou que caminhos devia percorrer para ganhar os títulos que ganhámos. Mas agora quem manda no futebol sou eu. A força está do nosso lado, e se ele não fizer o que mandamos, não tenhas dúvidas que lhe tiro o tapete, e ele sabe disso. Reginaldo Teles lembrou-se do quanto Ariano Pinto era importante em toda a estratégia estabelecida. Só a sua amizade já era bom para o negócio que começou a ser montado (...)”.



IX

“(...) Galo da Costa tinha uma visão extraordinária em relação ao futuro e começou a urdir a sua organização. Reginaldo Teles e George Gomes continuavam a dar todo o apoio nos negócios com os árbitros, apostando na ajuda a clubes de escalões inferiores. Com esta acção, iam ganhando algumas centenas de contos semanalmente e tinham cada vez mais os árbitros na mão, não sendo necessário, por isso, gastar nem um tostão quando esses árbitros viessem apitar o seu clube. Entrava-se num ciclo vicioso. Os árbitros ficavam de tal forma hipotecados a Reginaldo Teles que, quando fossem nomeados para os jogos com o seu clube, não tinham força moral para o trair e nem sequer era necessário comprá-los. Mas nem tudo corria da melhor forma, e Reginaldo teve consciência de que não dominava o sector conforme julgava, quando, por diversas vezes, saiu derrotado em acções por ele desenvolvidas. Em 1992, na última jornada do campeonato da 2ª Divisão, Reginaldo Teles foi contactado no seu bar por um clube que tinha hipóteses de subir de escalão e que ia jogar com outro que se não ganhasse seria despromovido. O negócio ficou acertado, comprometendo-se Reginaldo a entregar ao árbitro três mil contos, garantindo outro tanto para si. O árbitro era da capital e, depois de contactado num dos grandes hotéis da cidade por George Gomes e Reginaldo, comprometeu-se a fazer o frete e a ir receber a verba combinada no Domingo à noite ao restaurante do primo de Reginaldo. O clube protegido por Reginaldo era o visitante, e ao intervalo já estava a ganhar por 3-0 com uma arbitragem verdadeiramente escandalosa. A ameaça de invasão de campo estava iminente, mas nem isso assustou o árbitro da partida. Mas, perante tal situação, o presidente do clube visitado, sabendo que o negócio tinha sido feito por Reginaldo e conhecendo o montante da verba combinada, no interregno da partida entrou na cabina do árbitro e, com o descaramento que provinha do desespero, fez directamente a sua proposta ao árbitro e fiscais de linha. -Sabemos que Reginaldo Teles vos ofereceu três mil contos e vocês podem sair daqui mortos. Retirando uma pequena pasta de debaixo do braço, puxou de um grande maço de notas, colocou-o em cima da mesa que estava na cabina do árbitro e apostou forte quando disse: -Estão aqui cinco mil contos e queremos ganhar. A vossa protecção está garantida. Saiu da cabina do árbitro e esperou pacientemente pelos últimos 45 minutos. O inevitável acabou por acontecer: o árbitro deu de tal forma a volta à situação, que o jogo terminou com um resultado de 4-3. Reginaldo Teles tinha sido derrotado na sua estratégia e prometeu vingança ao árbitro. O certo é que esse árbitro abandonou o ofício mesmo antes de atingir o limite de idade. Reginaldo Teles sabia que tinha de ser duro na sua acção para não perder o controlo da situação, e Galo da Costa avisou-o muitas vezes. -É necessário ser duro e inflexível. Ambos se recordavam bem de um caso passado uns anos antes com um árbitro algarvio que foi apanhado com a «boca na botija». Desde que tinha sido promovido ao primeiro escalão, Francesco Silva revelou uma grande ambição pelo dinheiro, aceitando negociar sempre que possível com Reginaldo Teles. Mas depressa verificou que era ele quem dava a cara e sofria a consequência dos escândalos a que ficava obrigado. Reginaldo ganhava tanto como ele e, por vezes, até mais. Este árbitro tinha falado várias vezes com os presidentes dos clubes que favorecia, e eles acabavam por confessar quanto tinham dado a Reginaldo ou a George Gomes. Achou que aquilo era uma exploração e resolveu actuar por conta própria. Galo da Costa teve conhecimento da situação e avisou Reginaldo Teles do perigo que aquela atitude constituía. -Vamos tratar da saúde desse gajo, para que não haja mais fugas. Quando souberes de um contacto directo, avisa-me que eu trato do resto. Reginaldo Teles assentou com a cabeça em sinal de concordância e saiu do gabinete do presidente a pensar na forma como deveria actuar. George Gomes estava à espera dele e, depois de discutirem o assunto, não teve contemplações. -Vamos fodê-lo. Mandamos dar-lhe uma tareia, para ver se ele aprende. Reginaldo não respondeu logo, e passados alguns segundos acabou por dizer: -Dar-lhe uma tareia não é solução. O presidente garantiu que tinha outra estratégia. Só temos de estar atentos e avisá-lo quando soubermos de algum negócio directo. A oportunidade não tardou a chegar. Francesco Silva pedia que nem um cego, e ainformação tão desejada acabou por chegar. O presidente do Conselho de Arbitragem (Lourencas Pinto) era da total confiança de Galo da Costa e deu-lhe a informação tão esperada. -Temos o homem na mão. Ele telefonou ao Roche (Manuel Roche, presidente do Penafiel) e pediu-lhe dois mil contos pelo jogo de domingo. Vamos fazer-lhe uma emboscada. O Roche leva um gravador quando lhe for entregar o dinheiro, e depois entramos nós em acção. -Sigam com a operação, mas lembrem-se que temos de ficar sempre de fora. Quando se viu desmascarado, o Francesco Silva chorou, pediu perdão, mas não adiantou nada. Tinha sido feito. Houve ainda algumas hesitações não sabendo bem se devia levar o assunto para a frente ou apenas pregar um tremendo susto ao Francesco Silva, mas o escândalo rebentou e não foi possível segurar a situação. GC e Reginaldo mais uma vez saíam ilibados do problema gerado, assumindo o papel de anjinhos, mas a força que detinham foi bem evidenciada. Para os outros árbitros, o aviso surgia sempre na forma de um «lembrem-se do que aconteceu ao Silva, que fugiu à nossa protecção, quis fazer os seus negócios sozinho e acabou por se espalhar; mais vale ganhar menos mas estar devidamente protegido».O sistema voltava a estar sob controlo, e a submissão da maior parte dos árbitros a Reginaldo era cada vez mais forte. Ele sabia que não podia perder aquele negócio. A árvore continuou a dar os seus frutos, mesmo fora de época. O restaurante do seu primo transformou-se num autêntico estabelecimento cambial, tal era o volume de negócios que ali se desenvolvia. Os cheques voavam de mesa para mesa, desaparecendo debaixo dos pratos de feijoada.
Josué Silvano, um árbitro com algumas dificuldades na vida, devido aos maus negócios que tinha efectuado na sua empresa, necessitou, entretanto, de comprar uma carrinha e falou com Reginaldo para lhe emprestar três mil contos de modo a efectuar o negócio. Reginaldo levou-o ao presidente, e este não hesitou em passar-lhe o respectivo cheque para a compra da carrinha, mas exigiu ao árbitro que este lhe passasse um outro cheque da mesma importância, mas com um prazo mais alongado. Ambos concordaram, e o árbitro levou os três mil contos. Quando Reginaldo regressou ao gabinete do presidente, perguntou, um tanto espantado: -Não é um risco muito grande emprestar dinheiro a este gajo? -Claro que é sempre um risco, mas não vamos ficar sem esse dinheiro. Isso foi apenas um investimento. Nós vamos precisar dele. Passadas poucas semanas, o clube de Galo da Costa lutava pelo título com o seu principal rival (perigosamente próximo, nessa temporada), e havia uma deslocação difícil mais a norte do País. GC chamou Reginaldo e explicou-lhe a situação: -No domingo, vamos jogar o título. Temos de ganhar de qualquer maneira, e as coisas não estão nada fáceis. Chegou a altura de pedir contas ao teu amigo árbitro. Reginaldo entendeu logo o que o seu presidente queria; pegou no telefone e discou o número do árbitro. Do lado de lá atendeu uma voz grossa e bem timbrada que Reginaldo identificou de imediato: -Olá, estás bom? -Quem fala? -É o Reginaldo. O presidente mandou-me falar-te, porque precisa daquele dinheiro que te emprestou. -Mas agora não tenho essa verba... -Mas tu prometeste!!! -Claro que prometi, mas as coisas correram mal. -Sabes que o presidente tem um cheque? -Sei. E o que é que ele vai fazer? -Nada, se tu te portares bem. -Olha que porra! Até parece que ando a portar-me mal! -Não é isso. Vais ser nomeado para fazer o nosso jogo de domingo e nós temos de ganhar de qualquer maneira. Não interessa como, temos é de ganhar. -Já sabes que comigo não há problema. Diz ao presidente que pode contar comigo. Mas vê lá se me toca alguma coisa. -Deixa isso comigo. Faz a tua parte, que nós depois cá nos entendemos. No dia desse jogo, Josué Silvano passou pela maior vergonha para dar a vitória ao clube de GC, inventando uma grande penalidade que nunca existiu, com a agravante de tudo isto se passar em casa do adversário, situação que lhe originou uma penosa fuga pelas traseiras. Mas ele já estava muito batido nestas «saídas à comandante», assim baptizadas porque normalmente aconteciam no «jeep» do comandante da GNR. Os jornais, a rádio e a televisão comentaram o escândalo, mas o título foi assegurado. Dias depois, o árbitro transmontano, que de bruto só tinha o aspecto físico, foi em busca do cheque dos três mil contos que tinha passado a Galo da Costa, mas este nem sequer o recebeu, mandando recado por Reginaldo: -O presidente disse que aquele dinheiro nada tinha a ver com o empréstimo que te fez. São negócios diferentes. Nós fizemos-te um favor e tu retribuíste com outro. -Mas já viste o que passei no domingo para não ganhar nada com isso? -Tem calma que vais recuperar esse dinheiro. Eu disse-te que não havia problemas, não disse? E vais ver que não há. -Como é que então vais resolver essa situação? -É fácil. Vou arranjar-te uns joguinhos e clientes para te pagarem o frete. Nós ficamos com o dinheiro e abatemos à dívida. -Isso não é justo - disse o árbitro, ao mesmo tempo que dava um murro na mesa. -Não te enerves, porque a situação não é tão injusta como tu julgas. Já sabes que connosco podes ganhar muito dinheiro e vais até superar com toda a certeza essa ***** dos três mil contos. Deixa isso connosco, que nós arranjamos-te jogos para cobrir isso e muito mais. De facto não faltaram jogos a Josué Silvano. Reginaldo não se cansava de lhe arranjar nomeações e pedir os respectivos fretes, mas a devolução do cheque é que nunca foi efectuada, tendo sido utilizado várias vezes para exercer sobre o árbitro os mais variados tipo de chantagem. Os escândalos foram-se avolumando, e o árbitro ficou de tal modo hipotecado à situação que mais tarde teve de fugir para o estrangeiro para evitar a prisão. Algures no Golfo Pérsico, onde tentava montar um negócio de camelos, o pobre árbitro dizia mal da sua vida: -Grandes cabrões, servem-se de uma pessoa e quando ela já não é necessária lançam-na pela borda fora. Mas eles não vão perder pela demora!
Josué Silvano era apenas um exemplo de como alguns árbitros estavam agarrados a Reginaldo Teles e eram obrigados a executar todos os seus planos, muito embora, no meio de toda esta estratégia, surgissem algumas falhas no sistema. O certo é que os árbitros que mais dinheiro ganhavam com os negócios de Reginaldo Teles eram aqueles que apareciam mais vezes a apitar os jogos do seu clube, sendo-lhes exigidos favores à troca de nada. Quanto mais egoísta era o árbitro e mais gastador se mostrava, mais hipotecado ficava. Quando queriam montar negócios ou necessitavam de dinheiro para cobrir algumas despesas da sua vida particular, telefonavam a Reginaldo Teles, e este, salvo raras excepções, nunca se fazia rogado na execução dos empréstimos, mantendo sempre em sua posse alguns documentos comprovativos. Reginaldo Teles sabia bem avaliar a potencialidade dos empréstimos e quanto essa verba lhe iria render. Presos pelas dívidas, os árbitros em causa tinham de se submeter às ordens emanadas por Reginaldo ou George Gomes, uma figura que, aos poucos, se foi transformando no braço direito do seu dilecto amigo. Os empréstimos eram abatidos mediante os jogos efectuados, mas a verba descontada na dívida era sempre muito inferior à que Reginaldo cobrava aos respectivos dirigentes que com ele contactavam. Alguns árbitros estavam fartos de ser explorados e começaram a surgir algumas fugas. Contactados pelos clubes adversários dos protegidos de Reginaldo, traíam os objectivos e colocavam-se do lado contrário, para dessa forma levarem algum dinheiro. A organização era rígida e não perdoava tais veleidades. Reginaldo estava fora de si e, descontrolado, até insultava os árbitros em público. -És um ingrato, mas vou tratar-te da saúde. Este ano já te dei a ganhar mais de 10 mil contos e tu traíste-me. ‘Tás fodido comigo.’ O árbitro, tentando arranjar desculpa para disfarçar o negócio que tinha feito, ainda ripostou: -Não podia fazer mais do que aquilo que fiz, senão era um escândalo. -Era um escândalo, o *******!!! Não viste, há três jornadas atrás, o que fez o Chico? Foi preciso marcar três grandes penalidades para ganharem, e ele marcou-os. Aconteceu-lhe alguma coisa? Claro que não. Ele está sob a nossa protecção. -Ó Reginaldo, desculpa lá, não me fales dessa ***** de desonestidades nem de ingratidões! Para eu ter ganho mais de 10 mil contos, tu ganhaste o dobro ou mais. Eu também estou fodido contigo, porque no jogo que fiz anteriormente ajudei o clube que me pediste e não vi nem um tostão. Não me venhas, por isso, com a conversa de que te pregaram o mico. Eu soube que eles te deram o dinheiro, e eu não ando aqui a fazer fretes de graça, ou para ganhares só tu (...)”.


X

"(...) -Está bem, está bem. Vais ver o que te vai acontecer! E aconteceu mesmo: esse árbitro, que tinha subido ao primeiro escalão no ano anterior, acabou por ser novamente despromovido. Reginaldo não perdeu a oportunidade para lançar o aviso sobre os outros: -Estão a ver o que acontece a quem nos tenta foder e não quer colaborar connosco? Abram os olhos, comigo é que ganham dinheiro!
GC já tinha vários apoios associativos e alguns conselheiros na mão, e caso o presidente do CA não se deixasse influenciar, este já sabia que tinha os dias contados. Poucos foram os que conseguiram gerir com independência o sector. GC estava consciente da força que tinha e das alianças que possuía. Arrastava atrás de si uma grande força popular, argumentando com bandeiras políticas regionais; mas os que o seguiam de perto iam-se afastando, logo que verificavam que aquela bandeira servia apenas para encobrir os seus negócios e não perder o poder popular tão útil em situações menos favoráveis. GC era capaz de tudo para ganhar. Para ele, não existiam barreiras nem personalidades. Habituou-se a esmagar quem se lhe atravessasse no caminho. Duas semanas antes de um jogo entre gigantes (Porto-Benfica) e onde se iria discutir o título, teve um encontro com o presidente do Conselho de Arbitragem, naquela altura um homem isento e honesto, mas com a consciência de que tinha de ter uma certa flexibilidade em algumas situações. A nomeação do árbitro para esse jogo era extremamente importante, e o assunto foi discutido entre os dois: -Que árbitro é que lhe agradava para fazer o seu jogo? GC não respondeu. Pensou um pouco, pegou num papel e escreveu o nome de um árbitro de Setúbal (Carlos Valentão), entregando o papel ao presidente do CA. Este analisou-o e concordou com a situação, até porque o árbitro tinha qualidade e não era daqueles que normalmente negociavam nos bastidores. O clube rival acabou por saber quem era o árbitro e também quem o tinha escolhido. O responsável pelo futebol desse clube, homem muito traquejado e capaz de fazer frente a GC, colocou um plano em marcha. Desconfiado de que GC já tinha o árbitro controlado, contactou com um dos seus fiscais de linha e negociou com ele o resultadodo encontro. Tudo se passou nos arredores da capital no campo de um clube de escalão inferior, onde esse fiscal de linha treinava habitualmente com outros árbitros. Só que, no dia em que o responsável do clube da capital se foi encontrar com o tal fiscal de linha, o encontro foi presenciado por alguém que também tratava da sua forma física. Este, desconfiado, no dia seguinte ligou para Galo da Costa. -Queria falar com o Senhor Galo da Costa. -Da parte de quem? - responderam do lado de lá da linha. -Diga-lhe por favor que fala Maciel Feijoada. Bzzz, click... -Olá, está bom? Então o que é que manda? - perguntou GC do lado de lá do fio. -GC, ontem vi o Gaspar Raminhos a falar com um dos fiscais de linha do árbitro que vos vai apitar no domingo. Ponha-se a pau. -Ah, sim! Esse gajo está fodido comigo! Vou já tratar do assunto. Depois de desligar o telefone, GC, lívido de raiva, ordenou que lhe fizessem uma chamada para o presidente do CA. Logo que este lhe surgiu do lado de lá do fio, entrou a matar: -Tem de me mudar o árbitro do nosso jogo! -Então não foi você que o escolheu? -Pois escolhi, mas soube agora que o Gaspar Raminhos já contactou com um dos seus fiscais de linha. -Isso pode não querer dizer nada, e a faltarem três dias para o jogo não vou substituir o árbitro. Isso seria um escândalo. -Mas tem de ser, senão eu vou fazer um barulho dos diabos. -Faça aquilo que quiser, desde que seja você a assumir essa responsabilidade. Pode até dizer aos jornais que sabe desse encontro. A responsabilidade é sua. Sentindo a inflexibilidade do presidente do CA, ligou de imediato a Ariano Pinto, o homem que o socorria nos momentos de maior aflição, mas nem este conseguiu demover o presidente do CA da sua atitude. Galo da Costa colocou então em movimento uma outra estratégia e, através dos meios de comunicação social, criticou aquela nomeação, levando, como era seu hábito, o assunto ao rubro. O certo é que no dia do jogo confirmaram-se as suspeitas, e o tal juiz de linha que fora visto a ser contactado pelo dirigente do clube adversário não se portou nada bem, prejudicando o clube de GC. Para agravar, um habitual suplente (Cessar Brito) da equipa adversária até bisou, dando a vitória e o título à sua equipa. Pela primeira vez, o assalariado de GC que treinava a equipa (Artosco Jorge) deixou o verniz estalar, chorando baba e ranho na cara do dito juíz de linha. À saída, os árbitros setubalenses levaram uma grande sova, e o chefe de equipa, coitado, sem saber de nada, até levou porrada da mulher de Reginaldo Teles. -Mas, meus amigos, eu não tenho nada a ver com isto, como vocês sabem -desabafava o apitador, enquanto colocava pomada na zona atingida. O que é que eu fiz para merecer isto? Como é que vou explicar à minha mulher estas arranhadelas nas costas? - E, mesmo sendo um homem valente, começou a choramingar... Galo da Costa teve durante toda essa semana de provar o sabor amargo de que, afinal não conseguia controlar todas as situações. Sentiu que tinha de refinar os seus métodos e mandou chamar Reginaldo Teles para discutirem os dois o problema. Reginaldo Teles entrou envergonhado no gabinete do presidente. Não sabia o que dizer. Ele que julgava que tinha o mundo da arbitragem na mão, que tinha inclusive aconselhado o seu presidente a escolher aquele árbitro, e que acabou por ser traído. Galo da Costa quando viu o seu «vice» entrar no seu gabinete, de cabeça baixa, disse num tom apaziguador: -Não vale a pena estarmos agora a bater mais no ceguinho. Temos é de tomar medidas para que uma coisa destas não volte a acontecer. -Ó presidente, sabe que não controlamos os árbitros todos. -Sei muito bem disso, mas a partir de agora, para estes jogos mais importantes, temos de fazer com que sejam nomeados árbitros da nossa inteira confiança e que alinhem no escândalo, se for necessário. O mais importante é ganharmos. Reginaldo ficou mais animado com as palavras do presidente e lançou um alerta: -Isto até é mau para o nosso negócio. Os outros árbitros começam a perder-nos o respeito, e nós acabamos por perder não só o controlo da situação com também aquele dinheirinho que entra todas as semanas. -O povo é de memória curta, e com mais umas vitórias esquece o que aconteceu no domingo. Galo da Costa e Reginaldo Teles gastavam dinheiro à grande e à francesa. A paixão de GC pela Mariana era cada vez mais forte, e isso trouxe-lhe custos exagerados, porque ela sempre se revelou uma mulher de gostos caros e tinha de garantir o futuro da filha de ambos, amealhando alguns cobres. E Reginaldo estava cada vez mais viciado no jogo. Em cada cidade que parava não resistia a uma visita ao casino local. O vício pelo jogo era tremendo. Até parecia castigo de Deus. Tinha entrado nos casinos para lavar dinheiro para os seus negócios pouco claros e acabou por ficar agarrado à roleta. Reginaldo sonhava com Las Vegas, e não havia quem o convencesse que não muito longe ficam os precipícios do Grand Canyon... -Mas no meu caso não vai ser assim. O dinheirinho que entra todas as semanas há-de dar para estas coisas e muito mais.
O futebol é um grande negócio e, agora, que temos a arbitragem na mão, não nos faltará dinheiro - dizia Reginaldo a George Gomes, na tentativa de o convencer a não o aborrecer mais com aquelas conversas de que ele andava a arriscar dinheiro de mais no jogo. - Quem não arrisca, não petisca! - gostava de repetir Reginaldo, especialmente quando desperdiçava umas milenas no preto para ver sair o vermelho, ainda para mais o vermelho... -Olha, essa ***** do jogo ainda há-de ser a tua desgraça. Faz mas é como eu. Vou investindo nuns apartamentos. Pelo menos fico com o futuro garantido - dizia-lhe George Gomes. -Não te preocupes com isso. O negócio vai melhorar. O presidente tem aí um projecto em vista que vai mudar isto tudo - respondia Reginaldo. Tornava-se muito arriscado tentar servir vários clubes ao mesmo tempo. As pessoas já falavam muito nessas histórias e qualquer dia rebentava um escândalo medonho. GC reuniu-se com Reginaldo, e ambos discutiram a nova forma de ganhar dinheiro com a arbitragem, mas com a situação completamente controlada ou, pelo menos, mais controlada. O futebol continuava a ser a guarida dos homens endinheirados à procura de promoção social. Ter muito dinheiro não bastava. Eles gostavam de ser conhecidos, e nada melhor que o futebol para promover socialmente os novos ricos. Reginaldo Teles sabia melhor que ninguém quais eram os empresários que manifestavam grande disponibilidade financeira. A maior parte deles eram seus clientes e deixavam no seu bar muitas centenas de contos através das suas raparigas contratadas. Era só arranjar uma forma de lhe aliviar um pouco mais a bolsa, e o futebol era o melhor meio para isso. O desporto-rei servia de capa para o mais variado tipo de situações. Era só saber aproveitá-lo. Servia para lavar dinheiro e principalmente para fazer esquecer certos preconceitos sociais. O exemplo de Reginaldo era o que mais evidenciava essa situação. Chegou ao Porto para servir na tasca do tio, foi um dos mais conhecidos chulos da cidade, continuava a viver à custa da exploração de carne branca, e as famílias mais conceituadas esqueciam-se disso tudo para o apoiar até à vice-presidência de um dos clubes mais prestigiados da Europa. A sua mulher, que palmilhou noites seguidas na Rua de Santos Pousada, era agora uma senhora bem colocada e apaparicada por todos aqueles que rodeavam o clube, não obstante continuar a ser a dona de um bordel. O futebol é um fenómeno social, e era necessário saber retirar o devido proveito desse facto (...)”.



XI


”(...) Galo da Costa tinha vindo de boas famílias, mas era criticado pelos seus parentes, devido ao relacionamento que tinha no mundo da bola. A sua inteligência não deixava dúvidas e, unindo esse factor à facilidade com que Reginaldo se movimentava no mundo do crime, formava com Teles uma dupla quase imbatível. Reginaldo Teles só possuía a cultura adquirida na tasca do seu tio, e o seu discurso só tinha êxito no bas-fond da cidade. As entrevistas que ia dando só podiam ser concedidas a jornalistas da sua confiança, para que a sua ignorância não se manifestasse com tanta evidência, mas era eficiente nas jogadas de bastidores, e era nessa qualidade que Galo da Costa o aproveitava. Não podia, porém, nem responder nem servir de escudo para os ataques vindos de outros clubes cujos dirigentes conheciam muito bem a sua actividade. Para além de não possuir a capacidade de GC, tinha muitos rabos de palha, e quando surgia em maior evidência nunca conseguia retirar muitos efeitos mediáticos. A sua grande mágoa era ainda não ter podido encontrar um negócio que lhe desse tanto dinheiro como os alternos. Muitas vezes lamentava-se com os seus amigos. -Tenho de acabar com esta *****. Até os colegas dos meus filhos na escola dizem que eu vivo das putas, que sou um chulo. Mas o dinheiro ganho com facilidade sempre superou essas mágoas e também não podia prescindir dos serviços da sua mulher, pois ela era uma «expert» no assunto e o segredo do êxito do bar de alternos. -É que isto de lidar com putas não é tarefa fácil para ninguém. Ou temos os olhos bem abertos ou somos comidos indecentemente. A minha mulher conhece o negócio como ninguém e todos os truques. Já não é comida com facilidade - consolava-se Reginaldo, nas noites de maior angústia, quando tentava ler uma obra de Eça de Queirós.
Quem não dava muita importância a essa situação era Galo da Costa. Para ele, até era bom que o seu amigo de maior confiança tivesse boas putas. Quantas mais ele tivesse, mais ele comia, e o bar sempre era um local de bom chamamento para os seus negócios menos lícitos. Galo da Costa já tinha tido dissabores com alguns desses negócios, e os da arbitragem começavam a ser muito denunciados, mas como o dinheiro desse sector era muito e fazia falta, havia que se estabelecer um novo plano de ataque. As despesas eram muitas e, depois de falidas as empresas em que ele tinha gasto tantos milhões, quase toda a gente já sabia que ele vivia somente à custa da influência que o seu clube lhe fornecia para certos negócios. De vendedor de fogões a empresário falido, GC tinha, porém, a certeza de que o mais importante estava feito: o seu clube ia na crista da onda, e o cartão de crédito que tinha no bolso não tinha tecto. Afagando-o, GC acabou por adormecer embalado por um pensamento reconfortante: «Antes um bomVisa que um bis».
Reginaldo Teles trabalhava no mundo da arbitragem com um certo à vontade. Comprava e vendia com a maior das facilidades. Sentia-se seguro e acabava por cometer erros que, acumulados, se iam tornando perigosos, não obstante usufruir de uma grande cobertura judicial, desportiva e política, situações que eram consubstanciadas através de favores concedidos em todas estas áreas, tendo como referência o poder do seu clube. A bandeira do Norte era içada defendendo um regionalismo recheado de hipocrisia. Esta era a forma de arregimentar a força do povo nortenho quando era necessário sair em defesa de interesses meramente pessoais. Pois se os títulos e os golos eram importantes para os fervorosos adeptos do seu clube, eram muito mais para eles, porque era essa força que servia de suporte aos negócios marginais. Galo da Costa tinha consciência de que no futebol eram autorizados, por parte dos adeptos, alguns jogos obscuros de bastidores. A vitória era importante e combatia-se dentro e fora dos relvados. Alguns adeptos até denunciavam um certo gosto pela habilidade nata com que alguns dos seus dirigentes se movimentavam nos bastidores, mas também se sabia que nenhum deles aprovava que se retirassem benefícios em proveito próprio e muito menos utilizando o seu clube para isso. Mas como o clube ia ganhando... Começaram a surgir algumas denúncias, e uma maior cautela era a medida a tomar com uma certa urgência. Andar a negociar árbitros a retalho era perigoso de mais. Os movimentos multiplicavam-se, e os riscos aumentavam. Alguns jornalistas não se deixaram dominar pelo medo e acabaram por sofrer emboscadas, sendo presenteadoscom alguns socos como medida de intimidação. Reginaldo Teles foi avisado e não parava de pensar como é que o negócio teria de ser conduzido para se acabarem com alguns boatos que começavam a tornar-se perigosos. Nem sequer equacionava poder vir a acabar com um comércio tão rentável. Tinha de encontrar uma solução mais eficaz e menos notada. Já se habituara a ganhar algumas centenas de contos semanalmente, e o seu vício pelo jogo no casino requeria grandes proventos. A ideia acabou por surgir através de um dirigente de outro clube que se tornara um grande cliente e que começou a entender a complexidade do negócio e a dificuldade em acudir a todos os pedidos. -Porque é que vocês não se dedicam a um ou dois clubes em vez de andarem a acudir a todos os fogos? Façam contas e vão verificar que o negócio se torna mais rentável, é mais seguro e não gera tantas confusões. Reginaldo Teles ouviu com atenção a observação, e, como dizia, a sua mioleira acendeu-se como um cockpit no momento da aterragem. Para arrefecer as ideias, pediu ao seu empregado que lhe trouxesse mais um whisky. -Mas com muito gelo. Saboreou durante largos minutos a sua bebida, elaborando mentalmente um novo plano de ataque. Olhou à sua volta e, ao verificar que uma das suas prostitutas se despedia de um cliente depois de lhe ter sacado duas garrafas de champanhe, fez-lhe um sinal e chamou-a. Ela olhou admirada e colocando o dedo indicador no meio do peito nu, bem dentro de um decote que ameaçava fazer-lhe saltar as mamas a qualquer momento, interrogou-se, encolhendo os seus lábios vermelhos e carnudos: -Eu?! Reginaldo passou a mão pelo rosto, fez rodar o copo entre os dedos para agitar o gelo e acenou com a cabeça, confirmando o chamamento. Rebolando a anca, atravessou a pista de dança e dirigiu-se a Reginaldo. -Senta aí. -Mas que luxo! Ser convidada para a mesa do patrão! -Cala-te e ouve. O George Gomes dormiu contigo esta noite? -Já sabe que sim. Ou ainda não lhe disseram que ando com ele? -Sei muito bem que andas com ele, e quero é saber onde o posso encontrar agora... neste momento. -Como ainda é cedo, deve ter passado por casa. Mas ele disse-me que vinha cá hoje. -A que horas? -Ai, isso não sei! Mas deve estar a chegar. -Se por acaso estiver ocupado na altura em que ele chegar, diz-lhe que eu quero falar com ele com urgência. -OK! É só isso? - disse a empregada antes de se retirar, ao mesmo tempo que puxava as mamas para cima e deitava o olho a um novo cliente. Reginaldo Teles dirigiu-se para o balcão onde estava a sua mulher a chamar a atenção de uma das suas empregadas. -Estás aqui para trabalhar e não para namorar. Estiveste na mesa daquele gajo e nem um copo lhe sacaste. Reginaldo Teles ia a pedir um pouco de calma à sua Lisa, quando viu George Gomes a entregar a sua gabardina ao porteiro. Fez-lhe logo sinal com a mão e, após uma breve troca de olhares, dirigiram-se para uma mesa mais recuada e sem barulho de música. Reginaldo apresentou-lhe a sua ideia para se avançar com uma nova forma de negócio. Ao fim de alguns minutos, estava tudo resolvido. Iam trabalhar com três ou quatro clubes de divisões inferiores e com um ou dois de primeira categoria, prometendo-lhes a manutenção. Desta forma, a acção não colidia com os interesses do seu clube muito pelo contrário: podia até sair beneficiada. Reginaldo estava tão entusiasmado com o negócio, que deixou George Gomes embasbacado quando lhe disse: -Isto não tem nada que saber. Vamos deixar de trabalhar jogo a jogo. Para correr tudo bem, necessitamos de tempo e organização. O clube que quiser subir contacta-nos com tempo, fazemos o preço e temos todo o campeonato para tratar do assunto. Desta forma, podemos jogar com algumas falhas e colmatá-las com outras jogadas e outros intervenientes. George Gomes ouviu com atenção, mas ficou desconfiado, pois não lhe passava pela cabeça vir a perder dinheiro. Além do mais, ficava sem campo de acção para algumas das suas jogadas em que prometia levar o dinheiro a alguns árbitros e nem sequer os contactava. Mas Reginaldo descansou-o. -O teu papel continua a ser o mesmo. Nós temos de trabalhar todas as semanas, temos de fazer os nossos contactos, só que desta forma a massa vem dos clubes antecipadamente. No início do campeonato estabelecemos um preço de subida e, como em negócios destes não há crédito, eles dão-nos o dinheirinho adiantado e nós é que gerimos a situação. -E já tens algum cliente? Estamos a mais de meio do campeonato, e até ele acabar não vamos ganhar mais nenhum? - perguntou George Gomes, preocupado e ainda confundido com esta nova situação. Mas Reginaldo não perdeu tempo, expondo-lhe novos pormenores do negócio: -Estamos em Março, e é a partir de agora que começam as grandes confusões. Estive a falar com o presidente de um clube que está à rasca. Não quer descer e, como dinheiro é coisa que não lhe falta, vamos arrancar com esse negócio. Amanhã vais falar com ele, apalpas a situação e, se o vires interessado, combina com ele um encontro aqui no bar, que depois eu faço o resto. Trata disso sem falta amanhã, que eu agora vou até ao casino aumentar a minha fortuna. -Já vais foder o dinheiro todo nessa *****. Assim, não há negócio que resista -lamentou-se o George. Na tarde seguinte, George Gomes fez o seu contacto; falou com o presidente do tal clube que não queria descer e, vendo que este se mostrou interessado no negócio, marcou encontro para essa noite.
Reginaldo Teles escolheu duas das suas melhores mulheres, avisou Lisa de que naquela noite iria aparecer um bom cliente e deu instruções para que nada faltasse, porque estava em perspectiva um bom negócio. Quando ia a sair, disse a Lisa para ela falar com as duas empregadas, avisando-as de que, se fosse necessário, elas sairíam com esse cliente. -É que ele gosta de ter mais que uma mulher na cama, e é bom que ele saia daqui satisfeito. Nessa noite, Reginaldo Teles chegou atrasado ao bar, mas fê-lo de propósito, para queas suas duas empregadas tivessem tempo de levar o cliente ao ponto que ele queria. Quando fez a sua entrada, a situação já estava a ser controlada por George Gomes. -Ele está no ponto de rebuçado. -É assim mesmo que eu o quero. Após estas palavras, Reginaldo dirigiu-se para a mesa do seu convidado e disse, com um ar de não total inocência: -O presidente está bem acompanhado! Ambos trocaram um sorriso e compreenderam que tinha chegado a altura de ficarem sozinhos para tratar de negócios. As duas mulheres, após um ligeiro sinal, levantaram-se da mesa sob o argumento de que tinham de ir à casa de banho recompor a maquilhagem, mas prometendo voltar logo que se acendesse a luz verde... Reginaldo Teles começou a falar da situação aflitiva em que estava o clube do seu interlocutor, passando de imediato àquilo que mais interessava e que tinha proporcionado aquele encontro. -Estive ontem a pensar na vossa situação e cheguei à conclusão de que, se não houver um trabalho a sério, vocês vão direitinhos. -Nós também temos consciência disso. -Ainda ontem um presidente veio ter aqui comigo para ver se eu o ajudava a sair de uma situação como a vossa, mas eu não lhe disse nada até falar consigo. Se vocês quiserem, prefiro ajudar o vosso clube. Sempre é da nossa associação (Porto). -Claro que queremos, mas também não temos muito dinheiro para gastar. -Estive a fazer contas e penso que, com 50 mil contos, podemos controlar a situação até ao final do campeonato. Mas, atenção, que este dinheiro também é para ser investido no campo do adversário. -Com 50 mil contos, vocês garantem-nos a manutenção? -Quase a 100 por cento. -Quase? -Sim, quase, porque a bola, que eu saiba, continua a ser redonda... -E como é que vamos pagar esse dinheiro? -Em três tranches. Dez mil agora e mais duas de vinte mil quando virmos que é necessário o investimento. -Está combinado. O George Gomes pode passar lá amanhã pelo meu escritório e já traz o cheque dos 10 mil. Estava em curso uma nova forma de negociar, e pelos vistos mais segura, para além das vantagens que isso trazia. Com aqueles 50 mil contos podia fazer-se muita coisa, uma das quais era tentar atrasar os mais directos adversários do clube de Reginaldo Teles. Quando estes fossem jogar com o clube que tinha pago os 50 mil contos, investia-se nessa situação. Com um tiro matava dois coelhos: o seu clube adiantava-se em termos de pontos, e o seu cliente ficava bem servido. Só que o egoísmo levou-os a cometer novos erros. O dinheiro era fácil e gastava-se ainda mais facilmente. Reginaldo pedia cada vez mais e investia cada vez menos. Estava ciente do poder que tinha e jogava com algumas promessas de árbitros em termos de classificação no ranking final, pagando cada vez menos em dinheiro e fazendo prevalecer outras situações de favor. Alguns árbitros contentavam-se com isso, mas outros arriscavam e, sabendo que eles estavam a ganhar dinheiro com os seus favores, exigiam a quota parte deles. Surgiram então algumas ameaças de despromoção, e não faltaram desentendimentos, assim como processos de pura chantagem, ao melhor estilo de um filme que George Gomes um dia alugou no clube de vídeo da esquina, «O Padrinho». Mas como o tempo não parava e a bola se revela teimosamente redonda, as coisas complicaram-se, até que se chegou ao final do campeonato, e o clube que tinha investido 50 mil contos para não descer jogava a sua última cartada em 90 minutos de futebol. Reginaldo Teles multiplicou-se em acções, jogando em vários campos, mas era tarde de mais para controlar todas as situações. Havia que investir em vários jogos, e o dinheiro tinha sido gasto no casino e noutros negócios. Mesmo assim, ainda tentou outras soluções, mas os adversários mais directos não andavam a dormir e também tomaram as suas precauções (...)”.


XII

”(...) Já depois dos 90 minutos regulamentares, uma das equipas, não incluídas no seu«pacote», e que jogava a norte, marcou o golo que lhe garantia a permanência. A aposta de Reginaldo Teles tinha falhado. Jogadores, treinadores e dirigentes nem queriam acreditar, e o presidente do clube que tinha dado os tais 50 mil contos para não descer evaporou-se durante mais de três semanas. Claro que depois choveram as desculpas e inventaram-se as maiores jogadas para encobrir o desastre. Reginaldo Teles, depois da tempestade, prometeu que na época seguinte esse clube subiria - e de facto, subiu, muito embora com um investimento menor. Era necessário salvaguardar a imagem para que o negócio não se perdesse, mas para tapar esses buracos houve outros investimentos que falharam. Por exemplo, numa tentativa de subida da 2ª Divisão B à Honra, fez-se também um grande investimento que, tal como o outro, não resultou precisamente na última jornada. Havia dois clubes com possibilidades de serem promovidos. Um deles estava a ser protegido por Reginaldo Teles e a sua organização, o outro vivia da habilidade de alguns dos seus dirigentes que se mexiam bem no seio da arbitragem e conheciam por dentro o negócio. Na última jornada, o clube que estava protegido por Reginaldo ia jogar a casa de um adversário cujo resultado já não contava para nada. O árbitro desse jogo tinha a promessa de que iria ser internacional, e Reginaldo garantiu que este estava controlado. O presidente do clube que queria subir prometeu mesmo uma prenda à mulher de Reginaldo Teles, caso o seu clube fosse promovido: -Ofereço-te um BMW novinho em folha. Eu sei que gostas deste carro, e o Reginaldo não se importa que eu te dê esse prenda. Lisa arregalou os olhos de contentamento e não mais deu descanso ao seu homem: -Vê lá o que andas a fazer. Ele tem que subir. Eu quero aquele BMW. Só que os outros não andavam a dormir. Tinham a situação controlada para o jogo que iam disputar em casa e a aposta tinha de ser feita no jogo com o outro adversário candidato à subida. Na semana que antecedeu esse jogo, já se sabia quem iria ser o árbitro do encontro. Era do Alentejo, terra onde abundam sobreiros e cortiça, e tal como o tal clube era de uma terra onde se fabrica muita rolha; através de um emissário foi dada uma palavrinha ao tal árbitro, mas a proposta no valor de 10 mil contos, foi prontamente recusada. Este foi o sinal de que o árbitro já estava feito com Reginaldo Teles, porque em relação à sua honestidade não havia rolhas que tapassem o fedor que ali se guardava... Só havia uma solução para combater a estratégia de Reginaldo Teles. Os homens da cortiça contactaram o clube a quem o resultado pouco interessava e, como os seus jogadores tinham os vencimentos em atraso, ofereceram-lhes 20 mil contos para ganharem. Era muito dinheiro, e ninguém resistiu à proposta. No dia do jogo, os homens da cortiça lá estavam com a verba combinada: 10 mil contos em dinheiro, trocado no dia anterior no casino por cheques e outros 10 mil em papel com garantia de altos dirigentes federativos da zona centro do País. Ávidos pelo dinheiro que lhes estava a ser oferecido, os jogadores nem pensaram duas vezes, e as habilidades do árbitro não foram suficientes para combater toda aquela (falta de) ambição... Reginaldo Teles tinha perdido mais uma aposta. Tinha falhado mais uma promoção. Fez, no entanto, os seus negócios e ganhou dinheiro com isso. Só mesmo a Lisa é que ficou sem o seu BMW. -**** que te pariu, Reginaldo! Como se não bastasse o facto de não me foderes, ainda me fazes andar de Opel! - gritou Lisa, depois de mais uma «nega» do marido, numa noite, ainda para mais, de lua plena... -Desculpa, filha, acho que bebi de mais! -adiantou Reginaldo, antes de rolar os olhos rumo a um sono sem sonhos, os seus preferidos.

Apesar de falhas bem visíveis na organização, Reginaldo Teles continuava a usufruirde uma excelente reputação no negócio das arbitragens. A máquina estava bem montada, e os perdedores eram levados a acreditar que era praticamente impossível controlar todas as situações de forma a garantirem a vitória. Reginaldo defendia-se afirmando que, se o processo não fosse falível, acertava todas as semanas no totobola. As pessoas conheciam os pormenores da organização e sabiam que o risco de erro era mínimo, mas existia...Reginaldo Teles controlava várias áreas adjacentes ao mundo do futebol e sempre era melhor estar de bem com ele do que tentar lutar contra a sua estrutura. O negócio de corrupção já há muito tinha ultrapassado a arbitragem, encontrando-se instalado noutros sectores. Por vezes, controlar o árbitro não chegava e também era verdade que, nem todos os árbitros se deixavam enredar na teia bem urdida por Reginaldo e George Gomes e, por isso, tornava-se necessário alargar o campo de acção a outros sectores e a alguns jogadores que, na ânsia de arranjar melhores contratos, alinhavam em favores extra. Valia tudo para se servir o melhor possível o cliente. Reginaldo e George Gomes tornaram-se especialistas na tramóia. Tinham toda a cobertura possível do clube que representavam. Aos poucos, os dirigentes dos outrosclubes ficavam dependentes da sua acção e dos seus serviços. No início de cada época, era elaborada uma lista de jogadores a emprestar pelo clube de Reginaldo, e os primeiros a ter acesso a essa lista eram aqueles que se comprometiam a ser os melhores clientes, depositando milhares de contos nos cofres da organização. Destes dividendos, o clube não via nem um tostão, e por isso é que alguns dirigentes com maior estatura moral, ao aperceberem-se que alguns parasitas viviam à conta do seu clube, abandonavam as suas posições, não deixando de comentar: -Isto é impossível. Um clube com tanta dignidade vive rodeado de chulos. É quem mais se orienta. -É preciso ser-se maluco para depender exclusivamente de um pé-descalço e de um mentecapto. -O melhor é sair do barco, senão ainda vamos ao fundo com ele e se isso acontecer já ninguém nos arrancará do lodo... Até o Ilídio, que já tinha investido milhares de contos no clube do seu coração, deixou de acreditar que, algum dia, poderia vir a ser «vice» do futebol profissional e deixou de contribuir quando era chamado a apagar alguns fogos de ordem económica. E gabava-se disso, sem tentar esconder a sua posição: -Deixei de ser burro. Era o que faltava, andar aqui a ganhar honestamente o meu dinheiro para sustentar estes chulos. Se falta dinheiro, que o ponha lá quem o ganha à custa do clube. Se derem 10 por cento do que ganham à nossa custa, já podem acudir a alguns fogos. Sempre é melhor deixarem o dinheiro no clube que os sustenta que deixá-lo no casino. Ilídio sabia que tinha peso entre os adeptos, pelo menos desde o dia em que resolveu pedir a sua demissão de dirigente e, ao contrário de que aconteceu a outros, Galo da Costa se apressara a fazer com que ele regressasse. Gostava de ser campeão todos os anos, mas não apoiava os processos utilizados por Reginaldo e muito menos, ao contrário de outros, deixava que a sua mulher se misturasse com a Lisa nas viagens ao estrangeiro.
Reginaldo Teles ganhava apoiantes entre aqueles que comiam algumas migalhas do seu bolo. Como era conveniente, controlava alguns delegados técnicos, montando um sistema de protecção aos árbitros que com ele colaboravam. Servia-se do seu clube para se insinuar perante os membros do Conselho de Arbitragem, deixando no ar promessas que raramente eram cumpridas. A chantagem era o trunfo mais utilizado na intimidação das pessoas que se deixavam levar por alguns processos menos claros e que, depois de entenderem que pouco ganhavam com isso, manifestavam a intenção de sair da organização. Esses processos, na maior parte das vezes, eram utilizados contra jogadores que se deixavam corromper e que, depois de se sentirem enganados com falsas promessas, se recusavam a aceitar um segundo negócio. Também havia aqueles que, não querendo alinhar no sistema de corrupção, quando contactados, se recusavam a tal. Esses eram constantemente ameaçados e só com muita dificuldade arranjavam novos clubes depois de terminarem os seus contratos. Era a política do medo que se exercia sobre jogadores e dirigentes. Quem contrariasse Reginaldo, sentia que estava a contrariar GC, e o resultado era quase sempre funesto. As pessoas sentiam que lhes estavam a sonegar dinheiro, mas não tinham coragem para se impor. Sabiam por experiência que não era muito saudável alguém voltar-se contra quem manda no futebol. A arrogância com que a dupla GC-Reginaldo actuava e a ditadura que impunham provocava até situações ridículas, mas nada era feito ao acaso. Um dos exemplos disso estava num dos anúncios transmitidos semanalmente pelo Totobola. Nesse anúncio surgiam golos de várias equipas, e como o clube de GC tinha sido esquecido, o próprio presidente contactou a Santa Casa e fez saber que, se não incluíssem num desses anúncios um golo do seu clube, ele mesmo faria uma campanha anti-Totobola. A chantagem valia para tudo, mas GC era também mestre na simpatia, e quando lhe convinha atingir determinado objectivo, se fosse necessário, tornava-se até subserviente. GC e Reginaldo tinham personalidade muito idênticas que se dividiam entre o anjo e o demónio, e por isso é que se entendiam bastante bem e existia uma confiança sem limites entre ambos. GC era o mentor, e Reginaldo o executor. George Gomes queria imitá-los, mas as suas limitações não lhe permitiam longos percursos nessa área. Explodia com muita facilidade e, como não tinha a noção do ridículo, deixava cair a máscara e denunciava a sua real personalidade. Também era verdade que lhe cabia assumir os papéis de maior desgaste. A organização era superiormente constituída e soberbamente organizada. Escolhia os árbitros de personalidade mais frágil para patrocinarem os escândalos nos jogos onde era necessário vencer a qualquer preço e, depois de utilizados, quando já não possuíam qualquer tipo de credibilidade, esses mesmos árbitros eram abandonados e abatidos ao efectivo. Alguns treinadores também se deixaram possuir pela vida fácil de arranjar emprego, entregando toda a sua carreira à responsabilidade de Reginaldo Teles. Ele é que os colocava, mas sempre com o objectivo de conseguir novos clientes. Muitos deles sujeitavam-se ao desemprego durante meses a fio, para esperarem a oportunidade e a ordem dada por Reginaldo. Quando surgia um elemento endinheirado à cabeça de um clube, Reginaldo não perdia tempo. A carreira desse clube começava a sofrer oscilações, até que o presidente era aconselhado, através de um sinal subtil de boa vontade, a mudar de treinador. O acaso proporcionava encontros programados à distância com elementos ao serviço de Reginaldo: -Com esse treinador não vai a lado nenhum. Arranje outro enquanto é tempo. -Não é assim tão fácil como isso. Não há por aí treinadores aos pontapés, e também é necessário pagar-lhes - reagia o presidente, em situação de desespero. -Ó homem, fale com o Reginaldo que ele arranja-lhe um gajo com capacidade. Ele é que controla isto tudo. Estou a ser seu amigo, não ganho nada com isso!
Muitos desses presidentes não agiam de imediato, mas, como os bons resultados teimavam em não aparecer, acabavam por seguir o bom conselho daquele amigo tão providencial. Caíam que nem patinhos na teia que lhes tinha sido estendida. Depois de contactado, Reginaldo colocava a máscara do amigo, do proteccionista que age sem qualquer tipo de interesse. Um autêntico bom samaritano. -Vou arranjar-lhe um treinador de cinco estrelas. Não se preocupe que a partir de agora vai correr tudo muito melhor - garantia aos presidentes mais conhecidos, nos intervalos de algumas beijocas e outras tantas mamadas de algumas especialistas pagas a peso de ouro. Uma semana depois de o novo técnico estar ao serviço desse clube, surgia o conselho tão desejado para os presidentes mais inexperientes: -Tem de começar a aparecer no bar do Reginaldo mais vezes. Ele é um gajo porreiro. E lá é que se resolvem todas as situações. Tentando rentabilizar o investimento que já tinha feito, o «homem» era recebido como um marajá. Lisa encarregava-se de lhe colocar na mesa uma ou duas das suas melhores mulheres. Reinaldo dava ordem para que o serviço de bebidas não falhasse e, para não dar nas vistas, naquele primeiro dia a conta era arredondada para baixo e elevados os carinhos proporcionados pelas raparigas. O dirigente saía satisfeito, e até comentava com os seus colegas: -O Reginaldo é um gajo porreiro. Meteu-me duas mulas na mesa boas como milho, e no final a conta foi uma merdita. O pior acontecia nas visitas seguintes. Iludido com tamanha amizade, o dirigente tornava-se cliente assíduo e, para não parecer mal andar no putedo, sempre tinha a desculpa de que ia tratar de negócios com Reginaldo. Este, por seu lado, só tinha deesperar até que a vítima ficasse definitivamente presa. As bebedeiras sucediam-se, e alguns chegavam até a mijar-se pelas pernas abaixo para descontentamento das mulheres que os tinham de aturar, mas Reginaldo não tinha contemplações quando alguma das suas empregadas se queixavam que já não aguentavam mais micções ou vomitados daqueles pacóvios que estavam ligados ao futebol. -Coitados, nunca saíram de casa e agora bebem dois copos e cagam-se todos. Reginaldo Teles não gostava desse tipo de comentários e cortava-os pela base: -Se não queres trabalhar, fala ali com a Lisa que ela faz-te as contas e vais com a Nossa Senhora. As putas bem se lamentavam, porque com os dirigentes do futebol as suas comissões diminuíam, pelo menos nos primeiros tempos, dado que a intenção não era esmifrá-los, como faziam aos outros clientes, mas cativá-los para operações bem mais proveitosas para o... patrão. -Estás a mangar? O que ele quer é embebedar os perus... -Não tenho pena deles. Tenho mais pena de mim. Ando aqui a dar tudo o que tenho, e o que ganho com esses pavões nem dá para a cabeleireira. -Tem paciência, Vanhia. Pode ser que ainda venhas a casar com um jornalista desportivo, como eu... (...)”.



XIII



“(...) As putas já estavam resignadas.
Chegada a hora de o abutre picar sobre a carcaça, Reginaldo começava a gerir a situação, dando toda a cobertura ao clube cujo treinador lá tinha colocado. As tabelas eram feitas mediante os escalões em que os clubes militavam e, como normalmente as coisas melhoravam de imediato, toda a gente se sentia satisfeita. O presidente tornava-se um bom cliente, diminuindo o orçamento para a contratação de jogadores e aumentando a verba de despesas confidenciais que iam direitinhas para os bolsos de Reginaldo. A qualidade do futebol decrescia também, porque já não era necessário investir-se em bons profissionais, mas sim nas habilidades e manobras de bastidores. Os dirigentes não escondiam essa situação: -Que importa ter bons jogadores se não ganhamos?!... À parte tudo isto, os treinadores colocados por Reginaldo também alinhavam em várias jogadas, principalmente nos finais de campeonato. Quando não estava em causa o resultado para uma das equipas cujo treinador fazia parte da carteira de Reginaldo, era fácil pedir-se-lhe a derrota para beneficiar um outro cliente. Todos ganhavam dinheiro com isso. O sector do futebol júnior também foi transformado num grande negócio através do empréstimo de jogadores e, por isso, logo cobiçado pelos familiares de Reginaldo. Os clubes que eram beneficiados com esses empréstimos, para além de usufruírem de imediato de proteccionismo relativamente às arbitragens e de terem de pagar magros vencimentos aos atletas, tinham de passar cheques cujas verbas iam até aos 5 mil contos sempre em nome de Reginaldo Teles e nunca em nome da colectividade.
O clube que se tornou melhor cliente de Reinaldo andava já há algumas épocas a tentar a subida à 1ª Divisão e já tinham investido muitos milhares a partir do bar gerido pela Lisa. Mas depois de ver frustradas as suas acções e de ter gasto muito dinheiro, um dos seus dirigentes resolveu ter uma conversa com Reginaldo Teles e, sem preâmbulos, foi direito ao assunto: -Já andamos há algumas épocas a investir e ainda não conseguimos nada. Desta vez tem de ser. Digam lá quanto é que é necessário para subirmos de divisão. Reginaldo Teles afagou o bigode, pensou, e só depois disse num murmúrio de grande cumplicidade: -Se vocês querem mesmo subir, vamos ter de apostar forte. -E essa força quanto nos custa? -Não é esta a altura para vos dar uma resposta. Vamos estudar o problema e depois falamos. Reginaldo Teles teve então uma conversa com Galo da Costa, colocou-lhe o problema, e este não esteve com meias medidas: -Se eles querem subir, vão ter de pagar bem por isso. Naquela zona há muito dinheiro. Anda tudo bem calçado. Estabelece uma verba de 250 mil contos e divide isso em quatro ou cinco tranches. -Mas, presidente, isso não é muito dinheiro? -Não, não é, atira com essa verba e se eles não forem na fita baixa um pouco a fasquia, mas não muito. Reginaldo e George Gomes marcaram encontro com os interessados e, após uma curta discussão, ficou acordado que essa verba seria de 200 mil contos divididos em quatro tranches de 50 mil contos. O certo é que, após vários escândalos - jogos houve nos quais foram marcadas três grandes penalidades... - , esse clube acabou por subir ao grande palco do nosso futebol, e ninguém fez menção de fazer segredo de que os grandes responsáveis por essa subida foram Reginaldo e GC. Aqui o segredo nem sequer era a alma do negócio, muito pelo contrário, era necessário que toda a gente soubesse para incentivar novos clientes. Uma autêntica operação de marketing. -Reginaldo, isto é muito melhor que jogar na roleta! - atirava GC, enquanto se deliciava com mais um extracto bancário. -Sem dúvida, presidente, mas agora que falou nela, já me está a dar um formigueiro nas mãos. -Oh, não!...
Toda a gente sabia que Galo da Costa vivia do futebol e essencialmente do seu clube, mas ninguém se arriscava a comentar o facto publicamente. Não se lhe conhecia mais nenhuma actividade e muito menos tinha fortuna pessoal, mas não obstante estes factos, vivia como um milionário. Comprava apartamentos de grande luxo para familiares e denunciava sinais exteriores de riqueza. A sua vida era um mistério que ninguém ousava desvendar. Numa reunião de direcção, Galo da Costa colocou com toda a frontalidade o seu problema económico. Ele tinha consciência de que aquilo que impunha era aceite, e ninguém ousava comentar. Já passava das 22 horas, quando entrou pela sala de reuniões. À sua frente estendia-se uma mesa larga e comprida com os cantos arredondados. À sua volta estavam sentados oito dirigentes discutindo entre si vários problemas de menor importância, mas quando sentiram a porta a abrir-se, viram Reginaldo Teles com o puxador na mão a dar passagem a GC, que entrou com um sorriso nos lábios, logo seguido do irmão de Reginaldo, cuja postura física e comportamento se assemelhavam aos de um gorila. Toda a gente se levantou para cumprimentar o presidente. Reinaldo tropeçou na alcatifa e, não fora a acção rápida de Ilídio Pintas, a segurá-lo pela gola do casaco, ter-se-ia enfiado por debaixo da mesa. GC largou um sorriso, e em tom de brincadeira comentou: -Reginaldo, estão a tirar-lhe o tapete? Toda a gente riu, mas Reginaldo é que não achou piada nenhuma. Todos se sentaram, e Galo da Costa apresentou de imediato a sua proposta: -Meus senhores, aqui neste clube os vencimentos vão ser atribuídos conforme as responsabilidades. A pessoa mais responsável é sem dúvida o presidente. Concordam? Os presentes na reunião olharam-se entre si e, sem perceberem muito bem o que GC queria dizer, acabaram por concordar, muito embora se mostrassem hesitantes. Mas, ao aperceber-se da situação, Reginaldo fez da sua voz a de toda a gente: -Claro que ninguém tem dúvidas que a maior responsabilidade pertence ao presidente. Como ninguém se atreveu a contestar tal afirmação, GC, sem mais delongas, expôs a sua posição: -A partir de agora, o presidente vai ganhar sete mil contos por mês, o treinador seis mil e depois seguem-se os vencimentos dos jogadores, sem luvas e prémios, está claro. Os presentes estavam à espera de tudo, menos de uma situação como aquela, e dois«vices», sem soltarem uma única palavra, levantaram-se da mesa e saíram. GC não se preocupou com o facto, tinha-os na mão e sabia que ninguém tinha tomates para falar. Enfrentando os que ficaram, não deu hipótese a que ninguém mais recuasse: -Então, como este ponto está aprovado, passemos a outro! Ouvia-se a chuva que batia nos vidros. Reginaldo bem tentou dar vida à reunião, mas o seu vocabulário não lhe permitiu ir além de uns monossílabos completamente desenquadrados de toda aquela situação: -Bem...hum...hum...pois... A reunião, por motivos óbvios, acabou depressa. Um raid de comandos não seria mais fulminante.
O suporte económico de GC estava a consolidar-se. Sabia-se da sua ligação camuflada à agência de viagens, da sua comparticipação nos lucros e actividade da Olivedesportivos e ultimamente até tinha comprado um jornal, um elemento indispensável para dar a cobertura nacional necessária aos seus mais variados negócios. A corrupção era uma fonte de receita inesgotável e sem impostos. Mas como não assumia publicamente -nem o podia fazer - nenhum destes negócios, tinha sérias dificuldades em explicar de onde lhe vinha a fortuna. Não se preocupava muito com isso. Ele sabia que tinha várias espécies de argumentos para fazer calar quem ousasse pedir explicações. Era um homem com a resposta sempre na ponta de uma viperina língua. Tudo estava devidamente controlado e de nada adiantava aos clubes da capital lutar pelo poder dentro das estruturas do futebol. GC sabia, há muito, que a força do dinheiro combatia tudo, e as lutas regionais e clubistas superavam-se com facilidade, com sexo e com dinheiro. E nestas áreas estava tudo mais que garantido. Nos momentos decisivos de eleições federativas, era ele quem controlava todas as situações, tendo com referência a ajuda preciosa de Ariano Pinto, um estratego de alto nível e um exímio jogador de sueca. Ariano Pinto era homem para deixar o adversário sem vazas, mesmo quando este só tinha trunfos, passe o exagero. Ariano e GC escolhiam os lugares que mais garantias lhes davam para a continuidade dos seus vários negócios, mas, como não podiam escolher todos os lugares, autorizavam mesmo que alguns mais importantes caíssem nas mãos dedirigentes ligados aos seus mais directos rivais. Não seriam necessários mais de dois meses após o acto eleitoral federativo para que se tornasse claro que os dirigentes indicados pelos clubes da capital já estavam do lado de GC. Mestres na arte da corrupção, proporcionavam vidas faustosas aos dirigentes inimigos(?), e a clubite era de imediato esquecida. Era normal ver-se um presidente federativo ao lado do clube de Galo da Costa, quando este tinha de enfrentar algumas dificuldades e, sabendo-se que esse dirigente se afirmava de determinado clube da capital, nunca ninguém se espantou por ele nunca aparecer ao lado do clube das suas cores para o defender. Pelo contrário, até surgiu um presidente lisboeta que se tornou mais nortenho que um galego! Os pontos-chave estavam todos controlados, para que a manobra fosse absoluta. Exageraram, no entanto, em algumas situações. A sede do poder subiu à cabeça de Galo da Costa, e os ataques ao Governo fizeram-se sentir com grande intensidade quando verificou que no campo político não era possível ter tanta cobertura como no futebol. A Procuradoria-Geral da República colocou a Polícia Judiciária em campo, e a acção contra a corrupção no futebol desenvolveu-se de uma forma intensa. Durante vários meses, Reginaldo Teles e George Gomes foram vigiados de perto, e os seus telefones ficaram sob escuta. Passado um mês, os agentes encarregados desta função já não tinham qualquer dúvida em relação à corrupção e aos negócios de Reginaldo Teles, mas as investigações continuaram. Os agentes testemunharam vários encontros de árbitros com Reginaldo e George Gomes. Ouviram várias conversas em código, mas que entendiam perfeitamente. A rede estava bem montada e tudo indicava que, mais tarde ou mais cedo, Reginaldo e os seus pares iriam cair nas várias armadilhas que lhes estavam a ser montadas. Galo da Costa estava fora dessa investigação. Não era fácil atacar-se um homem como seu poder. A polícia tinha de atacar por baixo para chegar lá acima, mas juridicamente o grupo estava bem organizado e bem escorado. Jogavam, de uma forma invulgar, com carências que a Lei apresentava no combate à corrupção. Seria fácil para a polícia chegar à conta bancária de qualquer um deles e pedir justificações para o movimento semanal de verbas tão volumosas. Mas tal não era possível. Os agentes encarregados da investigação viviam desesperados por não poderem provar aquilo que viam com os seus próprios olhos. Por isso, atrasaram as investigações, esperando uma melhor oportunidade que nunca surgia. Eles sabiam que, no momento que pedissem contas ou justificações, bastava um deles negar-se a fazê-lo para que o processo não avançasse. Eles sabiam, também, que quem tinha que provar que o dinheiro nas suas contas bancárias era ilegal era a polícia e não os acusados. Estavam de mãos atadas.(...)”.


Continua...

Nota: Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência.

 

nartanga

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#5
benfica1969 said:

O POLVO


I



:-looky
“ (...) Galo da Costa assumiu a derrota, mas não a digeriu. Parecia perdido para o futebol. A sua atitude revolucionária tinha deixado marcas bastante profundas. O seu futuro como dirigente estava severamente comprometido, mas Galo da Costa sempre acreditou que no futebol é o golo que comanda as atitudes e as situações e que provoca a queda dos dirigentes e treinadores. Por isso, GC não se deixava abater com tanta facilidade. A sua resistência não tinha limites e afinal só tinha perdido uma batalha. O importante, agora, era fazer com que o seu clube tivesse alguns desaires. Tinha, por isso, de montar a sua estratégia, mesmo sem os seus anteriores aliados. Os seus companheiros, os da tentativa de revolução, colocaram-se à margem para se aliarem a quem ficou com o poder, e os profissionais seguiriam o seu rumo, a sua vida era aquela; e, mais tarde ou mais cedo, acabariam por surgir novos empregos. Eram artistas do futebol, tinham mérito e qualidade. O seu caso era mais difícil. Era um dirigente com algum carisma ganho à custa do prestígio de Pidroto. A sua personalidade e capacidade ainda não tinham sido verdadeiramente testadas. Faltava-lhe prestígio para fazer frente a Américas de Sá. E não podia continuar a vender fogões toda a vida... Sem abandonar os bastidores do futebol, foi minando a gerência de Américas de Sá. Não era homem para ser derrotado com tanta facilidade, mas em alguns momentos chegou mesmo a sentir o desespero de uma causa que parecia perdida. Mestre a colocar o boato a circular, fez constar que um clube da capital lhe tinha dirigido o convite para assumir o comando do departamento de futebol. O objectivo era deixar passar a mensagem de que o inimigo tinha visto nele superiores qualidades e, perante tal facto, esperar que algumas vozes se levantassem, reconhecendo o erro que tinham cometido. Mas acabou por acontecer o contrário. A credibilidade de Galo da Costa em relação às posições que tomou em defesa do Norte foi afectada. Apercebendo-se de que a sua estratégia não resultara, logo se apressou a desmentir o boato posto por ele a circular. As eleições estavam próximas e era necessário estabelecer um plano mais sólido para derrotar Américas de Sá. Não era homem para viver sob o domínio da derrota ou mudar de atitude procurando novamente as boas graças do presidente. Na sua personalidade e forma de estar não encaixava a imagem de um falhado. Galo da Costa passou a sua idade escolar num colégio onde imperava uma grande influência da religião católica e quando atingiu o liceu foi internado num colégio de padres. Dos mais prestigiados do Norte do País. Ali fabricavam-se verdadeiros homens. Eram testados como cobaias para poderem enfrentar no futuro as mais adversas contrariedades da vida. Uma das disciplinas era constituída pela defesa individual de cada aluno perante toda a turma e, já nessa altura Galo da Costa era tido como o mais desenvolto no uso do discurso, na sua capacidade de raciocínio rápido e retenção na memória de dados essenciais. Inteligente e astuto como um verdadeiro jesuíta, bem cedo começou a demonstrar um grande sentido de chefia. Sabia como dividir para reinar, utilizando um ar cândido e descomprometido quando algumas atitudes de má-fé lhe eram dirigidas. Atirava a pedra e sabia como esconder a mão. Mas a sua verdadeira arma era a grande capacidade de trabalho e a completa dedicação a tudo o que fazia. Chegou a pensar ordenar-se padre, e o director do colégio apostava que, se ele seguisse essa carreira, iríamos ter o segundo papa português. A sua postura, a sua forma de falar e de estar deram-lhe sempre um toque clerical. A mesma mão que abençoava os amigos, empunhava a cruz onde ele havia de crucificá-los. Cativava, fazia amizades com facilidade e sabia como as utilizar e destruir como se nunca tivesse culpa de nada. Nunca foi grande atleta, mas a sua paixão pelo desporto atirou-o para o dirigismo. Começou por baixo, mas não foi necessário muito tempo para chegar ao topo da pirâmide. Destronar Américas de Sá era agora o seu maior desafio. Começou então a rodear-se de amigos com algum prestígio no clube, procurando apoios para se candidatar. Tarefa que não era fácil. Na altura, para se ser presidente de um clube de futebol era necessário ser-se um empresário de sucesso e ter dinheiro disponível para enfrentar algumas situações, e esse não era o caso de Galo da Costa. Ele sabia-o como ninguém e procurou então apoiar-se em pessoas abastadas economicamente, não dispensando o seu grande amigo, Ilídio Pintas. Havia, no entanto, uma situação que era necessário ultrapassar. O Ilídio tinha-se encostado ao Américas de Sá, mas GC sabia que ele estaria sempre do lado de quem tivesse o poder e, com alguma facilidade, jogava sempre com um pau de dois bicos. O certo é que Ilídio tinha o dinheiro, e GC iria necessitar desse apoio. Tinha também na mão outra gente que vivia desafogadamente em termos financeiros e que por terem sido preteridos por Américas de Sá se colocaram do seu lado, mas esses eram mais inteligentes e não seria fácil arrancar-lhes o dinheiro sem lhes dar nada em troca. Não podia também colocar em risco uma nova derrota. Tinha de ir à luta pela certa, e o momento era propício porque se começava a notar um certa instabilidade no seio do clube. Tudo servia para se atacar a gerência de Américas de Sá. Faziam-se assembleias gerais agitadíssimas, com Galo da Costa a colocar algumas pessoas estrategicamente no meio dos sócios a criar a confusão. Américas de Sá passou momentos de grande desespero, porque lhe era impossível controlar a situação. Foi então que tomou consciência da existência de um jovem com alguma história no clube. Reginaldo Teles, campeão nacional de boxe e na altura treinador, foi a solução encontrada para controlar as agitadas assembleias gerais. Ex-pugilista, brigão, chulo e nutrindo uma certa paixão por negócios ilícitos, ofereceu-se para arrumar a casa e impor a ordem nas confusões programadas por Galo da Costa. Era treinador de boxe do clube e reuniu os seus rapazes para patrulharem a sala, e o certo é que com alguns murros e cabeçadas acabou por conquistar o lugar de chefe da segurança de Américas de Sá. Galo da Costa temia-o, porque não era um brigão vulgar e muito menos um marginal estúpido e incompetente. Reginaldo Teles tinha um espírito e uma personalidade muito idênticos aos de GC. Dava as ordens para descascar à fartazana e depois surgia como o apaziguador, o bom rapaz que nada tinha a ver com aquela violência. GC detestava-o, mas viu nele a solução para o futuro (...)”.



II

”(...) Reginaldo Teles era um ás a esgrimir os punhos, sabia avaliar com grande exactidão a capacidade dos seus adversários, e quando não os podia vencer trazia-os para junto de si. Um anjo, este rapaz que veio bastante jovem de uma aldeia transmontana para servir numa tasca de um tio. O estabelecimento estava aberto toda a noite, numa altura em que ainda existiam poucas discotecas. E as que funcionavam em pleno estavam viradas para o alterno e a prostituição. Mas Reginaldo Teles sabia que «putas e vinho verde» só combinam nas horas e nos locais certos. Havia que tratar da vidinha. Ajudava o seu tio pela madrugada dentro e vivia com entusiasmo as cenas de pancadaria entre azeiteiros, putas e marginais. O seu sonho era um dia vir a ser como eles. Homens valentes, com charme, e mulheres tratadas a pontapé a levarem-lhes o apuro da noite e o que até tinham roubado ao prazer. Sobre as delícias do amor, Reginaldo propagandeava dotes extraordinários, como fruto da leitura de um livrinho que comprara na Feira de Vandoma, uma obra cujo título tinha algo a ver com cama(obviamente) e que ensinava a combinar o beijo inclinado com o beijo pressionado. Essa era a matéria que Reginaldo dominava perfeitamente, como já se disse, com destaque para a arte de beijar.
Mas ainda estava longe de ser o rei na noite, sendo por norma acordado por mais um pedido da Bety ou da Lady, pois as putas por aqueles lados tinham todas nomes ingleses...- Ó miúdo, serve-me aí uma sande de fígado com molho e cebola e um copo desse verde rasca que o teu tio tem aí! Reginaldo Teles não se deixava comover. Afinal, eram putas. Tinham de ser tratadas assim. Enrugando a face, com os cantos da boca a quebrarem para baixo, fazia inchar o peito, punha-se em bicos de pés na tentativa de imitar os chulos e atirava com o prato da sande e o copo para a frente da mulher enquanto pensava: «Ainda vais trabalhar para mim». Foi então que um indivíduo com cara de rato, esquelético e de cabelo oleoso, se foi encostando à prostituta que Reginaldo servia e, com uma habilidade nata, meteu os garfos na carteira e roubou-lhe o porta-moedas. Reginaldo, que estava por detrás do balcão a retirar da montra de vidro um naco de polvo envolto em cebola, viu a cena e não perdeu a sua oportunidade de brilhar. Saiu do balcão e, com determinação, agarrou o carteirista e evitou que a Aljazira, mais conhecida por Lady, ficasse sem os poucos tostões que o seu chulo lhe deixou. Apercebendo-se de toda a cena, a Aljazira levantou a mão e deu um soco no carteirista enquanto lhe dizia: -Ah, meu filho da **** de choringa! Sem tempo para pensar, Reginaldo Teles nem sequer hesitou quando se apercebeu que o carteirista ia responder à agressão. Formando um salto, deu uma cabeçada seguida de uma esquerda no choringa e este esparramou-se no chão sem vontade de se levantar. Quando o pôde fazer, nem sequer olhou para trás, deitando a fugir pela rua abaixo. Os presentes fartaram-se de gabar Reginaldo, não só pela sua coragem como também por aquela esquerda indomável. A Aljazira esqueceu-se de que tinha sido vítima de roubo e começou a medir o miúdo de alto a baixo com um sorriso comprometedor e, olhando por cima do ombro, disse-lhe quase num sussurro: -Hoje tens direito a uma de graça! -Com direito a beijo pressionado?- quis logo saber Reginaldo. Que sim, disse ela. Reginaldo Teles não cabia em si. Puxou do pente que trazia no bolso de trás das calças, passou-o pelos cabelos e não deixou ninguém perceber que ainda era virgem. Pegou no resto do vinho que sobrou no copo da Aljazira e emborcou-o de uma golada enquanto lhe dizia: -Estou-te com uma sede! Quando fechou a tasca, lá estava a Lady à sua espera para uma madrugada de amor. Mas estava, ainda, Reginaldo com a chave metida na porta, e já o chulo da Aljazira lhe tocava no ombro. -Onde pensas que vais meu filho. O estabelecimento já fechou. Se queres desenferrujar o prego, espera para amanhã e não te esqueças de trazer trocado. Reginaldo Teles ficou fora de si. Já estava a pensar com os tomates, e aquele gajo não lhe podia vir estragar a festa. Olhou de alto a baixo o chulo. Fixou-o bem nos olhos e achou que lhe podia dar uma tareia. A sua célebre esquerda saltou como um gancho e abateu-se nos queixos do chulo. Ainda este não se tinha recomposto e já levava um meia dúzia de socos, caindo KO no passeio. Numa só noite, Reginaldo tinha abatido dois adversários. Aljazira não hesitou. Estava cheia daquele chulo, e Reginaldo seria o seu novo amante. Meteu-lhe o braço e, com firmeza, levou-o até ao seu quarto alugado, por trás da Igreja da Trindade. Por coincidência ou não, os sinos tocaram a assinalar as cinco da matina e uma gata berrou de cio. Reginaldo estava eufórico e, depois de ter descascado em dois duros da noite, não podia de forma alguma deixar perceber que aquela era a sua primeira noite de amor. As suas calças de bombazina preta começaram a ser afagadas por Aljazira enquanto ela se despia. Ao ver o seu par de mamas, Reginaldo não se aguentou mais e teve uma ejaculação. Lady sentiu as calças humedecidas. -Já te vieste? Reginaldo, sem mostrar atrapalhação por aquele percalço, ensaiou uma vez mais a pose de durão.
-Isto é só uma amostra. Vê se te preparas depressa. E em que pressinha se foi a virgindade de Reginaldo Teles. Aljazira ficou encantada com toda aquela fogosidade e, mostrando-se submissa, pediu com um certo carinho: -A partir de hoje vais ser o meu chulo? Reginaldo sorriu, enquanto puxava as calças para a cintura e apertava o cinto. -Depois da sova que dei ao teu chulo, achas que ele teria coragem de aparecer? O teu homem a partir de hoje, claro que sou eu. Mas para que essa conquista ganhasse forma, havia muitas lutas para vencer. Os pretendentes faziam fila porque o negócio estava mau e havia de aparecer um valentão a conquistar os seus direitos da mesma forma que o fez Reginaldo. Aljazira gostava do miúdo, era forte e atrevido, mas para ficar com ele tinha de pensar numa forma de o proteger. Reginaldo tinha punhos, mas faltava-lhe a experiência. De súbito, veio a solução. Ela tinha um cliente que era treinador de boxe do maior clube da cidade (do Porto) e ia-lhe apresentar Reginaldo Teles para o rapaz poder ir lá fazer uns treinos. Uma semana depois, o tal treinador de boxe disse a Aljazira que Reginaldo tinha futuro. A partir daí, quando as coisas aqueciam no «Ginginha», a tasca do seu tio, Reginaldo Teles fazia uns treinos extra, passando a ser conhecido e respeitado. Depois de fechar a tasca, aproveitava a boleia de um amigo e ia ter com a Aljazira, que atacava em Santos Pousada. Trazia o apuro e a rapariga. Os dois estavam apaixonados. O beijo pressionado passava à história. Reginaldo começou a somar êxitos no boxe e acabou por deixar o emprego na tasca do seu tio para se colocar como segurança e porteiro numa casa de alternos. Foi aí que conheceu a Lisa. Mas um dia, Aljazira descobriu tudo, entrou pela boite dentro, localizou a Lisa, que bebia uma garrafa de champanhe com um cliente enquanto este a beijava no pescoço, pegou-lhe pelos cabelos, atirou-a por cima da mesa e armou por ali uma algazarra tremenda. Reginaldo Teles tentou acalmar as coisas. Não podia perder o emprego e lá convenceu Aljazira a ir-se embora, não sem antes esta prometer que matava a Lisa se ela continuasse atrás do homem dela. Reginaldo Teles tinha-se tornado num dos chulos mais importantes da cidade e, com a ajuda da Lisa, acabou por comprar o seu próprio estabelecimento. O rapaz tinha jeito para o negócio, e a Lisa tinha uma perspicácia tremenda para escolher as melhores putas. Ambicioso, inteligente, hipócrita e já com algum poder económico, Reginaldo Teles tinha apenas mais um sonho: ser campeão nacional de boxe. Ele era bom de punhos, mas havia outros melhores. Com algum sacrifício e habilidade, conseguiu chegar à fase que lhe permitiu disputar o título. O seu adversário era poderoso e Reginaldo Teles não se podia arriscar a deixar fugir o seu sonho. Sempre inclinado para negócios marginais, colocou logo em prática um plano diabólico. Ele sabia que no boxe profissional a corrupção por parte de grupos marginais era uma prática constante e quase normalizada, e num ápice resolveu o seu problema. Contactou o seu adversário, negociou a vitória no terceiro "round" e um KO mal disfarçado deu-lhe a oportunidade de saltar no ringue elevando as luvas em sinal de vitória. Era importante para o seu negócio que os jornais noticiassem no dia seguinte que ele era o novo campeão nacional de boxe. Aquele título significava respeito e medo. Os factores mais importantes para quem quer gerir com tranquilidade uma casa de alternos e de prostituição. Este fora o seu primeiro acto no mundo da corrupção, e Reginaldo Teles ficou fascinado com o poder do dinheiro. Afinal, ele tinha feito um investimento altamente rentável. Pagou para conquistar o título, realizou o seu sonho e duplicou a facturação no seu estabelecimento. Ninguém se arriscava a criar conflitos na sua área de alternos e muito menos a deixar contas penduradas. Os punhos de um campeão eram sempre temidos.
Aproximavam-se novas eleições e Galo da Costa ia ganhando terreno. O treinador Austríaco (Hermann Stessl) que fora convidado para tomar conta do seu clube sob a gerência de Américas de Sá não estava a dar conta do recado. Os sócios habituaram-se aos títulos e queriam mais, mas a bola teimava em não entrar na baliza. Enquanto isso, GC esfregava as mãos e preparava a sua candidatura. Os apoios eram cada vez mais fortes, e uma nova estratégia foi colocada em movimento. Ele tinha de apostar forte na vitória eleitoral e, aproveitando os maus resultados da equipa, organizou por todas as freguesias da cidade sessões de esclarecimento com uma programação meticulosa. Iniciava-se, assim, a «Operação Ácido Sulfúrico», cuja alternativa, em caso de falhanço, tinha o nome de código de «Operação Cicuta». Na organização dos seus comícios, GC deu sempre preferência aos bairros pobres e à parte velha da cidade. Era aí que estava o povo e a força do clube. GC organizou o seu staff comandando um grupo de associados aos quais impôs serem eles a obrigarem-no a partir para uma candidatura. Desenvolveu-se então o célebre grupo dos 500, do qual saíram elementos devidamente comandados que se distribuíam pelos cantos das salas onde eram organizadas as tais sessões de esclarecimento. A missão deles era empolgar as sessões e fazer perguntas previamente combinadas com Galo da Costa. Numa dessas noites, na Associação Recreativa de Miragaia, foi assim: -Presidente, qual é o principal inimigo do clube? -Antes de mais, repito, ainda não presidente...Gargalhada geral, e GC tomou as rédeas à sala, não evitando porém a queda de estuque sobre o novo casaco, -O principal inimigo está dentro do clube, o servilismo a Lisboa. Estamos fartos de ser espoliados. Chegou a hora de dizer «basta». Com uma cajadada, GC matava dois coelhos. Para além do mais, o discurso saía-lhe cada vez mais com mais facilidade e tudo era acompanhado, comentado e analisado pela imprensa desportiva e jornais diários. A cidade e Américas de Sá viviam sob o fogo cerrado de Galo da Costa. O presidente já não podia sair à rua sozinho, e as assembleias gerais eram cada vez mais escaldantes, levando mesmo o doutor Américas de Sá ao desespero e a chorar em público. Foi nessa altura que Reginaldo Teles teve o seu papel mais importante. Organizou um grupo de guarda-costas recrutados nos quadros da secção deboxe do clube que, com alguns rufias nocturnos à mistura, organizou alguns ataques a jornalistas que de uma forma ou outra denunciavam a protecção a Galo da Costa. Evidenciando alguma inteligência e revelando o seu carácter de hipócrita, Reginaldo Teles verificou que a derrota de Américas de Sá era mais que evidente, e assim se foi distanciando da protecção que prometera ao seu presidente. Algumas figuras notáveis da cidade aliaram-se a Galo da Costa e, no momento das eleições, a derrota foi fatal para Américas de Sá (...)”.
Continua...



III

”(...) Galo da Costa tinha conseguido realizar o seu sonho, levando como trunfo o seu grande amigo e companheiro de luta Pidroto, o técnico que tinha conseguido o título para o seu clube. Firmando Gomes, o ponta de lança mais cobiçado, tinha sido emprestado a um clube espanhol e serviu de bandeira para ajudar à vitória. Também ele regressou. Mas Antónimo Oliveira, o ex-capitão que nunca se deixou dominar pelos desígnios de Américas de Sá, recusando-se terminantemente a regressar ao clube, passou por momentos bem difíceis.
Não de ordem económica, mas psicológica. Tinham-lhe sido vedadas todas as entradas numa equipa que estivesse ao seu nível. Foi marginalizado e refugiou-se num grupo de amigos, não recebendo a ajuda de ninguém, mesmo de Galo da Costa, pelo qual deu a cara. Antónimo Oliveira era uma vedeta do nosso futebol, uma estrela, um génio, e não podia ser esquecido. Foram meses de desespero. Foi sair da ribalta para o anonimato, mas nada vergou a personalidade deste jogador. Ficou sozinho, mas manteve a classe que sempre foi a sua imagem de marca. Sem clube e sem a mínima vontade de treinar, refugiou-se no ambiente nocturno tão ao seu gosto. Copos e mulheres eram a alma que mantinha de pé a forte estrutura psíquica do «Caddilaque» - apelido que carinhosamente lhe fora colocado pelos amigos mais chegados. Eram bacanais atrás de bacanais devidamente organizados no seu apartamento. Por aquele espaço passaram os melhores ballets de inglesas que actuavam nos casinos nortenhos, as melhores «strip-teasers», as habituais frequentadoras das discotecas e também «travestis» que satisfaziam as delícias de algumas convidadas lésbicas e bissexuais. Sexo em grupo era o prato forte. Após alguns meses de paragem, Antónimo Oliveira resolveu voltar à actividade, mas antes, na companhia de alguns amigos foi passar uns dias a Bordéus, onde esteve a ajudar na vindima. E só no seu regresso, com um visual totalmente novo, de cabelo encaracolado e sem bigode, aceitou um convite do clube da sua terra natal (Penafiel). Tinha uma equipa modesta, mas como era treinador-jogador, abria uma actividade totalmente nova no nosso futebol, revolucionando o sistema e isso teria sempre um enorme impacto mediático. Era a demonstração cabal de que Antónimo era, de facto um homem inteligente, que sabia estar e conhecia o terreno que pisava. A sua estrela voltava a brilhar e de tal forma que logo foi cobiçado por um grande clube da capital. Antónimo não sabia viver sem a companhia do seu irmão, o Joaquinas Oliveira. Foram sempre muito chegados. O Joaquinas Oliveira tinha uma discoteca de alternos e rivalizava com Reginaldo Teles. O seu mundo eram as putas, tal como Reginaldo, de quem diferia muito em termos de personalidade e carácter. Reignaldo era um valentão. Joaquinas Oliveira era pacífico e não era chulo, muito pelo contrário: chamavam-lhe«andor» porque gostava de se rodear de putas e pagar tudo. Todas as noites promovia ceias com dançarinas e também com algumas miúdas ligadas aos alternos. Levava sempre consigo amigos para se querer impor e provar que também era alguém. O negócio não dava para tudo, e vieram as dificuldades. As dívidas aumentaram e, com a ida do seu irmão para um clube da capital (Sporting) tudo piorava. Vieram as penhoras. E logo que Antónimo Oliveira se impôs no seu novo clube, tratou de arranjarum negócio para o seu irmão, uma queijaria nas imediações do estádio, onde era normal alguns jornalistas abastecerem-se sem pagar ou apenas por um preço simbólico (mantinha-se assim a tradição de «pato»). O irmão, pelo seu lado tinha-se assumido novamente como jogador-treinador e, com a ajuda do seu novo presidente, resolveu abrir uma agência de contratações de jogadores. A sua missão era contratar jogadores não só para o clube do seu primo, mas também para os outros. Foi criada a Olivedesportivos. Mas Joaquinas Oliveira não estava talhado para esta missão cuja actividade em Portugal ainda era muito pouco reconhecida. A fuga acabou por surgir através de um sistema de publicidade montado nos estádios, explorando os painéis. Antónimo e o seu irmão Joaquinas continuavam de boas relações com Galo da Costa, mas este, quando foi eleito presidente, resolveu encetar uma pequena guerra com Jonas Rocha, ex-emigrante nos Estados Unidos e presidente do clube onde Antónimo estava a jogar e a treinar (Sporting). As relações entre ambos esfriaram até à altura em que Galo da Costa resolveu tentar trazer novamente o Antónimo para o seu clube, mas o jogador manteve sempre um comportamento de grande responsabilidade. Para além de alguns defeitos, tinha uma grande virtude: nunca esquecia os seus amigos. Jonas Rocha fora o homem que lhe dera uma nova oportunidade para voltar ao top do futebol português, que o ajudou a montar a agência de publicidade para o seu irmão num momento difícil para ambos, e Antónimo não podia de forma alguma esquecer tudo isso. Recusou o convite, mas Galo da Costa não perdoou.
A guerra estabeleceu-se entre ambos até ao ódio e continuou até muito depois de Antónimo ter abandonado o clube da capital e optado pela actividade de treinador. Antónimo e o seu irmão nem queriam ouvir falar em Galo da Costa. «Dá comichão só de pensar nele», dizia um deles, o mais novo, mas claramente o mais esperto. A guerra entre os dois clubes e os respectivos presidentes foi aumentando. Galo da Costa tinha feito com que o seu clube voltasse às vitórias e aos títulos e, como sempre foi amante de uma guerrinha, mantinha a sua bem acesa com Jonas Rocha. A estratégia era de Pidroto: -No Norte só há um clube com força e na capital há dois, por isso só há uma forma de os poder dividir e lutarmos contra eles. Temos de estar sempre bem com um e abrir guerra ao outro. Galo da Costa absorveu a filosofia do «mestre» e acrescentou: - Tens toda a razão e até podemos alternar essa guerra, abrindo fogo sempre sobre o clube que estiver em melhores condições para poder lutar pelo título. Frustrada a tentativa de levar para o seu clube o Antónimo e em resposta a Jonas Rocha por este ter ripostado com a contratação de dois jogadores da sua equipa, Galo da Costa numa acção relâmpago contratou um miúdo que na altura estava a dar nas vistas no clube do seu inimigo Jonas Rocha. Nessa altura, estava longe de imaginar que seria aquele jogador que iria dar início ao seu grande golpe de estádio. O miúdo morava no Montijo e era anunciado como um craque de eleição. Mas o clube de Jonas Rocha abriu a guarda e, numa noite de lua cheia, um funcionário do clube rival do Norte acelerou no seu Renault até ao Montijo, não se esqueceu de comprar no caminho um pão-de-ló em Rio Maior para oferecer à família do rapaz e trouxe-o para a «Invicta», onde o craque se manteve como que sequestrado durante alguns dias. «É o Eusébio branco», dizia-se, se calhar com alguma legitimidade. O craque era conhecido pelo nome de guerra de Frutras. Entretanto, Reginaldo Teles, depois de ter abandonado Américas de Sá, mesmo antes de este ter perdido as eleições, insinuou-se perante GC e, como este ainda não se tinha esquecido da dimensão das dificuldades que lhe foram criadas pelo rapazinho que era treinador de boxe do seu clube, achou por bem abrir-lhe a porta e oferecer-lhe o lugar de chefe da segurança. Reginaldo Teles, consta, mandou abrir duas garrafas de champanhe «Moelas & Cabron», marca que o Fucinha, um dos seus empregados, não conseguiu encontrar no mercado, mas no fim ninguém reparava que era apenas «Raposeira» o néctar que estrondeava. Pidroto nunca esteve muito de acordo com essa acção. Era um indivíduo seguro, competente e com grande personalidade e não gostava muito, nem sequer apoiava, acções de violência ou de alguma forma marginais. Lutava por aquilo em que acreditava e tecia estratégias para a sua luta, contestando, vociferando e acusando de uma forma directa. Tornou-se polémico, irreverente e estabeleceu uma acção de combate virada essencialmente para a arbitragem, cujo controlo partia da capital. Por isso, contratou para a sua equipa um ex-jornalista (Luís Cessar) com a mania das estatísticas, e a sua primeira missão foi a de elaborar um ficheiro de todos os árbitros da 1ª categoria, contendo o maior número de informações. Nome, morada, actividade extra, número de filhos e datas de nascimento de toda a gente do agregado familiar. Como era contra a violência, e Galo da Costa não se cansava de gabar os dotes de Reginaldo Teles, Pidroto pediu ao presidente para lhe entregar a missão de ir a casa dos árbitros no dia do aniversário destes ou de um dos seus familiares para entregar uma pequena lembrança, independentemente do facto de esse árbitro ter ou não ter apitado qualquer jogo do clube. Era o início de uma operação de charme que resultaria em pleno (...)”.





IV



“(...) - «Reginaldo, hoje tens de ir a Setúbal entregar uma prenda para o filho do árbitro Carlos Fordes, que faz anos» - pediu, certo dia, GC.
Reginaldo Teles, sempre pronto para estas acções, lá rumou até Setúbal com um fio deouro e uma medalha gravada com o nome do filho do árbitro. Mas, quando lá chegou, não encontrou ninguém em casa. Uma vizinha, que estava na varanda a estender roupa, disse-lhe que tinham ido todos a casa da sogra festejar os anos do miúdo. Reginaldo não perdeu tempo: -Sabe dizer-me onde mora a sogra? -Mora em Lisboa – respondeu a vizinha, dando de imediato a respectiva morada. Reginaldo atravessou a Ponte e uma hora depois lá estava na casa da sogra de Carlos Fordes para entregar a respectiva prenda ao filho do árbitro. Cenas como esta sucederam-se, e todos aceitavam com agrado tamanha amabilidade. Era um gesto bonito e que ninguém podia condenar. Não estava em causa qualquer jogo ou favor, mas uma amabilidade que não era muito normal no futebol. Galo da Costa e Pidroto tinham escolhido a pessoa ideal para executar tal missão. Reginaldo Teles era bem sucedido quando espelhava a face da inocência, do desinteresse, do bom amigo. Foram dezenas e dezenas de missões como esta que deram entrada a Reginaldo Teles na intimidade dos árbitros. Depois de um gesto daqueles, era normal que convidassem Reginaldo para um brinde ou mesmo para ficar um pouco na festa familiar. Nasceram amizades e compadrios. Convites para encontros mais para o Norte e de preferência no seu bar de alternos, com mulheres e copos disponíveis. Lisa tinha tomado conta do negócio, e a sua experiência de mulher da vida muito batida ajudava a controlar e a organizar umas cenas de sexo com as miúdas escolhidas pelos árbitros que visitavam Reginaldo no seu estabelecimento. Pidroto desconfiava da situação e andava assustado com o negócio, mas a doença tomou conta dele e perdeu força, muito embora comandasse todas as operações e estabelecesse estratégias a partir do seu leito, com a cumplicidade do seu fiel adjunto Antónimo Morais. Galo da Costa não gostava da política que estava a ser adoptada e, picado por Reginaldo Teles, com quem tinha relações já muito estreitas, começou a trair o seu grande amigo Pidroto. Reginaldo sabia que o técnico não gostava muito do seu estilo nem apoiava algumas das suas acções. Queria dar dignidade ao clube, e um chulo não seria a personagem ideal para representar em diversas acções a grandiosidade do projecto que ele queria atingir. Reginaldo Teles sabia insinuar-se perante as pessoas. Começou a convidar o presidente para uns copos no seu território. GC nunca se tinha visto rodeado de tantas mulheres. Tinha uma educação de seminarista e nunca lhe passara pela cabeça trair a sua mulher, mas um dia não resistiu às investidas de uma das funcionárias do seu grande amigo Reginaldo Teles. A mulher tinha sido bem escolhida por Lisa e educada por Reginaldo. GC sentiu-se no céu, quando desceu ao leito do amor. Nunca tinha vivido experiência como aquela. Deu consigo a pensar: -Como é que foi possível andar 40 anos sem conhecer uma experiência como esta? Reginaldo tinha ganho a sua primeira batalha. O presidente ficou agarrado a ele através do amor de terceiras (e de quartas, quintas, sextas... não sendo também incomum aos sábados...). Vieram outras experiências, outras mulheres e Galo da Costa andava eufórico. Depois de Pidroto ter morrido, Reginaldo Teles passou a ser o expoente máximo de Galo da Costa, e os outros vice-presidentes do clube não andavam nada contentes com a situação. Um dos grandes amigos de GC chegou mesmo a comentar: -O GC tem uma cabeça extraordinária. O seu mal foi ter começado a ir ao pito aos 40 anos. Isto dito assim nem parece nada, mas a verdade é que a vida nocturna transformou por completo Galo da Costa, que pensou, por momentos, ter alcançado o paraíso na Terra. Reginaldo Teles tinha uma influência extraordinária sobre GC, levando-o mesmo a dizer que só confiava em Reginaldo e no seu gato. Lisa geria o «Play-Girl», o novo bar de Reginaldo, com uma eficiência extraordinária, mas não passava de uma ex-****, ou mais propriamente de uma **** reformada, mas ainda com boa pinta. A amizade entre ela e GC tinha aumentado graças aos excelentes encontros que ela lhe ia conseguindo com as suas melhores raparigas.
A ligação de Reginaldo Teles ao futebol proporcionava-lhe bons negócios e passos gigantescos na sua ascensão na direcção do clube. A acção de charme com os árbitros evoluía cada vez mais. Os dirigentes que não aceitavam Reginaldo iam sendo afastados. Mesmo aqueles que já tinham uma amizade de longos anos com Galo da Costa. O sexo tinha tomado conta da mente do homem e não havia nada nem ninguém capaz de o fazer parar e encarar a situação de uma forma mais digna. A assiduidade de Galo da Costa era quase diária e não havia forma de alterar os hábitos adquiridos. As mulheres desfilavam pela sua mesa e ele só tinha de escolher qual queria comer e a forma como o queria fazer. Era norma ser o patrão o primeiro a experimentar as novas empregadas, mas essa função no «Play-Girl» passou a pertencer a GC. Era a porta aberta para o êxito e a ascensão de Reginaldo Teles.

O clube de Galo da Costa tinha atingido o auge tanto em termos nacionais como europeus. Era o apogeu, o delírio e o júbilo de um povo que nunca se tinha visto em tamanha aventura. GC fez esquecer o seu velho e grande amigo Pidroto, evitando qualquer comentário que pudesse recordar o velho mestre. A glória tinha de ser só sua e de mais ninguém. A cidade caiu-lhe aos pés, e foi a partir dessa altura que GC tomou consciência do poder que tinha e que Reginaldo Teles começou a alimentar a sua grande esperança de um dia vir a ser alguém no seu clube. Reginaldo tinha Galo da Costa quase na mão, através dos assíduos encontros deste último com as suas miúdas. As amantes sucediam-se e até entravam em lista de espera. GC sentia-se um Don Juan e conhecia uma vida totalmente diferente daquela a que sempre estivera habituado. O poder alimentou ainda mais a sua ambição e começaram aí as traições aos seus melhores amigos. Umas como pura defesa pessoal, outras para abrir caminho para os que iam chegando e prometiam uma maior subserviência, o que lhe dava a garantia de poder governar sozinho e principalmente sem ter de dar muitas explicações. Os títulos traziam muito dinheiro para os cofres do clube e Galo da Costa já tinha esquecido os momentos em que era apenas um vendedor de fogões, muito embora continuasse ligado à mesma firma, onde mantinha uma posição superior. Os milhares com que tinha de lidar começaram a toldar-lhe a mente e a aumentar a sua ambição. O seu clube era um grande chamariz para os grandes negócios e não faltaram oportunistas para tirar partido disso. Foi nessa altura que surgiu um empresário italiano muito ligado à venda de jogadores, mas com negócios ilícitos à mistura. Luigiano D´Onofrio já tinha jogado futebol em Portugal, e acabou por criar raízes no nosso país, mais propriamente a sul, aproveitando uma grande parte do seu tempo para entrar nas redes ligadas ao tráfico de droga... e era mesmo vital aquele ponto geográfico para o negócio!

Luigiano D´Onofrio, um indivíduo baixo, magro e com cara de rato, de nariz afilado mais parecendo um bico, apareceu pela mão de Reginaldo Teles e recebeu a bênção de GC. Luigiano D´Onofrio era um empresário sem escrúpulos e com alguns mandatos de captura em diversos países europeus, precisamente por tráfico de droga, mas foi acolhido como uma pessoa de grande interesse para o clube. Galo da Costa foi quem mais lucrou com a sua vinda. Os jogadores do seu clube inflacionaram-se no mercado europeu, e Luigiano D´Onofrio viu ali um grande negócio para si e para GC. Em todos os jogadores que fossem negociados para o clube ou que saíssem dele, o presidente teria sempre a sua percentagem, desde que mais ninguém interferisse no negócio. Após o recebimento das primeiras comissões Galo da Costa via-se rodeado por dois elementos ligados ao mundo do crime. Não era segredo para ninguém que Luigiano D´Onofrio tinha ligações com a Mafia italiana e que Reginaldo mais alguns familiares viveram sempre de habilidades e negócios marginais, negócios centralizados na prostituição e na receptação de objectos roubados. «Pena é que estes ramos não estejam inscritos nos fundos comunitários», costumava dizer Reginaldo, que um dia ficou deliciado quando em Amesterdão viu umas garinas expostas em montras. Por um só momento, Reginaldo viu a rua de Santa Catarina transformada um gigantesco bordel, imaginando situações do tipo «leve três e pague duas» ou «pague o seu bacanal em dez suaves prestações». Mas era sonhar muito alto.
Foi este tipo de gente que fez engolir em seco muitas pessoas honestas e com dignidade que estavam ligadas ao clube. Alguns protestaram, defenderam a ideia de que o clube tinha de ser gerido com mais transparência e acabaram por ser afastados. Como aconteceu com Adalberto Magalhães, reputadíssimo empresário. GC, cada vez mais lá no alto, qual Deus do Olimpo, qual César à frente das legiões, não dava tréguas: -Aqui quem manda sou eu, e quem não estiver bem que se afaste! O clube vivia momentos conturbados em termos directivos, mas os resultados desportivos eram óptimos. Consequentemente, Reginaldo Teles ia subindo na hierarquia do clube. Já tinha subido de chefe de segurança a chefe de departamento de futebol, uma ascensão que deixou muita gente de boca aberta, mas que foi aceite sem grande contestação, pois nessa altura já Reginaldo tinha todo o seu staff de segurança organizado. Reuniu alguns dos maiores rufias da cidade, alguns dos seus conhecidos dos negócios marginais e de prostituição, e impôs um cordão de silêncio tanto a jornalistas como a dirigentes. Quem contestasse ou denunciasse algo que não convinha, recebia a visita de um desses marginais e ficava sem vontade de dizer mais nada, subordinando-se ao silêncio e à aceitação dos factos. Nem os sócios conseguiam fugir a esta perseguição (...)".
Continua...



V



”(...) Mas quando as derrotas surgem ou os resultados demoram a aparecer e as exibições não são as melhores, há sempre associados que contestam. No final de um jogo em que o clube tinha perdido, um associado, passando ao lado dos balneários, não se coibiu de lançar alguns insultos ao presidente e seus pares. -Filhos da ****, chulos, vão trabalhar! Galo da Costa, que estava de sobretudo e mãos nos bolsos, tendo a seu lado Reginaldo Teles e mais dois dirigentes de menor importância, todos rodeados por quatro capangas, deu de imediato uma ordem em surdina: -Fodam-me esse gajo! Os quatro capangas deram meia volta, seguiram o indivíduo até às imediações do estádio e deram-lhe uma sova, perante o olhar incrédulo das outras pessoas que não sabiam muito bem o que se estava a passar. Era a lei da força e do silêncio. O esquema estava montado, e dirigente que ousasse abandonar o clube e falar do que ouviu ou viu, sabia bem o que lhe poderia acontecer. O grupo de seguranças foi-se refinando alicerçado pela parcialidade e impunidade com que os próprios jagunços era tratados e alongou-se até alguns agentes de autoridade que não se importavam de ostentar as suas armas como forma de intimidação. Foi sobre esta onda de poder e segurança que Galo da Costa construiu o seu império e imperializou a sua própria imagem. Ele sentia-se um Al Capone à portuguesa, com a vantagem de não poder ser apanhado pelo fisco, pois não tinha rendimentos legais que justificassem qualquer tributação. Tinha, isso sim, o poder nas mãos e ficou ainda mais seguro disso a partir do dia em que se aliou a um bruxo muito conceituado em terras brasileiras que dava pelo nome de Pai Jójó (Delainei Vieira), um bruxo que não se limitava aos orixás, fornecendo também a equipa de futebol com frasquinhos de vidro que continham um guaraná em pó muito especial, esmagado por uma tribo de índios do interior do Brasil. O «speed», normalmente recomendado para os gulosos do sexo, ajudava os craques e, aliado à normal injecção de «vitaminas», tornava-os super-homens dentro do campo. E era certo que a aparelhagem do anti-doping estava completamente desajustada para detectar o que quer que fosse. Mas até este sector, a seu tempo, foi devidamente controlado. Entretanto, Reginaldo Teles não cessava a sua actividade, continuando a arranjar as melhores amantes para Galo da Costa e a dar-lhe toda a protecção. Rodeado de poder, mas ainda sem dinheiro, o presidente, como lhe chamava Reginaldo, tinha algumas limitações, mas nunca esqueceu o velho amigo Ilídio Pintas, a quem continuava a extorquir o dinheiro que queria para efectuar alguns negócios, sempre com a promessa de que um dia este viria a ser vice do futebol profissional. -É uma questão de tempo. Você tem de ter paciência. Necessito de si em lugares mais importantes para a vida do clube. Um dia o futebol será seu. Com estas palavras de Galo da Costa, o Ilídio Pintas lá ia passando uns cheques e cobrindo algumas despesas, porque fortuna pessoal foi coisa que nunca se conheceu ao presidente. O grande negócio acabaria por surgir. Um clube espanhol (Atlético de Madrid) interessou-se pela aquisição de Frutas, e o seu presidente resolveu vir a Portugal contactar o jogador, sem antes consultar o clube de Galo da Costa. Mas a organização, constituída por mais de uma dezena de guarda-costas, estava sempre bem informada de tudo quanto se passava na cidade e essencialmente dos assuntos que diziam respeito ao clube. Por isso, quando chegou a boa nova de que o presidente do clube espanhol estava em Portugal para falar com Frutas, foi de imediato colocado um plano de ataque em marcha, cujo nome de código era «Caça à Peseta». Apesar de Gilas y Gilas estar, no seu país, bem à altura de Galo da Costa, quando veio a Portugal estava muito longe de saber o que lhe ia acontecer. Chegou ao Porto e combinou encontro com um empresário, para avaliar a possibilidade de levar Frutas para Espanha. O bar era pequeno e decorado de uma forma simples. No fundo da sala, um pouco na penumbra, estava sentado Gilas y Gilas à espera do tal empresário quando irromperam pela sala dentro quatro indivíduos que, sem darem cavaco a ninguém, o rodearam e apertaram contra a parede, lançando o aviso: -Se voltas aqui sem primeiro falares com o presidente do nosso clube, podes ter a certeza que não sais daqui vivo. Na próxima, não há aviso! - rugiu Reginaldo, decalcando o final da sua declaração de um filme que tinha visto em Pinheiro da Cruz. Estas palavras foram ditas com tanta certeza e segurança que Gilas y Gilas quase se mijou pelas pernas abaixo. Fora a sua primeira lição como futuro presidente de um dos maiores clubes espanhóis. «Coño, em Portugal não se brinca», suspirou, ainda com as pernas a tremer como varinhas verdes. Gilas y Gilas não disse palavra, limitando-se a sair do bar e a enfiar-se na sua viatura, acelerando, sem olhar para trás, até Espanha. Gilas até se esqueceu de comprar um queijo da serra em Vilar Formoso, como prometera a Carmena, a sua amante de Madrid/Sul. Já no seu território, contactou directamente com Galo da Costa, e este, sem muitas palavras, indicou-lhe um interlocutor: Luigiano D´Onofrio. -O seu braço direito? - quis saber Gilas. -Mais ou menos, pois será ele a conduzir o assunto – informou GC. Gilas y Gilas ficou tão impressionado com a acção de Galo da Costa que resolveu oferecer um extra ao seu congénere português: uma vivenda em Madrid. -Sim senhor, mas numa zona fina, se faz favor – aceitou GC de pronto. Luigiano D´Onofrio entretanto colocou outro jogador (Rui Barrote) de GC num clube italiano (Juventus) e a soma da venda de Frutas e desse jogador vendido para Itália foi de 1 milhão e 200 mil contos, uma verba que GC nunca teria imaginado poder passar pelas suas mãos. De imediato, GC juntou todo aquele dinheiro e abriu uma conta particular, prometendo aos seus parceiros de direcção que aquela verba iria servir exclusivamente para a compra de jogadores para o clube. Todos acreditaram, mas esse dinheiro desapareceu como o fumo. Para amostra não ficou nem sequer um mísero escudo. As ligações de Galo da Costa com situações marginais começaram a ser comentadas, e isso criou um certo descontentamento entre alguns directores, nomeadamente no patrão da sua empresa, Alfresco Costa, e presidente do Conselho Fiscal do clube. Ninguém como Alfresco Costa conhecia a vida de Galo da Costa e, por isso, sabia muito bem que este andava a viver além das suas reais possibilidades, entrando em outros negócios e noutras sociedades, sem se lhe conhecer a proveniência do dinheiro. Desconfiado desta situação, como presidente do Conselho Fiscal do Clube, Alfresco Costa um dia interpelou Galo da Costa sobre o milhão e duzentos mil contos da venda dos dois jogadores, mas como resposta obteve apenas: -Não tenho de dar contas a ninguém. Alfresco Costa estava de pé frente à secretária de Galo da Costa e quase não acreditou no que estava a ouvir. Aquela era a confirmação de que o dinheiro tinha mesmo desaparecido e não pactuou mais com a situação, demitindo-se do seu lugar de presidente do Conselho Fiscal do clube, ao mesmo tempo que intimava Galo da Costa a abandonar a sua empresa. Alfresco Costa não teve contemplações: -Recuso-me a trabalhar com gente desonesta. Na minha empresa não posso ter indivíduos do seu quilate. Galo da Costa estava na mó de cima e não ficou muito preocupado com a situação. Uma grande parte daquele milhão tinha sido investida em várias empresas com ligações a familiares seus, mas sem o mínimo de capacidade de gestão, e todas acabaram por falir. O dinheiro fácil nunca é bem gerido, e o clube já estava a pagar as aventuras do seu presidente. Mas os fiéis associados pouco se importavam com essas contas. Eles não queriam saber de gestão, mas de golos, e esses não faltavam. Galo da Costa e Reginaldo Teles também sabiam disso e tinham de se organizar no sentido de garantir que esses golos e essas vitórias nunca haveriam de faltar. Para deixar a empresa onde trabalhava, Galo da Costa ainda teve que pagar sete mil contos e ficou sem carro por uns tempos. O milhão e tal de contos tinha desaparecido sem deixar rasto e tinha deixado de rastos GC, a contas com a justiça, por cheques sem cobertura e penhoras a bens pessoais. Foi um momento difícil, mas que não abateu o presidente, levando-o antes a pensar que o seu negócio era o futebol. Era nessa área que se movia como peixe na água, e a modalidade não estava a ser devidamente explorada. Todos os movimentos foram reprogramados, de forma a que o clube tivesse uma gestão capaz de alimentar o seu presidente. Reginaldo Teles acabou por subir na escala do poder no clube. O vice para o futebol foi afastado, e Reginaldo chegou-se mais ao presidente, ocupando o lugar deixado vago. A vaidade pessoal de Reginaldo levou-o a abrir mais uma casa de alternos, desta vez mais chique e refinada. As putas eram de melhor qualidade e o champanhe também. Galo da Costa não perdia um strip-tease, e quando lhe agradava, saboreava ao vivo a estrela do espectáculo. GC sentia-se cada vez mais um Al Capone à portuguesa. Sempre rodeado de guarda-costas, assumia a pose do gangster e já tratava as raparigas da forma que um dia vira num filme americano, nos seus tempos de liceu. Tinham surgido alguns escândalos e alimentava-se a desconfiança em relação à forma como os dinheiros estavam a ser geridos e distribuídos, mas aos poucos a organização refinou-se, de forma a não deixar rastos. Luigiano D´Onofrio era um gangsterzinho e foi-se apercebendo da forma pouco cuidada e pouco profissional como os assuntos eram tratados e em alguns negócios governou-se com mais dinheiro do que aquele que ficara combinado, e para anular essas fugas, Galo da Costa resolveu montar uma sociedade secreta na Suíça para que existisse um maior secretismo. Luigiano D´Onofrio era uma figura envolta em algum mistério. Tanto aparecia como, quase por artes mágicas, desaparecia, o que acontecia normalmente quando se adivinhavam maus momentos. Estas artes de prestidigitador livraram-no de muitos sarilhos, embora alguns anos mais tarde Luigiano não tivesse conseguido evitar alguns dias de detenção num calabouço suíço, por suposta ligação a um caso futebolístico que abalou o futebol francês (Olympique Marselha). GC confiava cegamente no seu amigo Luigiano. -Luigiano, vamos legalizar a nossa situação montando uma empresa de compra e venda de jogadores. No meu clube só você vende e compra todos os atletas, mas podemos estender o nosso negócio até outros clubes desde que se mantenha segredo absoluto. -Está bem , presidente, você é que manda. Um dia ainda há-se ser como o Berlusconicz. Galo da Costa não perdeu tempo. -Vamos já formar essa sociedade, porque tenho um negócio para ser feito já. Na semana seguinte já estavam os dois na Suíça para legalizarem a empresa de compra e venda de jogadores (...)”.
Continua...



VI

”(...) O seu primeiro negócio foi com um clube francês (Matra Racing de Paris) cujo Treinador (Artosco Jorge) já tinha passado pelo clube de GC. -Temos de realizar dinheiro, porque as coisas não estão muito boas. As empresas que tenho montado têm dado uma grande barraca e levam-me o dinheiro todo. Temos o Jorge Palácido para vender a um clube francês. Luigiano D´Onofrio arregalou os olhos e disse com espanto: -Mas, presidente, esse jogador não tem cotação europeia. -Não se preocupe com isso, porque quem lá está vai querê-lo. D´Onofrio, ainda sem acreditar no que ouvia, apesar de toda a sua experiência no mundo das vigarices, perguntou: -Como vai ser feito o negócio? -O nosso clube vende o Palácido à nossa empresa por 60 mil contos e nós vendemo-lo ao clube francês por 160 mil contos. -Desses negócios é que eu gosto. Ganhamos mais que o clube. -Tenho que dar uma volta à minha vida e começar a ganhar dinheiro, porque o que já perdi não foi pouco. No futebol é que está o nosso grande negócio. Luigiano D´Onofrio arregalou os olhos e pensou de imediato em ir um pouco mais adiante, mas resolveu não falar disso com o presidente. Preferia colocar o problema a Reginaldo Teles, que era um elemento mais acessível para as situações de ilegalidade.Logo que pôde, encontrou-se com Reginaldo Teles e convenceu-o a falar com o presidente. -Reginaldo, temos um negócio que dá dinheiro que se farta, mas tens de ser tu a falar disso ao presidente. Reginaldo olhou-o pensativo, mas lá acabou por se decidir. -Não venhas com tangas p´ra mim. Diz lá que o que queres que proponha ao presidente. -Tenho feito aí uns negócios com cocaína e nem imaginas o lucro que isso dá. -Estás maluco. Pensas que o presidente vai numa coisa dessas? -As coisas estão más e é necessário realizar dinheiro. Com a protecção que o futebol dá, podemos trabalhar à vontade. Reginaldo Teles convenceu-se de que, de facto, havia alguma razão nas palavras de Luigiano D´Onofrio e comprometeu-se a falar com o presidente sobre o assunto. Galo da Costa ouviu atentamente Reginaldo e mandou-o avançar com a ideia, mas ele queria ficar de fora. -Resolvam lá isso vocês os dois, mas deixem-me de fora para poder controlar melhora situação. Reginaldo Teles não era burro e ficou desconfiado. Naquele momento não disse nada mas, passados dias, voltou a falar do assunto. -O melhor é ficarmos os dois de fora, e eu arranjo alguém para tratar do assunto directamente com o Luigiano D´Onofrio. De início, o negócio correu bastante bem, mas passados alguns meses, a polícia começou a ameaçar com algumas buscas, tendo inclusive ido esperar o autocarro do clube à portagem dos Carvalhos para o revistar de alto a baixo. Mas nunca encontrou nada, porque a rede estava bem montada e não faltavam informadores. No entanto, Galo da Costa sentiu o perigo que essa situação podia estar a criar e, como tinha consciência de que inimigos era coisa que não lhe faltava, depois das primeiras prisões de pessoas ligadas ao grupo que actuava em paralelo com D´Onofrio, deu ordem para se terminar com o negócio da cocaína que começava a ser vendida um pouco descaradamente aos próprios jogadores de futebol do FC Porto. Galo da Costa não perdia tempo. Não dormia só para pensar. A «coca» garantia muitas horas de espertina, no fim de contas.

Na Ribeira do Porto, dois homens estão frente a frente, tendo como intermediário um copo quase a transbordar de vodka. Um deles foi o craque do clube da cidade (Firmando Gomes). O outro é um jornalista desportivo. Ambos recordam os bons velhos tempos, quando Galo da Costa era apenas um elemento de uma equipa que então ganhava sem precisar de recorrer a meios ilícitos e sem possibilitar o ganho de milhares de contos a marginais e arrivistas. O jogador começou a conversa: -Este mundo é mesmo ingrato. -A quem o dizes - suspirou o jornalista. - Parece que estão todos contra mim. Até o teu colega Travares Telles me vigarizou em mil contos. Disse que ia escrever o livro da minha vida, pediu o adiantamento e o livro foi um ar que se lhe deu... -Que é que se há-de fazer? Este mundo do futebol é mesmo assim. Também não te despediram do clube sob o argumento de que tinhas faltado ao jantar? -Essa é que foi... Deus do céu, só de pensar o quanto eu gosto daquele clube! Mas esse moço de recados, o Octrácio, vai ter um bonito funeral. -Não acredites nisso - retorquiu o jornalista, baixando o tom, pois acabara de entrar no bar um elemento que não conseguiu identificar - o tipo sabe enganá-los com falinhas mansas. Sabes que com todo o dinheiro que tem ainda está a dever mil paus ao director do meu jornal, uma coisa dos tempos de Coimbra? -Vou sair do futebol - anunciou o craque, após uma longa pausa - Este mundo não vale a pena: só os vigaristas, os bruxos e os indigentes é que têm futuro. E não vale a pena metê-los todos num convento, um a um, pois rapidamente iriam acabar por convencer os próprios santos. Bah!, que se lixem esses gajos... -Tem fé, amigo, pois vão acabar por cair de podres. Mas Firmando Gomes, o craque, não estava num dia positivo. Fechou os olhos e pormomentos recordou os golos que marcou, viu-se de braços no ar, os cabelos molhados,correndo para os adeptos, subindo a rede, abraçando o presidente e pensando que o mundo se resumia ao estádio. -Lembras-te quando disseste que a sensação de marcar um golo era superior à de um orgasmo? - perguntou o jornalista, quebrando um silêncio apenas embalado por uma música do Rui Piolhoso que se ouvia em fundo. Firmando Gomes desfiou as suas mágoas, num lamento-monólogo que foi subindo de tom: -Já sei que não sou um génio; nem acabei o curso dos liceus, mas não sou como aquela besta do «capitão» (João Pintas), que ia para os estágios sempre com o mesmo livro, continuando a ler no local que nós íamos marcando, ora mais adiante ora mais para trás. Mas corri um pouco o mundo, leio os jornais e não me dou com a ralé. Até dizem que tenho voz radiofónica e quem sabe se não poderei ser um dia um grande comentador desportivo. Ah, mas o meu sonho, o meu grande sonho, é ser presidente do clube, isso sim, isso iria encher-me as medidas! Eu sei, eu sei, não digas nada, já sei que só depois de o homem morrer é que terei algumas hipóteses. Mas ele não vai morrer tão cedo. Não sei como, mas conseguiu a protecção da Nossa Senhora de Fátima. Sim, da Nossa Senhora de Fátima. O cabrão! Só a mim é que ela não aparece... Firmando estava inconsolável: -Não lhe vou perdoar nunca o facto de me ter obrigado a acabar a carreira noutro clube, logo eu, o símbolo daquele emblema, a sua imagem de marca, o primeiro a dar-lhe algum dinheirinho para o bolso e o favorito do Pidroto. Aqui Firmando teve uma ideia: -Ouve lá, e se eu lançasse uma campanha para dar o nome de Pidroto ao nosso estádio? A ideia nasceu ali, naquele momento, mas no mesmo dia, GC teve dela conhecimento. Vão ter que esperar sentados! - rugiu, sem conseguir esconder que lhe estavam a tentar cravar um espinho na pata. A ideia nasceu, foi regada e germinou. Numa noite de Inverno, foi mesmo debatida e aplaudida num colóquio que se realizou nos arredores da cidade do Porto. Os jornais fizeram eco do acontecimento, mas nenhum jornalista ousou perguntar a GC o que pensava da ideia. GC evitou sempre a pergunta, na certeza de que o assunto acabaria por ficar esquecido. -O Pidroto já lá tem uma lápide, não precisa de mais homenagens e, c´um raio, se ele merece o nome no estádio, o que é que eu não mereço? - interrogou GC os botões do seu novo fato príncipe-de-Gales.
Continua...
Nota:
Nota 2: Para não cansar os nossos leitores e visto que se aproxima um weekend de calor, a publicação de O POLVO só voltará a ser postada na próxima segunda-feira. Até lá, convido todos os que leram desde a 1ª à 6ª parte a postarem um comentário sobre o que acham desta mirabolante história.



VII

“(...) Joaquinas Teixeira foi um jogador muito discreto. O melhor que conseguia era de quando em quando, partir a perna ao melhor jogador da equipa contrária. Para compensar a falta de talento, tomava mais duas pastilhas que as aconselháveis e injectava-se por conta própria, ao ponto de um dia, o médico do clube o ter aconselhado a parar com aquilo, pelo menos, durante 24 horas, sob o risco de bater a bota. Joaquinas Teixeira era tão ambicioso como tosco. É certo que acabou a carreira aos 30 anos e com a calvície a pronunciar-se, mas terminou-a em beleza: com uma boa conta bancária e um chorudo cheque por ter derrubado um adversário na área de rigor, proporcionando uma grande penalidade que salvou a equipa contrária da descida de divisão. O lance não causou qualquer tipo de suspeitas, pois o Teixeira era mesma assim - às vezes acertava, outras não. Mas a história de Teixeira pouca relevância teria na história da vida de Galo da Costa, se o primeiro não acabasse por se tornar um grande amigo do segundo, depois de ser apresentado por Antónimo Oliveira. Rapidamente se gerou ali alguma cumplicidade, não faltando a adorná-la o habitual naipe de mulheres da vida, desde a classe de iniciadas até às seniores em fim de carreira. Para ajudar, o País vivia uma ascensão económica que tinha os dias mais ou menos contados, mas que iria ser boa enquanto durasse. Com o Teixeira a controlar as miúdas e o Antónimo Oliveira a dar a táctica, GC tinha a vida nocturna que queria, mas, ao contrário de Reginaldo, continuava muito agarrado ao dinheiro, não o arriscando na roleta. Esta última acabou por se revelar a desgraça de Reginaldo, que aí foi deixando largas centenas de contos, proporcionando também a um conhecido jornalista algumas jogadas de risco, em especial quando a equipa se deslocava à Madeira. Sempre adiantados dois passos em relação aos restantes, Antónimo Oliveira foi-se afastando do grupo, mas nunca se desligou. Joaquinas Teixeira, entretanto, leu dois livros policiais e começou a falar como um doutor, deixando de ser adjunto do Antónimo - então um treinador de mediano sucesso - para se tornar técnico principal. O conhecimento que tinha da arte das pastilhas acabou por se aliar a um feeling muito especial e, rapidamente, enquanto ia esvaziando o stock de uma farmácia próxima de Paredes, conheceu o sucesso. -O futebol é um espanto. Ainda ontem estava a queimar o couro nos pelados e hoje eis-me a fumar um charuto e a dar bitaites para os jornais! - dizia Teixeira para a mulher, enquanto apreciava as miúdas que se passeavam no areal de Cancún, onde uma conhecida apresentadora de televisão fazia discretamente amor com dois jovens craques que nesse ano tinham surgido na ribalta. -Chegou a hora de começar a apanhar peixe graúdo, pois estou farto de andar aos figos! - desabafou, longe de saber que nesse momento, GC tinha engendrado mais um plano diabólico.
O plano era simples e partia do seguinte pressuposto: no futebol, nem só os jogadores são a mercadoria: há que contar também com o treinador. -E os treinadores, Reginaldo, é que marcam golos ou os permitem! - referiu GC, merecendo o assentimento de Reginaldo. -Vai ser canja - continuou o presidente. Fulano precisa de clube, e nós arranjamos esse clube, a quem damos a garantia de que, com aquele treinador, é que a equipa não desce; não sendo preciso dizer mais nada, eles ficam logo a saber que nós seremos os anjos-da-guarda. -E o que é que nós vamos ganhar com isso, presidente? -Tudo. Começamos por ganhar nos treinadores, que nos vendem a alma para o quef or preciso. Depois, ganhamos com os clubes que os contratam, que também nos ficam a dever favores. Mas não é tudo. Para além de eventuais comissões que virão directamente para os nossos bolsos, os bons jogadores que aparecerem nesses clubes ficam garantidos para o nosso lado e aqueles que forem excedentários do nosso plantel podem ir asilar para esses clubes, o que nos desobriga logo de lhes pagar os ordenados. Isto é o ovo de Colombo. -De quem? -De Colombo, do tipo que descobriu a América. Não julgues que também ele não enganou os Espanhóis. No fundo, era de Génova. O Cristovão... -Quem? O da televisão? -Não, burro, o Cristovão Colombo, e repara que até ele se enganou, pois pensava que estava a descobrir o caminho para Índia quando descobriu a América. Foi o que medisse a Nancy, a nova, aquela que trabalhava num videoclube... -E que tal? -Para o Colombo não correu mal... -Não presidente, que tal a Nancy? -Ah, a Nancy!...boa, sabe aquelas coisas dos filmes... -...o beijo pressionado?! -Qual beijo pressionado, qual quê! Aquelas coisas mais complicadas. Mas não desconversemos. Quero que fique assente que a partir de hoje temos de formar um lobby... -Ó chefe, mas isso compra-se com dólares ou com pesetas?!... -Calado - prosseguiu, já algo irritado, Galo da Costa. Vai ser assim: andam por aí uns rapazes com talento, alguns até foram nossos jogadores, mas os clubes são mais que muitos e as melhores oportunidades normalmente são dadas aos treinadores estrangeiros. Vamos acabar com isso. A nossa garantia vai abrir os olhos aos clubes, que passarão a perguntar-nos que treinador é que podem contratar. Nós é que o escolhemos, percebes? Mas o rapaz que for escolhido já sabe que nos deve não um, mas muitos favores, entendes? Para além de passarmos a controlar o que já sabes, ficamos também com a certeza de que eles farão tudo para derrotar os nossos adversários directos, enquanto que nos jogos com a nossa equipa!... percebeste agora? -Mas, ó presidente, isso é genial! -Claro... O plano foi posto em marcha logo nessa temporada, tendo como cabeça de fila o Joaquinas Teixeira, também conhecido por «Fixe». Os clubes da região caíram nas palminhas de GC, só um deles desceu por manifesto azar, e os adversários directos, por norma, tramaram-se nas deslocações aos terrenos das equipas controladas. Como se tal não bastasse, GC foi pedindo alguns adiantamentos ao longo da época aos presidentes mais abonados, que ficavam satisfeitos só pelo facto de surgirem ao lado de GC ante as câmaras dos repórteres-fotográficos. Um deles, o Manuel Clopes Rodriguez, até se deu ao luxo de reunir na sua quinta os mais ricos empresários da região, com estes, a troco de um galhardete autografado, a entregarem nas mãos de GC uma generosa quantia «para ajudar o clube mais representativo da região».
Na altura, alguns jornalistas ainda tentaram investigar uma história que podia ser o fio da meada ou o fim da picada. Era a história de um jogador belga (Cadorinas) que, nos minutos finais de um jogo no estádio do clube grande, entrou em campo, ao que se supõe, apenas para, na sua área, provocar uma grande penalidade, jogando a bola com a mão e dando assim a possibilidade à equipa da casa de vencer o jogo e não se atrapalhar na corrida para o título. O jogador desapareceu de circulação, e a última vez que foi visto foi a fazer compras em Roterdão, supondo-se que hoje vive desafogadamente numa quinta dos arredores de Liège, onde todos os anos, pelo Natal, recebe um perú com uma mensagem de GC. E o Teixeira? De subida em subida, foi até onde pôde. Depois, claro, já não podia subir mais. GC tinha encontrado um livro num caixote cujo autor era um tal doutor Peter, defensor dos princípios de competência. -Reginaldo, isto é assim: tu só és competente até determinado nível; se o ultrapassares, passas a ser um incompetente, percebes? Reginaldo mais uma vez não percebeu bem, pois, como ele mesmo dizia, tinha uma cabeça que trabalhava a «carvão». -O Teixeira é bom nestas coisas. Quanto muito, posso arranjar maneira de o pôr a treinar a selecção de sub-12, se é que isso o realiza. Mais é que não. Fica onde está e caladinho, e isto é se quer continuar a passar férias a Cancún. O Teixeira concordou, apenas com um pedido. No final da próxima época, preferia ir de férias para as Seychelles!
O bar de Reginaldo começou a ser ponto de encontro para aqueles que queriam usufruir dos favores da arbitragem. Dirigentes e árbitros encontravam-se assiduamente no local, mas nunca tinham um contacto directo, uma situação que foi sempre muito bem controlada, para que não houvesse fugas de informação, tanto em relação a favores como aos preços estipulados. Lentamente, foi criada uma bem organizada rede de corrupção na arbitragem gerida, por cima, por Reginaldo Teles, contando este com um assistente directo: George Gomes. Os árbitros das mais variadas regiões, logo que pisavam o chão da cidade, iam de imediato ao encontro de Reginaldo. Não pediam nada, e muito menos ofereciam qualquer tipo de favor; aguardavam antes, pacientemente, por uma abordagem. No início, estabeleceu-se uma certa confusão promíscua no negócio, e esta situação não era a mais aconselhável. As pessoas começavam a falar de mais, pois já nada passava despercebido, e Reginaldo Teles teve de reorganizar o negócio, colocando as cartas na mesa de Galo da Costa. -Eles parecem moscas a cair no meu bar. A coisa já está a dar muita bronca. -Que coisa? -Aquele negócio dos árbitros. Começou a insinuar-se que eu era capaz de resolver tudo, e os gajos não me largam. São os dirigentes de um lado e os árbitros do outro. Nunca pensei que esta situação pudesse atingir este nível. Uns só querem vitórias; e osoutros, dinheiro... -Deixa lá. Ao menos, fica toda a gente satisfeita. Esse negócio tem de começar a ser gerido de uma forma mais segura. Isso vai dar muito dinheiro, mas é necessário saber fazer as coisas. Roma e Pavia não se fizeram num dia. Estava dado o mote para o arranque de uma organização mais capaz e eficiente, e o plano foi colocado em marcha. Havia receptividade de parte a parte e isso já era um bom avanço. O tempo em que o clube gastava dinheiro para controlar algumas arbitragens já tinha passado. Os árbitros sabiam exactamente onde estava o poder e como se chegar a ele, e se em paralelo se podia ganhar dinheiro, muito melhor. Galo da Costa estava consciente de que todos o temiam. Não tinha o mínimo de pruridos quando queria esmagar um inimigo. Não fazia ameaças, mas os que se mostrassem contra o seu poder podiam ter a certeza de que obteriam uma resposta de acordo com a situação e sem qualquer tipo de contemplações. Perante tal quadro, era muito mais proveitoso estar ligado a Reginaldo Teles. Para além do dinheiro que podiam ganhar, tinham toda a cobertura possível dentro do Conselho de Arbitragem, área onde Galo da Costa e os seus pares se moviam com bastante à-vontade, contando com a colaboração de um presidente da sua inteira confiança. Galo da Costa gostava de evidenciar de uma forma discreta esse poder. Era uma forma de fazer saber que quem mandava era ele. Quem estivesse sob a sua protecção tinha as melhores nomeações e as melhores classificações. E protegia quem se aliasse a ele, incentivando a aproximação dos mais indecisos.
GC queria uma organização perfeita e o controlo absoluto sobre todas as situações. Mas os jornalistas eram indiscretos e perigosos para o negócio. Não era muito saudável que se levantassem muitas suspeitas, e esse sector tinha também de começar a ser muito bem controlado. Galo da Costa sabia insinuar-se e cativar. Quando lhe convinha, promovia encontros com directores de jornais e, de uma forma desinteressada, começava a gabar-lhes os feitos e o trabalho. Incentivados pela guerra estabelecida pela concorrência e sabendo que quem obtivesse maior número de informações junto dos grandes clubes era quem mais vendia, ninguém se negava a esses encontros. Era impossível, porém, controlar toda a gente e, através de algumas acções de intimidação, estabeleceu-se um clima de medo para os que teimavam em mostrar-se independentes. Normalmente às quartas-feiras, o presidente reunia-se com os jagunços e indicava-lhes qual o jornalista que tinha de ser encostado e insultado. Nos dias dos jogos, os capangas passeavam livremente pelo camarote da Imprensa e, através de insultos e ameaças, exerciam uma tremenda pressão sobre alguns jornalistas. A intenção era clara: promover o medo e o consequente silêncio. Durante a semana, quem tivesse o atrevimento de não analisar uma situação conforme lhes convinha podia ter a certeza que tinha à sua espera na primeira oportunidade alguém com o seu jornal na mão a ameaçar que o fazia engolir aquele pedaço de papel. Galo da Costa era mestre na política da divisão, e ao longo dos tempos foi criando divisões entre os jornalistas, porque tinha consciência do perigo que representavam quando todos se resolvessem unir e impor os seus direitos. A organização era-lhe favorável, e ele sabia como jogar todos os seus trunfos. Um negócios implantado no seio da arbitragem era exactamente aquilo que lhe faltava. A Olivedesportivos e a agência de viagens Cósmicas estavam a facturar como nunca. Tinha conseguido vários exclusivos que lhe permitiam efectuar o mais variado tipo de operações, sobrefacturando sem medo de poder ser contestado. Tinha o presidente federativo na mão, e até nem foi muito difícil conseguir isso. Dava-lhe gozo colocar os da capital a trabalhar para a sua organização. Um cartão de crédito sem limite e umas viagens oferecidas ao casal que comandava as operações federativas bastaram para que pudesse facturar alguns milhões. Galo da Costa estava adiantado em relação a todos os outros. Já há muito que tinha entendido que o futebol era a indústria que mais rendia em 90minutos. Mas GC não era infalível. Também cometia os seus erros. Quando, através do agora grande amigo e sócio camuflado, Joaquinas Oliveira, ofereceu um cartão de crédito sem limite ao federativo e à sua mulher, nunca lhe passou pela cabeça que a mulher deste, numa das viagens da nossa Selecção, se lembrasse de utilizar o respectivo cartão em compras pessoais, gastando quase dois mil contos. O cartão foi de imediato cancelado. Numa viagem ao Luxemburgo, onde o clube de GC foi disputar um jogo particular, um emigrante português, que se dedicava à pintura de automóveis e também fazia uma perninha como empresário de jogadores de futebol, conseguiu criar uma grande amizade com GC e Reginaldo. O indivíduo tinha boa pinta e falava várias línguas. Era inteligente e mostrou-se conhecedor do ramo. E como era necessário preencher a vaga de Luigiano D´Onofrio, a solução estava mesmo ali à mão. Josef Veiga tinha todos os predicados para entrar na organização e, num ápice, apareceu em Portugal como sócio de Joaquinas Oliveira. Grandes jogadores começaram a passar pela sua mão. Ganhou prestígio, mas a sua ligação aos Oliveirais limitava a sua acção (...)”.



VIII


”(...) GC estabeleceu então uma nova estratégia: -O Josef Veiga tem-se mostrado competente e capaz. Tem-nos dado muito dinheiro a ganhar, mas está na hora de se desfazer a sociedade. Joaquinas Oliveira não entendeu onde o presidente queria chegar e não hesitou em perguntar: -Mas não estou a entender. Se ele nos está a dar bom dinheiro, porque é que vamos desfazer a sociedade? Então explicou o seu plano: -Se desligarmos o Josef Veiga da nossa organização, simulando um desentendimento, ele fica mais livre para poder trabalhar com outros clubes, nomeadamente com os nossos maiores adversários. Com esta acção, para além dos lucros que daí podemos retirar, ficamos com a possibilidade de minar os nossos adversários por dentro. Ficamos com o campo livre para lhes vendermos jogadores com rótulo dourado, mas fora de prazo, e também podemos vender os seus melhores jogadores para clubes estrangeiros, criando, assim, focos de instabilidade ao mesmo tempo que se lhes diminui a força. Joaquinas Oliveira nem queria acreditar no que ouvia. Aquele homem era de facto um manancial de inteligência. Dois dias depois, estava desfeita a sociedade e, tal como fora previsto, Josef Veiga tornou-se num dos empresários mais conceituados da nossa praça.
Mas a completa organização do sector da arbitragem era o negócio que agora fazia perder mais tempo a GC. Reginaldo Teles tinha descoberto o ovo de Colombo e revelado jeito para controlar a situação. Com um tiro podia matar com facilidade dois coelhos. O seu clube não tinha dinheiro para andar a gastar em arbitragens, e a sua política nunca foi a de gastar, mas sim a de cobrar. Toda a gente sabia que ele não era homem endinheirado, e alguns dos que, nos primeiros anos, ainda ajudaram o clube quando se tornou necessário, agora fugiam a essa situação, porque se sentiam traídos com os negócios efectuados por GC. Era a velha filosofia de que era possível enganar toda a gente durante muito tempo, mas não sempre. Como gostava de dizer, «não corre mais o que caminha, mas sim o que mais imagina». Por isso, tornava-se necessário pensar sempre em novas estratégias. Quem emprestava dinheiro queria garantias, e o clube ia ficando hipotecado a essas situações, perdendo algum património sem que ninguém levantasse a voz para travar esse tipo de situações. Galo da Costa sentia-se inatingível. Estava acima do poder e até o desafiava, sem ser punido por isso. Tinha a força do seu clube por trás. As vitórias, os golos e as alegrias. Tudo era feito em nome do futebol. Galo da Costa sabia que tinha muitos inimigos, e não podia falhar dentro do relvado. O controlo sobre árbitros era a solução que mais garantias dava para que se continuasse a somar títulos, e Reginaldo Teles tinha a solução na mão, sem gastar dinheiro com isso, muito pelo contrário, ganhando milhares. Reginaldo limitou-se a deixar germinar o negócio. Não era necessário movimentar-se. As pessoas vinham ter com ele para estabelecer o primeiro contacto. Já não se negociava com prendas, mas com dinheiro vivo. Foi mesmo estabelecida uma tabela, mas George Gomes não estava muito de acordo. -Isso das tabelas não tem jeito nenhum. Os jogos têm de valer pela importância que têm. -És capaz de ter razão, mas aqui no bar está a dar muita barraca. Temos de falar com o presidente. Galo da Costa já se tinha apercebido da situação e também não andava muito satisfeito com a exposição pública. Havia que evitar uma devassa que, de dia para dia, se tornava mais fácil de empreender, principalmente da parte dos inimigos do costume. Ele mesmo era cliente assíduo do bar e não queria ser visto no local na companhia de árbitros e muito menos envolver-se directamente no negócio. -Vamos «lavar» a imagem que está a passar lá fora. Esta situação tem que ser alterada. Muito embora utilizes o teu bar para o primeiro contacto, combinas depois os encontros para o restaurante do teu primo. O local é mais decente, menos visto, e não é tão frequentado por gente do futebol. E sempre tem ao lado um bom jardim que dará sempre para meditar um bocadito... -Também acho que essa é a posição mais acertada. Vamos mudar isto, e já - concordou Reginaldo. Com uma organização mais eficiente, Reginaldo Teles elaborou uma carteira de árbitros seleccionados por preços, acessibilidade, categoria e forma de actuar. O prémio de cada favor era estabelecido conforme a importância do jogo, e de início, Reginaldo cobrava apenas um terço do estabelecido, mas, mais tarde, quando verificou que os seus favores eram cada vez mais requisitados, passou a cobrar 50 por cento. Ninguém discutia preços nem duvidava do empenhamento de Reginaldo Teles, que sempre que lhe era possível marcava a presença no jogo onde estabelecera o seu melhor negócio.
Mas o volume de pedidos cresceu tanto, que George Gomes começou a ser mais requisitado, entrando no negócio a todo o vapor. Enquanto Reginaldo assumia os seus compromissos e as suas responsabilidades no negócio, George Gomes estava mais virado para o lucro fácil. Fazia-se intermediário, cobrava a respectiva verba e nem sempre os árbitros viam a fracção combinada, o que dava origem a alguns protestos rapidamente silenciados com as ameaças do costume. George Gomes foi mais longe. Com a ambição de ganhar tudo, a maior parte das vezes nem sequer falava com os árbitros e esperava simplesmente que os resultados fossem favoráveis para ficar com a respectiva verba. O negócio até era muito mais rentável na 2ª Divisão. Os jogos eram menos vistos, os árbitros estavam menos expostos e toda agente queria subir. Foi num negócio entre duas equipas da 2ª Divisão que George Gomes foi pela primeira vez desmascarado nas suas vigarices. O árbitro era alentejano, mas tinha um compadre no Porto, proprietário de um restaurante. O lugar era típico e até se cantava lá o fado. Um representante de um dos clubes foi falar com o dono desse restaurante, levando uma proposta em carteira. -Sabemos que és compadre do Jonas Cravo, e ele vem apitar, no domingo. Não podemos perder. Tens de nos ajudar. -Está bem, eu falo com o homem. -Quanto é que achas que lhe podemos dar? -Mil contitos, mas 200 são para mim. -Tudo combinado. Trata do negócio. Passados poucos dias, o mesmo elemento desse clube surgiu no restaurante do compadre de Jonas Cravo para lhe dizer: - Não trates de nada, porque o meu vice e o meu presidente foram falar com o Reginaldo Teles, e ele garantiu que tratava do assunto todo. Para tratar disso, já ficou lá com dois mil contos. - Mas eu resolvia isso com mil. -Oh, pá, nem me quero meter nessa *****! Mandaram-me falar contigo e foram ao bar do gajo e ele sacou-lhes dois mil contos. Fiquei bera com isso e obriguei-os a prometerem-me que os teus 200 contos estão garantidos. -Tudo bem, não há problema. O Reginaldo que me telefone que eu trato do encontro. O homem vem de véspera e janta no meu restaurante. Na véspera do tal jantar, George Gomes telefonou ao dono do restaurante e combinou o encontro com o árbitro. Quando este chegou, foi logo posto ao corrente do que se estava a passar e esperou até quase de madrugada por George Gomes. Como este não aparecia, acabaram por desistir, embora mantendo a esperança de que ele telefonasse. Mas até à hora do jogo... nem um telefonema nem uma palavra. O clube que entregou os dois mil contos a Reginaldo ganhou, mas sem qualquer interferência do árbitro. No final, de regresso ao restaurante do seu compadre, o árbitro voltou a falar no assunto. -O George Gomes não me ligou nem disse nada. -São uns filhos da ****. Ficaram com os dois mil contos e nem sequer se dignaram a falar comigo. Esses gajos são burros como portas. Andam a dar dinheiro a esses chulos. De facto, os dois mil contos ficaram na posse da organização de Reginaldo, sem que este tivesse o mínimo trabalho ou interferência no desenrolar do jogo. E o dono do restaurante nunca mais viu os tais 200 contos. George Gomes sabia jogar com a situação e tinha consciência de que, como não se podia falar abertamente destes negócios, dificilmente se descobriria este tipo de vigarice.
Uma outra vez, no final de um jogo em que o árbitro foi um internacional nortenho, o presidente do clube que venceu acompanhou, no final da partida, esse árbitro ao seu automóvel e pelo caminho disse-lhe abertamente: -O George Gomes já falou consigo? -Comigo? Não. Porquê? -Eu dei-lhes três mil contos para si e ele garantiu-me que já lhos tinha dado. De súbito, começou a chover e, no momento em que o presidente desse clube saltava um charco de água e abria o guarda-chuva para abrigar o árbitro, ambos verificaram que George Gomes, embrulhado numa gabardina, se dirigia a eles. O árbitro não hesitou, e mesmo ali agarrou-o pelos colarinhos, enquanto lhe dizia: -Ó meu filho da ****, andas a governar-te à minha custa! -Tem calma, eu vinha agora trazer-te o dinheiro. O presidente resolveu então intervir, para evitar que aquilo se transformasse num escândalo. -Tenham calma. Vamos resolver isso civilizadamente. Você ainda me disse ontem que já tinha dado os três mil contos a este homem. -É que ainda não tive oportunidade de o encontrar. -Tem aí o dinheiro? - perguntou o presidente. -Não. -Então avise o Reginaldo Teles que amanhã vou ao bar dele e se não me devolverem os três mil contos, armo um escândalo que nem vos passa pela cabeça. Foram muitos os casos como este. George Gomes estava a comprometer o negócio com as suas vigarices, mas o certo é que Reginaldo lhe aparava todos os golpes, e GC começou a desconfiar que eles estavam feitos, muito embora não revelasse o facto para não perder a confiança de Reginaldo, muito menos agora, que ele lhe tinha apresentado a Mariana. Uma rapariga por quem se estava a apaixonar e para a qual até arranjou um emprego no clube. Semanalmente, eram muitos os milhares de contos que se movimentavam em negócios com os árbitros. Reginaldo Teles e George Gomes já evidenciavam sinais exteriores de riqueza. Os negócios eram realizados em dinheiro vivo, mas, quando isso não acontecia, também não havia problema para controlar a situação e não deixar vestígios. Reginaldo recebia os cheques, trocava-os no casino, levantava dinheiro na troca de fichas e entregava em dinheiro aos árbitros. Não deixava qualquer tipo de vestígio. No entanto, esta situação levou-o a viciar-se no jogo. Com alguns montes de fichas na mão, começou a não resistir à tentação de arriscar algum na roleta e perdeu muitas centenas de contos. George Gomes não gostou da situação e por diversas vezes tentou fazer com que o seu amigo deixasse o jogo. -Não gastes dinheiro nessa *****. Não vês que ninguém ganha, e quando ganha, no dia seguinte deixa-se o dobro. -Deixa lá. Isto dá-me gozo, e o dinheiro é dos camelos. Eu controlo a situação. Posto isto, apostou tudo o que tinha no preto. E ganhou. -O que é que eu te dizia, George?...
Galo da Costa e Reginaldo Teles tinham encontrado nos escalões inferiores as suas melhores fontes de receita nas negociatas directamente relacionadas com processos de corrupção na arbitragem. O nível dos dirigentes era mais baixo, e a vaidade dos endinheirados empresários que procuravam o futebol para evidenciarem a sua posição social estava a ser soberbamente explorada. Galo da Costa esfregava as mãos. -Como é fácil ganhar dinheiro no futebol. Quando assumi a presidência do clube, nunca imaginei poder chegar a esta situação e ganhar tanto dinheiro. -Mas, desta vez, veja lá se tem mais cuidado com os investimentos que faz. Siga o meu exemplo; gasto algum no jogo, mas estou sempre bem de vida - juntava Reginaldo Teles, sempre prudente. -Isso não é de admirar. O teu negócio dá sempre. Agora estás a ver-me a gerir uma casa de putas? Toda a gente me caía em cima. -Não é bem assim. Vejam o meu exemplo. Não é segredo para ninguém que sempre vivi à custa da prostituição. Sim, porque não tenho as gajas para andarem a fazer cócegas aos clientes e eu não ganhar nenhum. Ninguém vai ao meu bar beber um copo porque o whisky de lá é muito bom ou a música óptima. -Nisso tens razão. A maior parte do whisky que lá vendes até está marado! Só mesmo as gajas é que são boas. Por falar nisso, já há muito tempo que não me apresentas uma novidade. -E a Mariana? -Adoro aquela gaja. Pelo menos agora tenho-a junto a mim mais tempo e sem ninguém desconfiar de nada. Mas isso não quer dizer que não vá provando uma daquelas novidades que vão aparecendo. -Estou à espera aí de umas gajas novas que vêm da Rússia e hei-de arranjar-lhe alguma coisa. Mas, voltando à conversa anterior, não concordo muito consigo quando me diz que ter um bar de alternos é mau e que não dá prestígio. Você é testemunha de que esses gajos todos não me largam e estão fartos de dizer que sou um tipo porreiro. Até me querem fazer uma festa de homenagem. Não vê, nas viagens ao estrangeiro que fazemos com o clube, as mulheres deles a juntarem-se à minha sem qualquer tipo de preconceito?! Toda a gente sabe que é a minha mulher que gere as putas, que lida com elas todos os dias e, sabe uma coisa: mulheres dos nossos vices e de alguns dos acompanhantes que habitualmente nos seguem, fizeram-se grandes amigas dela e algumas até puxam conversa para saberem como é o ambiente no bar. Isto é um mundo de hipocrisia, e o que é necessário é saber viver nele. -Então eu não sei disso!? Eu levo muitas vezes a tua mulher aos jantares que os clubes estrangeiros nos oferecem, enquanto tu ficas com os jogadores. -Bem, mas aí eles não conhecem a Lisa. E ela até tem boa pinta.
Galo da Costa ouviu o telefone tocar, levantou-se do maple onde estava sentado e foi atendê-lo na sua secretária. -Tudo bem, obrigado. Após uma curta pausa para ouvir o seu interlocutor, GC puxou uma folha de papel e escreveu um nome. -Já sabia que ele nos ia nomear esse árbitro. Fui eu que lho pedi pessoalmente. Sabe, o jogo é importante e não podemos arriscar... OK! Até logo e obrigado. Era o Ariano Pinto - disse GC. -Ele está a ajudar-nos bastante. -Que remédio ele tem. Se não fosse assim, tirava-lhe o tapete. -Mas ele ajudou-nos bastante no início e pode ajudar-nos ainda mais. -Sei perfeitamente que tenho aprendido muito com ele. No início, foi o Ariano que me abriu os olhos e me ensinou que caminhos devia percorrer para ganhar os títulos que ganhámos. Mas agora quem manda no futebol sou eu. A força está do nosso lado, e se ele não fizer o que mandamos, não tenhas dúvidas que lhe tiro o tapete, e ele sabe disso. Reginaldo Teles lembrou-se do quanto Ariano Pinto era importante em toda a estratégia estabelecida. Só a sua amizade já era bom para o negócio que começou a ser montado (...)”.



IX

“(...) Galo da Costa tinha uma visão extraordinária em relação ao futuro e começou a urdir a sua organização. Reginaldo Teles e George Gomes continuavam a dar todo o apoio nos negócios com os árbitros, apostando na ajuda a clubes de escalões inferiores. Com esta acção, iam ganhando algumas centenas de contos semanalmente e tinham cada vez mais os árbitros na mão, não sendo necessário, por isso, gastar nem um tostão quando esses árbitros viessem apitar o seu clube. Entrava-se num ciclo vicioso. Os árbitros ficavam de tal forma hipotecados a Reginaldo Teles que, quando fossem nomeados para os jogos com o seu clube, não tinham força moral para o trair e nem sequer era necessário comprá-los. Mas nem tudo corria da melhor forma, e Reginaldo teve consciência de que não dominava o sector conforme julgava, quando, por diversas vezes, saiu derrotado em acções por ele desenvolvidas. Em 1992, na última jornada do campeonato da 2ª Divisão, Reginaldo Teles foi contactado no seu bar por um clube que tinha hipóteses de subir de escalão e que ia jogar com outro que se não ganhasse seria despromovido. O negócio ficou acertado, comprometendo-se Reginaldo a entregar ao árbitro três mil contos, garantindo outro tanto para si. O árbitro era da capital e, depois de contactado num dos grandes hotéis da cidade por George Gomes e Reginaldo, comprometeu-se a fazer o frete e a ir receber a verba combinada no Domingo à noite ao restaurante do primo de Reginaldo. O clube protegido por Reginaldo era o visitante, e ao intervalo já estava a ganhar por 3-0 com uma arbitragem verdadeiramente escandalosa. A ameaça de invasão de campo estava iminente, mas nem isso assustou o árbitro da partida. Mas, perante tal situação, o presidente do clube visitado, sabendo que o negócio tinha sido feito por Reginaldo e conhecendo o montante da verba combinada, no interregno da partida entrou na cabina do árbitro e, com o descaramento que provinha do desespero, fez directamente a sua proposta ao árbitro e fiscais de linha. -Sabemos que Reginaldo Teles vos ofereceu três mil contos e vocês podem sair daqui mortos. Retirando uma pequena pasta de debaixo do braço, puxou de um grande maço de notas, colocou-o em cima da mesa que estava na cabina do árbitro e apostou forte quando disse: -Estão aqui cinco mil contos e queremos ganhar. A vossa protecção está garantida. Saiu da cabina do árbitro e esperou pacientemente pelos últimos 45 minutos. O inevitável acabou por acontecer: o árbitro deu de tal forma a volta à situação, que o jogo terminou com um resultado de 4-3. Reginaldo Teles tinha sido derrotado na sua estratégia e prometeu vingança ao árbitro. O certo é que esse árbitro abandonou o ofício mesmo antes de atingir o limite de idade. Reginaldo Teles sabia que tinha de ser duro na sua acção para não perder o controlo da situação, e Galo da Costa avisou-o muitas vezes. -É necessário ser duro e inflexível. Ambos se recordavam bem de um caso passado uns anos antes com um árbitro algarvio que foi apanhado com a «boca na botija». Desde que tinha sido promovido ao primeiro escalão, Francesco Silva revelou uma grande ambição pelo dinheiro, aceitando negociar sempre que possível com Reginaldo Teles. Mas depressa verificou que era ele quem dava a cara e sofria a consequência dos escândalos a que ficava obrigado. Reginaldo ganhava tanto como ele e, por vezes, até mais. Este árbitro tinha falado várias vezes com os presidentes dos clubes que favorecia, e eles acabavam por confessar quanto tinham dado a Reginaldo ou a George Gomes. Achou que aquilo era uma exploração e resolveu actuar por conta própria. Galo da Costa teve conhecimento da situação e avisou Reginaldo Teles do perigo que aquela atitude constituía. -Vamos tratar da saúde desse gajo, para que não haja mais fugas. Quando souberes de um contacto directo, avisa-me que eu trato do resto. Reginaldo Teles assentou com a cabeça em sinal de concordância e saiu do gabinete do presidente a pensar na forma como deveria actuar. George Gomes estava à espera dele e, depois de discutirem o assunto, não teve contemplações. -Vamos fodê-lo. Mandamos dar-lhe uma tareia, para ver se ele aprende. Reginaldo não respondeu logo, e passados alguns segundos acabou por dizer: -Dar-lhe uma tareia não é solução. O presidente garantiu que tinha outra estratégia. Só temos de estar atentos e avisá-lo quando soubermos de algum negócio directo. A oportunidade não tardou a chegar. Francesco Silva pedia que nem um cego, e ainformação tão desejada acabou por chegar. O presidente do Conselho de Arbitragem (Lourencas Pinto) era da total confiança de Galo da Costa e deu-lhe a informação tão esperada. -Temos o homem na mão. Ele telefonou ao Roche (Manuel Roche, presidente do Penafiel) e pediu-lhe dois mil contos pelo jogo de domingo. Vamos fazer-lhe uma emboscada. O Roche leva um gravador quando lhe for entregar o dinheiro, e depois entramos nós em acção. -Sigam com a operação, mas lembrem-se que temos de ficar sempre de fora. Quando se viu desmascarado, o Francesco Silva chorou, pediu perdão, mas não adiantou nada. Tinha sido feito. Houve ainda algumas hesitações não sabendo bem se devia levar o assunto para a frente ou apenas pregar um tremendo susto ao Francesco Silva, mas o escândalo rebentou e não foi possível segurar a situação. GC e Reginaldo mais uma vez saíam ilibados do problema gerado, assumindo o papel de anjinhos, mas a força que detinham foi bem evidenciada. Para os outros árbitros, o aviso surgia sempre na forma de um «lembrem-se do que aconteceu ao Silva, que fugiu à nossa protecção, quis fazer os seus negócios sozinho e acabou por se espalhar; mais vale ganhar menos mas estar devidamente protegido».O sistema voltava a estar sob controlo, e a submissão da maior parte dos árbitros a Reginaldo era cada vez mais forte. Ele sabia que não podia perder aquele negócio. A árvore continuou a dar os seus frutos, mesmo fora de época. O restaurante do seu primo transformou-se num autêntico estabelecimento cambial, tal era o volume de negócios que ali se desenvolvia. Os cheques voavam de mesa para mesa, desaparecendo debaixo dos pratos de feijoada.
Josué Silvano, um árbitro com algumas dificuldades na vida, devido aos maus negócios que tinha efectuado na sua empresa, necessitou, entretanto, de comprar uma carrinha e falou com Reginaldo para lhe emprestar três mil contos de modo a efectuar o negócio. Reginaldo levou-o ao presidente, e este não hesitou em passar-lhe o respectivo cheque para a compra da carrinha, mas exigiu ao árbitro que este lhe passasse um outro cheque da mesma importância, mas com um prazo mais alongado. Ambos concordaram, e o árbitro levou os três mil contos. Quando Reginaldo regressou ao gabinete do presidente, perguntou, um tanto espantado: -Não é um risco muito grande emprestar dinheiro a este gajo? -Claro que é sempre um risco, mas não vamos ficar sem esse dinheiro. Isso foi apenas um investimento. Nós vamos precisar dele. Passadas poucas semanas, o clube de Galo da Costa lutava pelo título com o seu principal rival (perigosamente próximo, nessa temporada), e havia uma deslocação difícil mais a norte do País. GC chamou Reginaldo e explicou-lhe a situação: -No domingo, vamos jogar o título. Temos de ganhar de qualquer maneira, e as coisas não estão nada fáceis. Chegou a altura de pedir contas ao teu amigo árbitro. Reginaldo entendeu logo o que o seu presidente queria; pegou no telefone e discou o número do árbitro. Do lado de lá atendeu uma voz grossa e bem timbrada que Reginaldo identificou de imediato: -Olá, estás bom? -Quem fala? -É o Reginaldo. O presidente mandou-me falar-te, porque precisa daquele dinheiro que te emprestou. -Mas agora não tenho essa verba... -Mas tu prometeste!!! -Claro que prometi, mas as coisas correram mal. -Sabes que o presidente tem um cheque? -Sei. E o que é que ele vai fazer? -Nada, se tu te portares bem. -Olha que porra! Até parece que ando a portar-me mal! -Não é isso. Vais ser nomeado para fazer o nosso jogo de domingo e nós temos de ganhar de qualquer maneira. Não interessa como, temos é de ganhar. -Já sabes que comigo não há problema. Diz ao presidente que pode contar comigo. Mas vê lá se me toca alguma coisa. -Deixa isso comigo. Faz a tua parte, que nós depois cá nos entendemos. No dia desse jogo, Josué Silvano passou pela maior vergonha para dar a vitória ao clube de GC, inventando uma grande penalidade que nunca existiu, com a agravante de tudo isto se passar em casa do adversário, situação que lhe originou uma penosa fuga pelas traseiras. Mas ele já estava muito batido nestas «saídas à comandante», assim baptizadas porque normalmente aconteciam no «jeep» do comandante da GNR. Os jornais, a rádio e a televisão comentaram o escândalo, mas o título foi assegurado. Dias depois, o árbitro transmontano, que de bruto só tinha o aspecto físico, foi em busca do cheque dos três mil contos que tinha passado a Galo da Costa, mas este nem sequer o recebeu, mandando recado por Reginaldo: -O presidente disse que aquele dinheiro nada tinha a ver com o empréstimo que te fez. São negócios diferentes. Nós fizemos-te um favor e tu retribuíste com outro. -Mas já viste o que passei no domingo para não ganhar nada com isso? -Tem calma que vais recuperar esse dinheiro. Eu disse-te que não havia problemas, não disse? E vais ver que não há. -Como é que então vais resolver essa situação? -É fácil. Vou arranjar-te uns joguinhos e clientes para te pagarem o frete. Nós ficamos com o dinheiro e abatemos à dívida. -Isso não é justo - disse o árbitro, ao mesmo tempo que dava um murro na mesa. -Não te enerves, porque a situação não é tão injusta como tu julgas. Já sabes que connosco podes ganhar muito dinheiro e vais até superar com toda a certeza essa ***** dos três mil contos. Deixa isso connosco, que nós arranjamos-te jogos para cobrir isso e muito mais. De facto não faltaram jogos a Josué Silvano. Reginaldo não se cansava de lhe arranjar nomeações e pedir os respectivos fretes, mas a devolução do cheque é que nunca foi efectuada, tendo sido utilizado várias vezes para exercer sobre o árbitro os mais variados tipo de chantagem. Os escândalos foram-se avolumando, e o árbitro ficou de tal modo hipotecado à situação que mais tarde teve de fugir para o estrangeiro para evitar a prisão. Algures no Golfo Pérsico, onde tentava montar um negócio de camelos, o pobre árbitro dizia mal da sua vida: -Grandes cabrões, servem-se de uma pessoa e quando ela já não é necessária lançam-na pela borda fora. Mas eles não vão perder pela demora!
Josué Silvano era apenas um exemplo de como alguns árbitros estavam agarrados a Reginaldo Teles e eram obrigados a executar todos os seus planos, muito embora, no meio de toda esta estratégia, surgissem algumas falhas no sistema. O certo é que os árbitros que mais dinheiro ganhavam com os negócios de Reginaldo Teles eram aqueles que apareciam mais vezes a apitar os jogos do seu clube, sendo-lhes exigidos favores à troca de nada. Quanto mais egoísta era o árbitro e mais gastador se mostrava, mais hipotecado ficava. Quando queriam montar negócios ou necessitavam de dinheiro para cobrir algumas despesas da sua vida particular, telefonavam a Reginaldo Teles, e este, salvo raras excepções, nunca se fazia rogado na execução dos empréstimos, mantendo sempre em sua posse alguns documentos comprovativos. Reginaldo Teles sabia bem avaliar a potencialidade dos empréstimos e quanto essa verba lhe iria render. Presos pelas dívidas, os árbitros em causa tinham de se submeter às ordens emanadas por Reginaldo ou George Gomes, uma figura que, aos poucos, se foi transformando no braço direito do seu dilecto amigo. Os empréstimos eram abatidos mediante os jogos efectuados, mas a verba descontada na dívida era sempre muito inferior à que Reginaldo cobrava aos respectivos dirigentes que com ele contactavam. Alguns árbitros estavam fartos de ser explorados e começaram a surgir algumas fugas. Contactados pelos clubes adversários dos protegidos de Reginaldo, traíam os objectivos e colocavam-se do lado contrário, para dessa forma levarem algum dinheiro. A organização era rígida e não perdoava tais veleidades. Reginaldo estava fora de si e, descontrolado, até insultava os árbitros em público. -És um ingrato, mas vou tratar-te da saúde. Este ano já te dei a ganhar mais de 10 mil contos e tu traíste-me. ‘Tás fodido comigo.’ O árbitro, tentando arranjar desculpa para disfarçar o negócio que tinha feito, ainda ripostou: -Não podia fazer mais do que aquilo que fiz, senão era um escândalo. -Era um escândalo, o *******!!! Não viste, há três jornadas atrás, o que fez o Chico? Foi preciso marcar três grandes penalidades para ganharem, e ele marcou-os. Aconteceu-lhe alguma coisa? Claro que não. Ele está sob a nossa protecção. -Ó Reginaldo, desculpa lá, não me fales dessa ***** de desonestidades nem de ingratidões! Para eu ter ganho mais de 10 mil contos, tu ganhaste o dobro ou mais. Eu também estou fodido contigo, porque no jogo que fiz anteriormente ajudei o clube que me pediste e não vi nem um tostão. Não me venhas, por isso, com a conversa de que te pregaram o mico. Eu soube que eles te deram o dinheiro, e eu não ando aqui a fazer fretes de graça, ou para ganhares só tu (...)”.


X

"(...) -Está bem, está bem. Vais ver o que te vai acontecer! E aconteceu mesmo: esse árbitro, que tinha subido ao primeiro escalão no ano anterior, acabou por ser novamente despromovido. Reginaldo não perdeu a oportunidade para lançar o aviso sobre os outros: -Estão a ver o que acontece a quem nos tenta foder e não quer colaborar connosco? Abram os olhos, comigo é que ganham dinheiro!
GC já tinha vários apoios associativos e alguns conselheiros na mão, e caso o presidente do CA não se deixasse influenciar, este já sabia que tinha os dias contados. Poucos foram os que conseguiram gerir com independência o sector. GC estava consciente da força que tinha e das alianças que possuía. Arrastava atrás de si uma grande força popular, argumentando com bandeiras políticas regionais; mas os que o seguiam de perto iam-se afastando, logo que verificavam que aquela bandeira servia apenas para encobrir os seus negócios e não perder o poder popular tão útil em situações menos favoráveis. GC era capaz de tudo para ganhar. Para ele, não existiam barreiras nem personalidades. Habituou-se a esmagar quem se lhe atravessasse no caminho. Duas semanas antes de um jogo entre gigantes (Porto-Benfica) e onde se iria discutir o título, teve um encontro com o presidente do Conselho de Arbitragem, naquela altura um homem isento e honesto, mas com a consciência de que tinha de ter uma certa flexibilidade em algumas situações. A nomeação do árbitro para esse jogo era extremamente importante, e o assunto foi discutido entre os dois: -Que árbitro é que lhe agradava para fazer o seu jogo? GC não respondeu. Pensou um pouco, pegou num papel e escreveu o nome de um árbitro de Setúbal (Carlos Valentão), entregando o papel ao presidente do CA. Este analisou-o e concordou com a situação, até porque o árbitro tinha qualidade e não era daqueles que normalmente negociavam nos bastidores. O clube rival acabou por saber quem era o árbitro e também quem o tinha escolhido. O responsável pelo futebol desse clube, homem muito traquejado e capaz de fazer frente a GC, colocou um plano em marcha. Desconfiado de que GC já tinha o árbitro controlado, contactou com um dos seus fiscais de linha e negociou com ele o resultadodo encontro. Tudo se passou nos arredores da capital no campo de um clube de escalão inferior, onde esse fiscal de linha treinava habitualmente com outros árbitros. Só que, no dia em que o responsável do clube da capital se foi encontrar com o tal fiscal de linha, o encontro foi presenciado por alguém que também tratava da sua forma física. Este, desconfiado, no dia seguinte ligou para Galo da Costa. -Queria falar com o Senhor Galo da Costa. -Da parte de quem? - responderam do lado de lá da linha. -Diga-lhe por favor que fala Maciel Feijoada. Bzzz, click... -Olá, está bom? Então o que é que manda? - perguntou GC do lado de lá do fio. -GC, ontem vi o Gaspar Raminhos a falar com um dos fiscais de linha do árbitro que vos vai apitar no domingo. Ponha-se a pau. -Ah, sim! Esse gajo está fodido comigo! Vou já tratar do assunto. Depois de desligar o telefone, GC, lívido de raiva, ordenou que lhe fizessem uma chamada para o presidente do CA. Logo que este lhe surgiu do lado de lá do fio, entrou a matar: -Tem de me mudar o árbitro do nosso jogo! -Então não foi você que o escolheu? -Pois escolhi, mas soube agora que o Gaspar Raminhos já contactou com um dos seus fiscais de linha. -Isso pode não querer dizer nada, e a faltarem três dias para o jogo não vou substituir o árbitro. Isso seria um escândalo. -Mas tem de ser, senão eu vou fazer um barulho dos diabos. -Faça aquilo que quiser, desde que seja você a assumir essa responsabilidade. Pode até dizer aos jornais que sabe desse encontro. A responsabilidade é sua. Sentindo a inflexibilidade do presidente do CA, ligou de imediato a Ariano Pinto, o homem que o socorria nos momentos de maior aflição, mas nem este conseguiu demover o presidente do CA da sua atitude. Galo da Costa colocou então em movimento uma outra estratégia e, através dos meios de comunicação social, criticou aquela nomeação, levando, como era seu hábito, o assunto ao rubro. O certo é que no dia do jogo confirmaram-se as suspeitas, e o tal juiz de linha que fora visto a ser contactado pelo dirigente do clube adversário não se portou nada bem, prejudicando o clube de GC. Para agravar, um habitual suplente (Cessar Brito) da equipa adversária até bisou, dando a vitória e o título à sua equipa. Pela primeira vez, o assalariado de GC que treinava a equipa (Artosco Jorge) deixou o verniz estalar, chorando baba e ranho na cara do dito juíz de linha. À saída, os árbitros setubalenses levaram uma grande sova, e o chefe de equipa, coitado, sem saber de nada, até levou porrada da mulher de Reginaldo Teles. -Mas, meus amigos, eu não tenho nada a ver com isto, como vocês sabem -desabafava o apitador, enquanto colocava pomada na zona atingida. O que é que eu fiz para merecer isto? Como é que vou explicar à minha mulher estas arranhadelas nas costas? - E, mesmo sendo um homem valente, começou a choramingar... Galo da Costa teve durante toda essa semana de provar o sabor amargo de que, afinal não conseguia controlar todas as situações. Sentiu que tinha de refinar os seus métodos e mandou chamar Reginaldo Teles para discutirem os dois o problema. Reginaldo Teles entrou envergonhado no gabinete do presidente. Não sabia o que dizer. Ele que julgava que tinha o mundo da arbitragem na mão, que tinha inclusive aconselhado o seu presidente a escolher aquele árbitro, e que acabou por ser traído. Galo da Costa quando viu o seu «vice» entrar no seu gabinete, de cabeça baixa, disse num tom apaziguador: -Não vale a pena estarmos agora a bater mais no ceguinho. Temos é de tomar medidas para que uma coisa destas não volte a acontecer. -Ó presidente, sabe que não controlamos os árbitros todos. -Sei muito bem disso, mas a partir de agora, para estes jogos mais importantes, temos de fazer com que sejam nomeados árbitros da nossa inteira confiança e que alinhem no escândalo, se for necessário. O mais importante é ganharmos. Reginaldo ficou mais animado com as palavras do presidente e lançou um alerta: -Isto até é mau para o nosso negócio. Os outros árbitros começam a perder-nos o respeito, e nós acabamos por perder não só o controlo da situação com também aquele dinheirinho que entra todas as semanas. -O povo é de memória curta, e com mais umas vitórias esquece o que aconteceu no domingo. Galo da Costa e Reginaldo Teles gastavam dinheiro à grande e à francesa. A paixão de GC pela Mariana era cada vez mais forte, e isso trouxe-lhe custos exagerados, porque ela sempre se revelou uma mulher de gostos caros e tinha de garantir o futuro da filha de ambos, amealhando alguns cobres. E Reginaldo estava cada vez mais viciado no jogo. Em cada cidade que parava não resistia a uma visita ao casino local. O vício pelo jogo era tremendo. Até parecia castigo de Deus. Tinha entrado nos casinos para lavar dinheiro para os seus negócios pouco claros e acabou por ficar agarrado à roleta. Reginaldo sonhava com Las Vegas, e não havia quem o convencesse que não muito longe ficam os precipícios do Grand Canyon... -Mas no meu caso não vai ser assim. O dinheirinho que entra todas as semanas há-de dar para estas coisas e muito mais.
O futebol é um grande negócio e, agora, que temos a arbitragem na mão, não nos faltará dinheiro - dizia Reginaldo a George Gomes, na tentativa de o convencer a não o aborrecer mais com aquelas conversas de que ele andava a arriscar dinheiro de mais no jogo. - Quem não arrisca, não petisca! - gostava de repetir Reginaldo, especialmente quando desperdiçava umas milenas no preto para ver sair o vermelho, ainda para mais o vermelho... -Olha, essa ***** do jogo ainda há-de ser a tua desgraça. Faz mas é como eu. Vou investindo nuns apartamentos. Pelo menos fico com o futuro garantido - dizia-lhe George Gomes. -Não te preocupes com isso. O negócio vai melhorar. O presidente tem aí um projecto em vista que vai mudar isto tudo - respondia Reginaldo. Tornava-se muito arriscado tentar servir vários clubes ao mesmo tempo. As pessoas já falavam muito nessas histórias e qualquer dia rebentava um escândalo medonho. GC reuniu-se com Reginaldo, e ambos discutiram a nova forma de ganhar dinheiro com a arbitragem, mas com a situação completamente controlada ou, pelo menos, mais controlada. O futebol continuava a ser a guarida dos homens endinheirados à procura de promoção social. Ter muito dinheiro não bastava. Eles gostavam de ser conhecidos, e nada melhor que o futebol para promover socialmente os novos ricos. Reginaldo Teles sabia melhor que ninguém quais eram os empresários que manifestavam grande disponibilidade financeira. A maior parte deles eram seus clientes e deixavam no seu bar muitas centenas de contos através das suas raparigas contratadas. Era só arranjar uma forma de lhe aliviar um pouco mais a bolsa, e o futebol era o melhor meio para isso. O desporto-rei servia de capa para o mais variado tipo de situações. Era só saber aproveitá-lo. Servia para lavar dinheiro e principalmente para fazer esquecer certos preconceitos sociais. O exemplo de Reginaldo era o que mais evidenciava essa situação. Chegou ao Porto para servir na tasca do tio, foi um dos mais conhecidos chulos da cidade, continuava a viver à custa da exploração de carne branca, e as famílias mais conceituadas esqueciam-se disso tudo para o apoiar até à vice-presidência de um dos clubes mais prestigiados da Europa. A sua mulher, que palmilhou noites seguidas na Rua de Santos Pousada, era agora uma senhora bem colocada e apaparicada por todos aqueles que rodeavam o clube, não obstante continuar a ser a dona de um bordel. O futebol é um fenómeno social, e era necessário saber retirar o devido proveito desse facto (...)”.



XI


”(...) Galo da Costa tinha vindo de boas famílias, mas era criticado pelos seus parentes, devido ao relacionamento que tinha no mundo da bola. A sua inteligência não deixava dúvidas e, unindo esse factor à facilidade com que Reginaldo se movimentava no mundo do crime, formava com Teles uma dupla quase imbatível. Reginaldo Teles só possuía a cultura adquirida na tasca do seu tio, e o seu discurso só tinha êxito no bas-fond da cidade. As entrevistas que ia dando só podiam ser concedidas a jornalistas da sua confiança, para que a sua ignorância não se manifestasse com tanta evidência, mas era eficiente nas jogadas de bastidores, e era nessa qualidade que Galo da Costa o aproveitava. Não podia, porém, nem responder nem servir de escudo para os ataques vindos de outros clubes cujos dirigentes conheciam muito bem a sua actividade. Para além de não possuir a capacidade de GC, tinha muitos rabos de palha, e quando surgia em maior evidência nunca conseguia retirar muitos efeitos mediáticos. A sua grande mágoa era ainda não ter podido encontrar um negócio que lhe desse tanto dinheiro como os alternos. Muitas vezes lamentava-se com os seus amigos. -Tenho de acabar com esta *****. Até os colegas dos meus filhos na escola dizem que eu vivo das putas, que sou um chulo. Mas o dinheiro ganho com facilidade sempre superou essas mágoas e também não podia prescindir dos serviços da sua mulher, pois ela era uma «expert» no assunto e o segredo do êxito do bar de alternos. -É que isto de lidar com putas não é tarefa fácil para ninguém. Ou temos os olhos bem abertos ou somos comidos indecentemente. A minha mulher conhece o negócio como ninguém e todos os truques. Já não é comida com facilidade - consolava-se Reginaldo, nas noites de maior angústia, quando tentava ler uma obra de Eça de Queirós.
Quem não dava muita importância a essa situação era Galo da Costa. Para ele, até era bom que o seu amigo de maior confiança tivesse boas putas. Quantas mais ele tivesse, mais ele comia, e o bar sempre era um local de bom chamamento para os seus negócios menos lícitos. Galo da Costa já tinha tido dissabores com alguns desses negócios, e os da arbitragem começavam a ser muito denunciados, mas como o dinheiro desse sector era muito e fazia falta, havia que se estabelecer um novo plano de ataque. As despesas eram muitas e, depois de falidas as empresas em que ele tinha gasto tantos milhões, quase toda a gente já sabia que ele vivia somente à custa da influência que o seu clube lhe fornecia para certos negócios. De vendedor de fogões a empresário falido, GC tinha, porém, a certeza de que o mais importante estava feito: o seu clube ia na crista da onda, e o cartão de crédito que tinha no bolso não tinha tecto. Afagando-o, GC acabou por adormecer embalado por um pensamento reconfortante: «Antes um bomVisa que um bis».
Reginaldo Teles trabalhava no mundo da arbitragem com um certo à vontade. Comprava e vendia com a maior das facilidades. Sentia-se seguro e acabava por cometer erros que, acumulados, se iam tornando perigosos, não obstante usufruir de uma grande cobertura judicial, desportiva e política, situações que eram consubstanciadas através de favores concedidos em todas estas áreas, tendo como referência o poder do seu clube. A bandeira do Norte era içada defendendo um regionalismo recheado de hipocrisia. Esta era a forma de arregimentar a força do povo nortenho quando era necessário sair em defesa de interesses meramente pessoais. Pois se os títulos e os golos eram importantes para os fervorosos adeptos do seu clube, eram muito mais para eles, porque era essa força que servia de suporte aos negócios marginais. Galo da Costa tinha consciência de que no futebol eram autorizados, por parte dos adeptos, alguns jogos obscuros de bastidores. A vitória era importante e combatia-se dentro e fora dos relvados. Alguns adeptos até denunciavam um certo gosto pela habilidade nata com que alguns dos seus dirigentes se movimentavam nos bastidores, mas também se sabia que nenhum deles aprovava que se retirassem benefícios em proveito próprio e muito menos utilizando o seu clube para isso. Mas como o clube ia ganhando... Começaram a surgir algumas denúncias, e uma maior cautela era a medida a tomar com uma certa urgência. Andar a negociar árbitros a retalho era perigoso de mais. Os movimentos multiplicavam-se, e os riscos aumentavam. Alguns jornalistas não se deixaram dominar pelo medo e acabaram por sofrer emboscadas, sendo presenteadoscom alguns socos como medida de intimidação. Reginaldo Teles foi avisado e não parava de pensar como é que o negócio teria de ser conduzido para se acabarem com alguns boatos que começavam a tornar-se perigosos. Nem sequer equacionava poder vir a acabar com um comércio tão rentável. Tinha de encontrar uma solução mais eficaz e menos notada. Já se habituara a ganhar algumas centenas de contos semanalmente, e o seu vício pelo jogo no casino requeria grandes proventos. A ideia acabou por surgir através de um dirigente de outro clube que se tornara um grande cliente e que começou a entender a complexidade do negócio e a dificuldade em acudir a todos os pedidos. -Porque é que vocês não se dedicam a um ou dois clubes em vez de andarem a acudir a todos os fogos? Façam contas e vão verificar que o negócio se torna mais rentável, é mais seguro e não gera tantas confusões. Reginaldo Teles ouviu com atenção a observação, e, como dizia, a sua mioleira acendeu-se como um cockpit no momento da aterragem. Para arrefecer as ideias, pediu ao seu empregado que lhe trouxesse mais um whisky. -Mas com muito gelo. Saboreou durante largos minutos a sua bebida, elaborando mentalmente um novo plano de ataque. Olhou à sua volta e, ao verificar que uma das suas prostitutas se despedia de um cliente depois de lhe ter sacado duas garrafas de champanhe, fez-lhe um sinal e chamou-a. Ela olhou admirada e colocando o dedo indicador no meio do peito nu, bem dentro de um decote que ameaçava fazer-lhe saltar as mamas a qualquer momento, interrogou-se, encolhendo os seus lábios vermelhos e carnudos: -Eu?! Reginaldo passou a mão pelo rosto, fez rodar o copo entre os dedos para agitar o gelo e acenou com a cabeça, confirmando o chamamento. Rebolando a anca, atravessou a pista de dança e dirigiu-se a Reginaldo. -Senta aí. -Mas que luxo! Ser convidada para a mesa do patrão! -Cala-te e ouve. O George Gomes dormiu contigo esta noite? -Já sabe que sim. Ou ainda não lhe disseram que ando com ele? -Sei muito bem que andas com ele, e quero é saber onde o posso encontrar agora... neste momento. -Como ainda é cedo, deve ter passado por casa. Mas ele disse-me que vinha cá hoje. -A que horas? -Ai, isso não sei! Mas deve estar a chegar. -Se por acaso estiver ocupado na altura em que ele chegar, diz-lhe que eu quero falar com ele com urgência. -OK! É só isso? - disse a empregada antes de se retirar, ao mesmo tempo que puxava as mamas para cima e deitava o olho a um novo cliente. Reginaldo Teles dirigiu-se para o balcão onde estava a sua mulher a chamar a atenção de uma das suas empregadas. -Estás aqui para trabalhar e não para namorar. Estiveste na mesa daquele gajo e nem um copo lhe sacaste. Reginaldo Teles ia a pedir um pouco de calma à sua Lisa, quando viu George Gomes a entregar a sua gabardina ao porteiro. Fez-lhe logo sinal com a mão e, após uma breve troca de olhares, dirigiram-se para uma mesa mais recuada e sem barulho de música. Reginaldo apresentou-lhe a sua ideia para se avançar com uma nova forma de negócio. Ao fim de alguns minutos, estava tudo resolvido. Iam trabalhar com três ou quatro clubes de divisões inferiores e com um ou dois de primeira categoria, prometendo-lhes a manutenção. Desta forma, a acção não colidia com os interesses do seu clube muito pelo contrário: podia até sair beneficiada. Reginaldo estava tão entusiasmado com o negócio, que deixou George Gomes embasbacado quando lhe disse: -Isto não tem nada que saber. Vamos deixar de trabalhar jogo a jogo. Para correr tudo bem, necessitamos de tempo e organização. O clube que quiser subir contacta-nos com tempo, fazemos o preço e temos todo o campeonato para tratar do assunto. Desta forma, podemos jogar com algumas falhas e colmatá-las com outras jogadas e outros intervenientes. George Gomes ouviu com atenção, mas ficou desconfiado, pois não lhe passava pela cabeça vir a perder dinheiro. Além do mais, ficava sem campo de acção para algumas das suas jogadas em que prometia levar o dinheiro a alguns árbitros e nem sequer os contactava. Mas Reginaldo descansou-o. -O teu papel continua a ser o mesmo. Nós temos de trabalhar todas as semanas, temos de fazer os nossos contactos, só que desta forma a massa vem dos clubes antecipadamente. No início do campeonato estabelecemos um preço de subida e, como em negócios destes não há crédito, eles dão-nos o dinheirinho adiantado e nós é que gerimos a situação. -E já tens algum cliente? Estamos a mais de meio do campeonato, e até ele acabar não vamos ganhar mais nenhum? - perguntou George Gomes, preocupado e ainda confundido com esta nova situação. Mas Reginaldo não perdeu tempo, expondo-lhe novos pormenores do negócio: -Estamos em Março, e é a partir de agora que começam as grandes confusões. Estive a falar com o presidente de um clube que está à rasca. Não quer descer e, como dinheiro é coisa que não lhe falta, vamos arrancar com esse negócio. Amanhã vais falar com ele, apalpas a situação e, se o vires interessado, combina com ele um encontro aqui no bar, que depois eu faço o resto. Trata disso sem falta amanhã, que eu agora vou até ao casino aumentar a minha fortuna. -Já vais foder o dinheiro todo nessa *****. Assim, não há negócio que resista -lamentou-se o George. Na tarde seguinte, George Gomes fez o seu contacto; falou com o presidente do tal clube que não queria descer e, vendo que este se mostrou interessado no negócio, marcou encontro para essa noite.
Reginaldo Teles escolheu duas das suas melhores mulheres, avisou Lisa de que naquela noite iria aparecer um bom cliente e deu instruções para que nada faltasse, porque estava em perspectiva um bom negócio. Quando ia a sair, disse a Lisa para ela falar com as duas empregadas, avisando-as de que, se fosse necessário, elas sairíam com esse cliente. -É que ele gosta de ter mais que uma mulher na cama, e é bom que ele saia daqui satisfeito. Nessa noite, Reginaldo Teles chegou atrasado ao bar, mas fê-lo de propósito, para queas suas duas empregadas tivessem tempo de levar o cliente ao ponto que ele queria. Quando fez a sua entrada, a situação já estava a ser controlada por George Gomes. -Ele está no ponto de rebuçado. -É assim mesmo que eu o quero. Após estas palavras, Reginaldo dirigiu-se para a mesa do seu convidado e disse, com um ar de não total inocência: -O presidente está bem acompanhado! Ambos trocaram um sorriso e compreenderam que tinha chegado a altura de ficarem sozinhos para tratar de negócios. As duas mulheres, após um ligeiro sinal, levantaram-se da mesa sob o argumento de que tinham de ir à casa de banho recompor a maquilhagem, mas prometendo voltar logo que se acendesse a luz verde... Reginaldo Teles começou a falar da situação aflitiva em que estava o clube do seu interlocutor, passando de imediato àquilo que mais interessava e que tinha proporcionado aquele encontro. -Estive ontem a pensar na vossa situação e cheguei à conclusão de que, se não houver um trabalho a sério, vocês vão direitinhos. -Nós também temos consciência disso. -Ainda ontem um presidente veio ter aqui comigo para ver se eu o ajudava a sair de uma situação como a vossa, mas eu não lhe disse nada até falar consigo. Se vocês quiserem, prefiro ajudar o vosso clube. Sempre é da nossa associação (Porto). -Claro que queremos, mas também não temos muito dinheiro para gastar. -Estive a fazer contas e penso que, com 50 mil contos, podemos controlar a situação até ao final do campeonato. Mas, atenção, que este dinheiro também é para ser investido no campo do adversário. -Com 50 mil contos, vocês garantem-nos a manutenção? -Quase a 100 por cento. -Quase? -Sim, quase, porque a bola, que eu saiba, continua a ser redonda... -E como é que vamos pagar esse dinheiro? -Em três tranches. Dez mil agora e mais duas de vinte mil quando virmos que é necessário o investimento. -Está combinado. O George Gomes pode passar lá amanhã pelo meu escritório e já traz o cheque dos 10 mil. Estava em curso uma nova forma de negociar, e pelos vistos mais segura, para além das vantagens que isso trazia. Com aqueles 50 mil contos podia fazer-se muita coisa, uma das quais era tentar atrasar os mais directos adversários do clube de Reginaldo Teles. Quando estes fossem jogar com o clube que tinha pago os 50 mil contos, investia-se nessa situação. Com um tiro matava dois coelhos: o seu clube adiantava-se em termos de pontos, e o seu cliente ficava bem servido. Só que o egoísmo levou-os a cometer novos erros. O dinheiro era fácil e gastava-se ainda mais facilmente. Reginaldo pedia cada vez mais e investia cada vez menos. Estava ciente do poder que tinha e jogava com algumas promessas de árbitros em termos de classificação no ranking final, pagando cada vez menos em dinheiro e fazendo prevalecer outras situações de favor. Alguns árbitros contentavam-se com isso, mas outros arriscavam e, sabendo que eles estavam a ganhar dinheiro com os seus favores, exigiam a quota parte deles. Surgiram então algumas ameaças de despromoção, e não faltaram desentendimentos, assim como processos de pura chantagem, ao melhor estilo de um filme que George Gomes um dia alugou no clube de vídeo da esquina, «O Padrinho». Mas como o tempo não parava e a bola se revela teimosamente redonda, as coisas complicaram-se, até que se chegou ao final do campeonato, e o clube que tinha investido 50 mil contos para não descer jogava a sua última cartada em 90 minutos de futebol. Reginaldo Teles multiplicou-se em acções, jogando em vários campos, mas era tarde de mais para controlar todas as situações. Havia que investir em vários jogos, e o dinheiro tinha sido gasto no casino e noutros negócios. Mesmo assim, ainda tentou outras soluções, mas os adversários mais directos não andavam a dormir e também tomaram as suas precauções (...)”.


XII

”(...) Já depois dos 90 minutos regulamentares, uma das equipas, não incluídas no seu«pacote», e que jogava a norte, marcou o golo que lhe garantia a permanência. A aposta de Reginaldo Teles tinha falhado. Jogadores, treinadores e dirigentes nem queriam acreditar, e o presidente do clube que tinha dado os tais 50 mil contos para não descer evaporou-se durante mais de três semanas. Claro que depois choveram as desculpas e inventaram-se as maiores jogadas para encobrir o desastre. Reginaldo Teles, depois da tempestade, prometeu que na época seguinte esse clube subiria - e de facto, subiu, muito embora com um investimento menor. Era necessário salvaguardar a imagem para que o negócio não se perdesse, mas para tapar esses buracos houve outros investimentos que falharam. Por exemplo, numa tentativa de subida da 2ª Divisão B à Honra, fez-se também um grande investimento que, tal como o outro, não resultou precisamente na última jornada. Havia dois clubes com possibilidades de serem promovidos. Um deles estava a ser protegido por Reginaldo Teles e a sua organização, o outro vivia da habilidade de alguns dos seus dirigentes que se mexiam bem no seio da arbitragem e conheciam por dentro o negócio. Na última jornada, o clube que estava protegido por Reginaldo ia jogar a casa de um adversário cujo resultado já não contava para nada. O árbitro desse jogo tinha a promessa de que iria ser internacional, e Reginaldo garantiu que este estava controlado. O presidente do clube que queria subir prometeu mesmo uma prenda à mulher de Reginaldo Teles, caso o seu clube fosse promovido: -Ofereço-te um BMW novinho em folha. Eu sei que gostas deste carro, e o Reginaldo não se importa que eu te dê esse prenda. Lisa arregalou os olhos de contentamento e não mais deu descanso ao seu homem: -Vê lá o que andas a fazer. Ele tem que subir. Eu quero aquele BMW. Só que os outros não andavam a dormir. Tinham a situação controlada para o jogo que iam disputar em casa e a aposta tinha de ser feita no jogo com o outro adversário candidato à subida. Na semana que antecedeu esse jogo, já se sabia quem iria ser o árbitro do encontro. Era do Alentejo, terra onde abundam sobreiros e cortiça, e tal como o tal clube era de uma terra onde se fabrica muita rolha; através de um emissário foi dada uma palavrinha ao tal árbitro, mas a proposta no valor de 10 mil contos, foi prontamente recusada. Este foi o sinal de que o árbitro já estava feito com Reginaldo Teles, porque em relação à sua honestidade não havia rolhas que tapassem o fedor que ali se guardava... Só havia uma solução para combater a estratégia de Reginaldo Teles. Os homens da cortiça contactaram o clube a quem o resultado pouco interessava e, como os seus jogadores tinham os vencimentos em atraso, ofereceram-lhes 20 mil contos para ganharem. Era muito dinheiro, e ninguém resistiu à proposta. No dia do jogo, os homens da cortiça lá estavam com a verba combinada: 10 mil contos em dinheiro, trocado no dia anterior no casino por cheques e outros 10 mil em papel com garantia de altos dirigentes federativos da zona centro do País. Ávidos pelo dinheiro que lhes estava a ser oferecido, os jogadores nem pensaram duas vezes, e as habilidades do árbitro não foram suficientes para combater toda aquela (falta de) ambição... Reginaldo Teles tinha perdido mais uma aposta. Tinha falhado mais uma promoção. Fez, no entanto, os seus negócios e ganhou dinheiro com isso. Só mesmo a Lisa é que ficou sem o seu BMW. -**** que te pariu, Reginaldo! Como se não bastasse o facto de não me foderes, ainda me fazes andar de Opel! - gritou Lisa, depois de mais uma «nega» do marido, numa noite, ainda para mais, de lua plena... -Desculpa, filha, acho que bebi de mais! -adiantou Reginaldo, antes de rolar os olhos rumo a um sono sem sonhos, os seus preferidos.

Apesar de falhas bem visíveis na organização, Reginaldo Teles continuava a usufruirde uma excelente reputação no negócio das arbitragens. A máquina estava bem montada, e os perdedores eram levados a acreditar que era praticamente impossível controlar todas as situações de forma a garantirem a vitória. Reginaldo defendia-se afirmando que, se o processo não fosse falível, acertava todas as semanas no totobola. As pessoas conheciam os pormenores da organização e sabiam que o risco de erro era mínimo, mas existia...Reginaldo Teles controlava várias áreas adjacentes ao mundo do futebol e sempre era melhor estar de bem com ele do que tentar lutar contra a sua estrutura. O negócio de corrupção já há muito tinha ultrapassado a arbitragem, encontrando-se instalado noutros sectores. Por vezes, controlar o árbitro não chegava e também era verdade que, nem todos os árbitros se deixavam enredar na teia bem urdida por Reginaldo e George Gomes e, por isso, tornava-se necessário alargar o campo de acção a outros sectores e a alguns jogadores que, na ânsia de arranjar melhores contratos, alinhavam em favores extra. Valia tudo para se servir o melhor possível o cliente. Reginaldo e George Gomes tornaram-se especialistas na tramóia. Tinham toda a cobertura possível do clube que representavam. Aos poucos, os dirigentes dos outrosclubes ficavam dependentes da sua acção e dos seus serviços. No início de cada época, era elaborada uma lista de jogadores a emprestar pelo clube de Reginaldo, e os primeiros a ter acesso a essa lista eram aqueles que se comprometiam a ser os melhores clientes, depositando milhares de contos nos cofres da organização. Destes dividendos, o clube não via nem um tostão, e por isso é que alguns dirigentes com maior estatura moral, ao aperceberem-se que alguns parasitas viviam à conta do seu clube, abandonavam as suas posições, não deixando de comentar: -Isto é impossível. Um clube com tanta dignidade vive rodeado de chulos. É quem mais se orienta. -É preciso ser-se maluco para depender exclusivamente de um pé-descalço e de um mentecapto. -O melhor é sair do barco, senão ainda vamos ao fundo com ele e se isso acontecer já ninguém nos arrancará do lodo... Até o Ilídio, que já tinha investido milhares de contos no clube do seu coração, deixou de acreditar que, algum dia, poderia vir a ser «vice» do futebol profissional e deixou de contribuir quando era chamado a apagar alguns fogos de ordem económica. E gabava-se disso, sem tentar esconder a sua posição: -Deixei de ser burro. Era o que faltava, andar aqui a ganhar honestamente o meu dinheiro para sustentar estes chulos. Se falta dinheiro, que o ponha lá quem o ganha à custa do clube. Se derem 10 por cento do que ganham à nossa custa, já podem acudir a alguns fogos. Sempre é melhor deixarem o dinheiro no clube que os sustenta que deixá-lo no casino. Ilídio sabia que tinha peso entre os adeptos, pelo menos desde o dia em que resolveu pedir a sua demissão de dirigente e, ao contrário de que aconteceu a outros, Galo da Costa se apressara a fazer com que ele regressasse. Gostava de ser campeão todos os anos, mas não apoiava os processos utilizados por Reginaldo e muito menos, ao contrário de outros, deixava que a sua mulher se misturasse com a Lisa nas viagens ao estrangeiro.
Reginaldo Teles ganhava apoiantes entre aqueles que comiam algumas migalhas do seu bolo. Como era conveniente, controlava alguns delegados técnicos, montando um sistema de protecção aos árbitros que com ele colaboravam. Servia-se do seu clube para se insinuar perante os membros do Conselho de Arbitragem, deixando no ar promessas que raramente eram cumpridas. A chantagem era o trunfo mais utilizado na intimidação das pessoas que se deixavam levar por alguns processos menos claros e que, depois de entenderem que pouco ganhavam com isso, manifestavam a intenção de sair da organização. Esses processos, na maior parte das vezes, eram utilizados contra jogadores que se deixavam corromper e que, depois de se sentirem enganados com falsas promessas, se recusavam a aceitar um segundo negócio. Também havia aqueles que, não querendo alinhar no sistema de corrupção, quando contactados, se recusavam a tal. Esses eram constantemente ameaçados e só com muita dificuldade arranjavam novos clubes depois de terminarem os seus contratos. Era a política do medo que se exercia sobre jogadores e dirigentes. Quem contrariasse Reginaldo, sentia que estava a contrariar GC, e o resultado era quase sempre funesto. As pessoas sentiam que lhes estavam a sonegar dinheiro, mas não tinham coragem para se impor. Sabiam por experiência que não era muito saudável alguém voltar-se contra quem manda no futebol. A arrogância com que a dupla GC-Reginaldo actuava e a ditadura que impunham provocava até situações ridículas, mas nada era feito ao acaso. Um dos exemplos disso estava num dos anúncios transmitidos semanalmente pelo Totobola. Nesse anúncio surgiam golos de várias equipas, e como o clube de GC tinha sido esquecido, o próprio presidente contactou a Santa Casa e fez saber que, se não incluíssem num desses anúncios um golo do seu clube, ele mesmo faria uma campanha anti-Totobola. A chantagem valia para tudo, mas GC era também mestre na simpatia, e quando lhe convinha atingir determinado objectivo, se fosse necessário, tornava-se até subserviente. GC e Reginaldo tinham personalidade muito idênticas que se dividiam entre o anjo e o demónio, e por isso é que se entendiam bastante bem e existia uma confiança sem limites entre ambos. GC era o mentor, e Reginaldo o executor. George Gomes queria imitá-los, mas as suas limitações não lhe permitiam longos percursos nessa área. Explodia com muita facilidade e, como não tinha a noção do ridículo, deixava cair a máscara e denunciava a sua real personalidade. Também era verdade que lhe cabia assumir os papéis de maior desgaste. A organização era superiormente constituída e soberbamente organizada. Escolhia os árbitros de personalidade mais frágil para patrocinarem os escândalos nos jogos onde era necessário vencer a qualquer preço e, depois de utilizados, quando já não possuíam qualquer tipo de credibilidade, esses mesmos árbitros eram abandonados e abatidos ao efectivo. Alguns treinadores também se deixaram possuir pela vida fácil de arranjar emprego, entregando toda a sua carreira à responsabilidade de Reginaldo Teles. Ele é que os colocava, mas sempre com o objectivo de conseguir novos clientes. Muitos deles sujeitavam-se ao desemprego durante meses a fio, para esperarem a oportunidade e a ordem dada por Reginaldo. Quando surgia um elemento endinheirado à cabeça de um clube, Reginaldo não perdia tempo. A carreira desse clube começava a sofrer oscilações, até que o presidente era aconselhado, através de um sinal subtil de boa vontade, a mudar de treinador. O acaso proporcionava encontros programados à distância com elementos ao serviço de Reginaldo: -Com esse treinador não vai a lado nenhum. Arranje outro enquanto é tempo. -Não é assim tão fácil como isso. Não há por aí treinadores aos pontapés, e também é necessário pagar-lhes - reagia o presidente, em situação de desespero. -Ó homem, fale com o Reginaldo que ele arranja-lhe um gajo com capacidade. Ele é que controla isto tudo. Estou a ser seu amigo, não ganho nada com isso!
Muitos desses presidentes não agiam de imediato, mas, como os bons resultados teimavam em não aparecer, acabavam por seguir o bom conselho daquele amigo tão providencial. Caíam que nem patinhos na teia que lhes tinha sido estendida. Depois de contactado, Reginaldo colocava a máscara do amigo, do proteccionista que age sem qualquer tipo de interesse. Um autêntico bom samaritano. -Vou arranjar-lhe um treinador de cinco estrelas. Não se preocupe que a partir de agora vai correr tudo muito melhor - garantia aos presidentes mais conhecidos, nos intervalos de algumas beijocas e outras tantas mamadas de algumas especialistas pagas a peso de ouro. Uma semana depois de o novo técnico estar ao serviço desse clube, surgia o conselho tão desejado para os presidentes mais inexperientes: -Tem de começar a aparecer no bar do Reginaldo mais vezes. Ele é um gajo porreiro. E lá é que se resolvem todas as situações. Tentando rentabilizar o investimento que já tinha feito, o «homem» era recebido como um marajá. Lisa encarregava-se de lhe colocar na mesa uma ou duas das suas melhores mulheres. Reinaldo dava ordem para que o serviço de bebidas não falhasse e, para não dar nas vistas, naquele primeiro dia a conta era arredondada para baixo e elevados os carinhos proporcionados pelas raparigas. O dirigente saía satisfeito, e até comentava com os seus colegas: -O Reginaldo é um gajo porreiro. Meteu-me duas mulas na mesa boas como milho, e no final a conta foi uma merdita. O pior acontecia nas visitas seguintes. Iludido com tamanha amizade, o dirigente tornava-se cliente assíduo e, para não parecer mal andar no putedo, sempre tinha a desculpa de que ia tratar de negócios com Reginaldo. Este, por seu lado, só tinha deesperar até que a vítima ficasse definitivamente presa. As bebedeiras sucediam-se, e alguns chegavam até a mijar-se pelas pernas abaixo para descontentamento das mulheres que os tinham de aturar, mas Reginaldo não tinha contemplações quando alguma das suas empregadas se queixavam que já não aguentavam mais micções ou vomitados daqueles pacóvios que estavam ligados ao futebol. -Coitados, nunca saíram de casa e agora bebem dois copos e cagam-se todos. Reginaldo Teles não gostava desse tipo de comentários e cortava-os pela base: -Se não queres trabalhar, fala ali com a Lisa que ela faz-te as contas e vais com a Nossa Senhora. As putas bem se lamentavam, porque com os dirigentes do futebol as suas comissões diminuíam, pelo menos nos primeiros tempos, dado que a intenção não era esmifrá-los, como faziam aos outros clientes, mas cativá-los para operações bem mais proveitosas para o... patrão. -Estás a mangar? O que ele quer é embebedar os perus... -Não tenho pena deles. Tenho mais pena de mim. Ando aqui a dar tudo o que tenho, e o que ganho com esses pavões nem dá para a cabeleireira. -Tem paciência, Vanhia. Pode ser que ainda venhas a casar com um jornalista desportivo, como eu... (...)”.



XIII



“(...) As putas já estavam resignadas.
Chegada a hora de o abutre picar sobre a carcaça, Reginaldo começava a gerir a situação, dando toda a cobertura ao clube cujo treinador lá tinha colocado. As tabelas eram feitas mediante os escalões em que os clubes militavam e, como normalmente as coisas melhoravam de imediato, toda a gente se sentia satisfeita. O presidente tornava-se um bom cliente, diminuindo o orçamento para a contratação de jogadores e aumentando a verba de despesas confidenciais que iam direitinhas para os bolsos de Reginaldo. A qualidade do futebol decrescia também, porque já não era necessário investir-se em bons profissionais, mas sim nas habilidades e manobras de bastidores. Os dirigentes não escondiam essa situação: -Que importa ter bons jogadores se não ganhamos?!... À parte tudo isto, os treinadores colocados por Reginaldo também alinhavam em várias jogadas, principalmente nos finais de campeonato. Quando não estava em causa o resultado para uma das equipas cujo treinador fazia parte da carteira de Reginaldo, era fácil pedir-se-lhe a derrota para beneficiar um outro cliente. Todos ganhavam dinheiro com isso. O sector do futebol júnior também foi transformado num grande negócio através do empréstimo de jogadores e, por isso, logo cobiçado pelos familiares de Reginaldo. Os clubes que eram beneficiados com esses empréstimos, para além de usufruírem de imediato de proteccionismo relativamente às arbitragens e de terem de pagar magros vencimentos aos atletas, tinham de passar cheques cujas verbas iam até aos 5 mil contos sempre em nome de Reginaldo Teles e nunca em nome da colectividade.
O clube que se tornou melhor cliente de Reinaldo andava já há algumas épocas a tentar a subida à 1ª Divisão e já tinham investido muitos milhares a partir do bar gerido pela Lisa. Mas depois de ver frustradas as suas acções e de ter gasto muito dinheiro, um dos seus dirigentes resolveu ter uma conversa com Reginaldo Teles e, sem preâmbulos, foi direito ao assunto: -Já andamos há algumas épocas a investir e ainda não conseguimos nada. Desta vez tem de ser. Digam lá quanto é que é necessário para subirmos de divisão. Reginaldo Teles afagou o bigode, pensou, e só depois disse num murmúrio de grande cumplicidade: -Se vocês querem mesmo subir, vamos ter de apostar forte. -E essa força quanto nos custa? -Não é esta a altura para vos dar uma resposta. Vamos estudar o problema e depois falamos. Reginaldo Teles teve então uma conversa com Galo da Costa, colocou-lhe o problema, e este não esteve com meias medidas: -Se eles querem subir, vão ter de pagar bem por isso. Naquela zona há muito dinheiro. Anda tudo bem calçado. Estabelece uma verba de 250 mil contos e divide isso em quatro ou cinco tranches. -Mas, presidente, isso não é muito dinheiro? -Não, não é, atira com essa verba e se eles não forem na fita baixa um pouco a fasquia, mas não muito. Reginaldo e George Gomes marcaram encontro com os interessados e, após uma curta discussão, ficou acordado que essa verba seria de 200 mil contos divididos em quatro tranches de 50 mil contos. O certo é que, após vários escândalos - jogos houve nos quais foram marcadas três grandes penalidades... - , esse clube acabou por subir ao grande palco do nosso futebol, e ninguém fez menção de fazer segredo de que os grandes responsáveis por essa subida foram Reginaldo e GC. Aqui o segredo nem sequer era a alma do negócio, muito pelo contrário, era necessário que toda a gente soubesse para incentivar novos clientes. Uma autêntica operação de marketing. -Reginaldo, isto é muito melhor que jogar na roleta! - atirava GC, enquanto se deliciava com mais um extracto bancário. -Sem dúvida, presidente, mas agora que falou nela, já me está a dar um formigueiro nas mãos. -Oh, não!...
Toda a gente sabia que Galo da Costa vivia do futebol e essencialmente do seu clube, mas ninguém se arriscava a comentar o facto publicamente. Não se lhe conhecia mais nenhuma actividade e muito menos tinha fortuna pessoal, mas não obstante estes factos, vivia como um milionário. Comprava apartamentos de grande luxo para familiares e denunciava sinais exteriores de riqueza. A sua vida era um mistério que ninguém ousava desvendar. Numa reunião de direcção, Galo da Costa colocou com toda a frontalidade o seu problema económico. Ele tinha consciência de que aquilo que impunha era aceite, e ninguém ousava comentar. Já passava das 22 horas, quando entrou pela sala de reuniões. À sua frente estendia-se uma mesa larga e comprida com os cantos arredondados. À sua volta estavam sentados oito dirigentes discutindo entre si vários problemas de menor importância, mas quando sentiram a porta a abrir-se, viram Reginaldo Teles com o puxador na mão a dar passagem a GC, que entrou com um sorriso nos lábios, logo seguido do irmão de Reginaldo, cuja postura física e comportamento se assemelhavam aos de um gorila. Toda a gente se levantou para cumprimentar o presidente. Reinaldo tropeçou na alcatifa e, não fora a acção rápida de Ilídio Pintas, a segurá-lo pela gola do casaco, ter-se-ia enfiado por debaixo da mesa. GC largou um sorriso, e em tom de brincadeira comentou: -Reginaldo, estão a tirar-lhe o tapete? Toda a gente riu, mas Reginaldo é que não achou piada nenhuma. Todos se sentaram, e Galo da Costa apresentou de imediato a sua proposta: -Meus senhores, aqui neste clube os vencimentos vão ser atribuídos conforme as responsabilidades. A pessoa mais responsável é sem dúvida o presidente. Concordam? Os presentes na reunião olharam-se entre si e, sem perceberem muito bem o que GC queria dizer, acabaram por concordar, muito embora se mostrassem hesitantes. Mas, ao aperceber-se da situação, Reginaldo fez da sua voz a de toda a gente: -Claro que ninguém tem dúvidas que a maior responsabilidade pertence ao presidente. Como ninguém se atreveu a contestar tal afirmação, GC, sem mais delongas, expôs a sua posição: -A partir de agora, o presidente vai ganhar sete mil contos por mês, o treinador seis mil e depois seguem-se os vencimentos dos jogadores, sem luvas e prémios, está claro. Os presentes estavam à espera de tudo, menos de uma situação como aquela, e dois«vices», sem soltarem uma única palavra, levantaram-se da mesa e saíram. GC não se preocupou com o facto, tinha-os na mão e sabia que ninguém tinha tomates para falar. Enfrentando os que ficaram, não deu hipótese a que ninguém mais recuasse: -Então, como este ponto está aprovado, passemos a outro! Ouvia-se a chuva que batia nos vidros. Reginaldo bem tentou dar vida à reunião, mas o seu vocabulário não lhe permitiu ir além de uns monossílabos completamente desenquadrados de toda aquela situação: -Bem...hum...hum...pois... A reunião, por motivos óbvios, acabou depressa. Um raid de comandos não seria mais fulminante.
O suporte económico de GC estava a consolidar-se. Sabia-se da sua ligação camuflada à agência de viagens, da sua comparticipação nos lucros e actividade da Olivedesportivos e ultimamente até tinha comprado um jornal, um elemento indispensável para dar a cobertura nacional necessária aos seus mais variados negócios. A corrupção era uma fonte de receita inesgotável e sem impostos. Mas como não assumia publicamente -nem o podia fazer - nenhum destes negócios, tinha sérias dificuldades em explicar de onde lhe vinha a fortuna. Não se preocupava muito com isso. Ele sabia que tinha várias espécies de argumentos para fazer calar quem ousasse pedir explicações. Era um homem com a resposta sempre na ponta de uma viperina língua. Tudo estava devidamente controlado e de nada adiantava aos clubes da capital lutar pelo poder dentro das estruturas do futebol. GC sabia, há muito, que a força do dinheiro combatia tudo, e as lutas regionais e clubistas superavam-se com facilidade, com sexo e com dinheiro. E nestas áreas estava tudo mais que garantido. Nos momentos decisivos de eleições federativas, era ele quem controlava todas as situações, tendo com referência a ajuda preciosa de Ariano Pinto, um estratego de alto nível e um exímio jogador de sueca. Ariano Pinto era homem para deixar o adversário sem vazas, mesmo quando este só tinha trunfos, passe o exagero. Ariano e GC escolhiam os lugares que mais garantias lhes davam para a continuidade dos seus vários negócios, mas, como não podiam escolher todos os lugares, autorizavam mesmo que alguns mais importantes caíssem nas mãos dedirigentes ligados aos seus mais directos rivais. Não seriam necessários mais de dois meses após o acto eleitoral federativo para que se tornasse claro que os dirigentes indicados pelos clubes da capital já estavam do lado de GC. Mestres na arte da corrupção, proporcionavam vidas faustosas aos dirigentes inimigos(?), e a clubite era de imediato esquecida. Era normal ver-se um presidente federativo ao lado do clube de Galo da Costa, quando este tinha de enfrentar algumas dificuldades e, sabendo-se que esse dirigente se afirmava de determinado clube da capital, nunca ninguém se espantou por ele nunca aparecer ao lado do clube das suas cores para o defender. Pelo contrário, até surgiu um presidente lisboeta que se tornou mais nortenho que um galego! Os pontos-chave estavam todos controlados, para que a manobra fosse absoluta. Exageraram, no entanto, em algumas situações. A sede do poder subiu à cabeça de Galo da Costa, e os ataques ao Governo fizeram-se sentir com grande intensidade quando verificou que no campo político não era possível ter tanta cobertura como no futebol. A Procuradoria-Geral da República colocou a Polícia Judiciária em campo, e a acção contra a corrupção no futebol desenvolveu-se de uma forma intensa. Durante vários meses, Reginaldo Teles e George Gomes foram vigiados de perto, e os seus telefones ficaram sob escuta. Passado um mês, os agentes encarregados desta função já não tinham qualquer dúvida em relação à corrupção e aos negócios de Reginaldo Teles, mas as investigações continuaram. Os agentes testemunharam vários encontros de árbitros com Reginaldo e George Gomes. Ouviram várias conversas em código, mas que entendiam perfeitamente. A rede estava bem montada e tudo indicava que, mais tarde ou mais cedo, Reginaldo e os seus pares iriam cair nas várias armadilhas que lhes estavam a ser montadas. Galo da Costa estava fora dessa investigação. Não era fácil atacar-se um homem como seu poder. A polícia tinha de atacar por baixo para chegar lá acima, mas juridicamente o grupo estava bem organizado e bem escorado. Jogavam, de uma forma invulgar, com carências que a Lei apresentava no combate à corrupção. Seria fácil para a polícia chegar à conta bancária de qualquer um deles e pedir justificações para o movimento semanal de verbas tão volumosas. Mas tal não era possível. Os agentes encarregados da investigação viviam desesperados por não poderem provar aquilo que viam com os seus próprios olhos. Por isso, atrasaram as investigações, esperando uma melhor oportunidade que nunca surgia. Eles sabiam que, no momento que pedissem contas ou justificações, bastava um deles negar-se a fazê-lo para que o processo não avançasse. Eles sabiam, também, que quem tinha que provar que o dinheiro nas suas contas bancárias era ilegal era a polícia e não os acusados. Estavam de mãos atadas.(...)”.


Continua...

Nota: Qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência.

Simplesmente...........

:-applause:-applause:-applause:-applause:-applause:-applause
 
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sintra
#6
Caro colega...eu tb detesto os pintos,bobis e tarecos etc. mas...
vejo esta jogada para tentarem limpar a cara, acusando outros, contudo acho que esta matéria deverá ser investigada e punir os responsáveis , sejam eles quem forem .
a máfia deve ser banida do desporto doa a quem doer , não olhando a cores e a clubes.
corrupção:-Nooo
 
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sintra
#7
Mas a grande coincidência é kuase tudo o que está aqui escrito...
eu não tinha paciência nem pachorra para transcrever parte de um livro de José Marinho " golpe de estádio ".:confused
então as histórias do Gaspar Ramos , do Ezequiel Feijão , Carlos Valente , e dos fiscais de linha não interessam , lá está , não se deve tentar atirar pedras se tivermos telhados de vidro.:-Nooo
Saudações desportivas
 

Kirke

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Luisbatista said:
Mas a grande coincidência é kuase tudo o que está aqui escrito...
eu não tinha paciência nem pachorra para transcrever parte de um livro de José Marinho " golpe de estádio ".:confused
então as histórias do Gaspar Ramos , do Ezequiel Feijão , Carlos Valente , e dos fiscais de linha não interessam , lá está , não se deve tentar atirar pedras se tivermos telhados de vidro.:-Nooo
Saudações desportivas

O problema é que em certo sitio já nem telhados de vidro há....:-rofl2:-rofl2:-rofl2:-rofl2:-rofl2:-rofl2:-rofl2